Crítica de Música

The National: as coisas já não são como eram, mas por enquanto está tudo bem

"Sleep Well Beast" faz-nos ter saudades da paixão que "Alligator" despertou. Muita coisa mudou mas os The National continuam a fazer boa música.

Ao sétimo álbum de originais, Matt Berninger e companhia sairam em força da sua zona de conforto.

Graham MacIndoe

O ato de gradualmente ir cessando comunicações com a pessoa com quem se partilha uma relação: em poucas palavras, é assim que se descreve o ghosting, expressão que há relativamente pouco tempo começou a fazer parte do léxico de muita gente por esse mundo fora e que, de certa forma, se aplica ao que os The National têm vindo a fazer aos fãs, que no início dos anos 2000 por eles se apaixonaram. Sleep Well Beast, o álbum que acabam de lançar, é só mais uma prova disso.

Nos primeiros dias do mês de abril de 2005, um grupo de cinco rapazes que aparentavam tratar a tristeza por tu editaram o seu terceiro disco, o portentoso Alligator. Até esta altura, pouco se tinha ouvido falar de Matt Berninger e dos irmãos Dessner (Aaron e Bryce) e Davendorf (Bryan e Scott), apesar de Cherry Tree EP — lançado em jeito de antecipação deste trabalho — ter feito virar mais cabeças do que os dois álbuns que tinham editado até então, The National (2001) e Sad Songs for Dirty Lovers (2003).

Do outro lado da sala, este belo espécimen chamou à atenção, lançando até um piscar de olho atrevido. Trocaram-se números de telefone e combinou-se novo encontro para daí a dois anos. Em 2007, no dia e hora marcados, todas as barreiras caíram e os The National, vestindo apenas um simples Boxer, fizeram com que o mundo indie (e não só) se apaixonasse.

As guitarras intricadas, a bateria pujante e os sopros que surgiam quase sempre pela calada pareciam ter formado o modelo base para aquilo que um disco perfeito deveria ser. A atração era tão forte que nem Barack Obama resistiu a pô-los a tocar em vários comícios seus. Foi desta forma que aos poucos nos fomos habituando ao indie-rock que podia surgir furioso ou mais tranquilo, mas nunca despido de uma melancolia enternecedora. Esta foi a fase da paixão assolapada que nos fez carregar no play todos os dias.

Quando High Violet chegou em 2010, deu-se a apresentação à família, antes de se escolher a casa onde uma vida a dois iria começar. As linhas estilísticas de Boxer continuavam bem frescas e muitas das canções do novo trabalho quase pareciam fazer parte do seu antecessor. Cada uma delas era pensada ao mais ínfimo pormenor — Berninger já assumiu várias vezes que a banda demora muito tempo a criar porque é tudo escrutinado e testado até à última — e não se ouvia um som que não fosse “orgânico”. Aqui fazia-se música “à antiga”, com instrumentos que não precisavam de software para serem tocados. Quando tudo parecia correr bem, as coisas começaram a mudar.

Trouble Will Find Me, o sexto álbum, surge em 2013 e pela primeira vez o feedback foi misto. A sonoridade mantinha a sua base, se bem que melodicamente alguma coisa soava estranho. Matt continuava a dizer-nos coisas românticas ao ouvido, como que precisava da sua rapariga (“Need My Girl”) ou que os problemas arranjavam sempre forma de o encontrar (“Sea of Love”), mas qualquer coisa parecia faltar. “Rapazes, está tudo bem? Parecem mais distantes…” era o pensamento que surgia após as primeiras audições. Contudo, a inquietação dissipou-se e o disco foi girando no quarto, à noite e de luz apagada. Até que chegaram os projetos a solo.

A capa do novo “Sleep Well Beast”.

Os irmãos Dessner sempre fizeram colaborações esporádicas no mundo da música de câmara e/ou contemporânea, mas desta vez, depois de Trouble Will Find Me, decidiram criar toda uma banda nova, os LNZNDRF (nada má, diga-se). Matt também aproveitou a deixa e embarcou nos EL VY, projeto feito a meias com Brent Knopf (dos Menomena e Ramona Falls) que teve o dom de suscitar em muitos dos seus ouvintes uma certa sensação de vergonha alheia ao ver o perturbado eterno-romântico a tentar ser estrela pop. Por esta altura surgia a dúvida: estas ainda eram as mesmas pessoas por quem nos tínhamos apaixonado?

Quando os primeiros singles deste Sleep Well Beast começaram a aparecer, a insegurança manteve-se. “The System Only Dreams in Total Darkness” não entrou à primeira, “Guilty Party” já soou mais aos bons velhos tempos, assim como “Carin at the Liquor Store”. Temia-se o pior.

Neste novo trabalho dos The National a identidade quase punk de Matt Berninger esmorece cada vez mais. A bateria mantém-se viçosa, as guitarras perdem rendilhados e os sopros (que tanto fizeram por “Fake Empire” ou “England”, por exemplo), desapareceram sem deixar rasto. No seu lugar? Sintetizadores e outros laivos eletrónicos que fazem comichão a qualquer um que já tenha cantado em alto e bom som a “Mr. November” ou a “Available”.

Em Sleep Well Beast, os National arriscam como nunca o fizeram, apresentando-se num formato que requer algum esforço por parte de quem o ouve, especialmente se o ouvinte for um fã devoto da turma norte-americana. Percebe-se que estes continuam a ser os The National porque a sensibilidade que os acompanhou desde sempre, sob a forma de baladas poderosas como “Born to Beg”, “Carin at The Liquor Store” ou “Nobody Else Will Be There”, mantém-se viva e de boa saúde. O problema (se é que se pode chamar isso) surge de mansinho, quando se ouvem canções como “Day I Die” ou “I’ll Still Destroy You”, por exemplo, e parece que as coisas já não são ditas com o carinho de outros tempos. Sente-se uma espécie de vazio emocional estranho que se tenta camuflar atrás das letras sempre bonitas. Por enquanto não será preciso sacar do “temos que falar” ou do “não és tu sou eu”, mas esta espécie de ausência emocional que cada vez se sente mais faz com que, no subconsciente, se mantenha o medo de que um dia destes eles saiam para ir à bomba de gasolina comprar cigarros e nunca mais voltem.

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