Estados Unidos da América

Frank Caprio, o juiz que pede a miúdos que o ajudem a decidir sentenças

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Frank Caprio, o juíz "herói", o juíz "maluco", o juiz "com coração", o juiz "incompetente" que pede ajuda aos filhos dos réus para decidir qual a sentença mais justa.

É juiz mas também é estrela da Internet, “guru” emocional no Twitter e ídolo de milhares de pessoas que veem nele um magistrado “com coração”. Ele próprio publicou na sua conta de Twitter uma foto sua com a legenda “debaixo da toga não tenho um pedaço de ferro mas sim um coração”.

Frank Caprio, de 80 anos e aparência de avô benevolente e pachorrento, tem por hábito chamar para perto de si, enquanto pondera as sentenças, os filhos dos acusados para que eles o “ajudem” a resolver os casos.

“Quem é esse pequeno que está consigo?”, pergunta o juiz a um homem de meia idade acusado de estacionar mal o carro e não pagar a multa.

“O meu filho, Jacob”, responde o homem.

“Olha Jacob, anda daí ajudar-me com este caso porque estou a ter algumas dificuldades em resolvê-lo”, diz o juiz chamando um rapaz loirinho, de cinco anos, para perto de si.

“Tenho três opções: multar o teu pai em 90 dólares, 30 dólares ou não o multar de todo. O que é que achas que eu devo fazer?”, pergunta o juiz ao rapaz.

O rapaz decide pelo valor no meio: “30 dólares”, diz.

Mas o juiz tem outra ideia:

“Vou fazer um acordo com o teu pai: se ele te levar a tomar um bom pequeno-almoço eu deixo cair a multa”, decidiu.

A forma algo excêntrica como este juiz lida com os casos está documenta em centenas de episódios de um reality show “Caught in Providence” que filma a sala de julgamentos da cidade de Providence, em Rhode Island, Estados Unidos.

Caprio é um juiz num Tribunal Municipal e julga apenas pequenos delitos mas a sua forma “menos institucional” de resolver os seus processos fez dele uma celebridade. Os vídeos que chegam da sala tornaram-se virais por demonstrarem uma compaixão com a qual as pessoas se identificam. Não faltam pedidos, nas redes sociais, para que outros lhe sigam o exemplo. Este utilizador, da República Dominicana, considera que o Supremo Tribunal do seu país “devia mostrar aos juízes os vídeos do juiz Frank Caprio”.

Mas há mais histórias comoventes, há várias, aliás. É só entrar no YouTube, colocar o nome do juiz na barra destinada à pesquisa para que logo uma torrente de vídeos do juiz com várias crianças sentadas ao seu colo apareça no ecrã. Mas há um que comove sem se verem crianças — ou precisamente por isso.

Em fevereiro de 2017, Andrea Rogers, uma mulher de 35 anos, apareceu perante o tribunal para responder pela falta de pagamento de várias multas de estacionamento irregular. Muitas multas. Mais de 400 euros em multas. É mãe de três filhos, eram quatro, mas um dele foi assassinado alegadamente pelo seu tio. Desde aí, Andrea esforçou-se para “apanhar os pedaços” e “voltar a construir” uma vida, como descreveu ao Daily Mail, mas não foi fácil.

“Terei em consideração o que nos disse aqui, essa história, relativamente ao seu filho, é algo que nunca ninguém deveria experimentar. Espero que as coisas virem em seu favor. Boa sorte”, disse Caprio perante uma mulher em lágrimas e uma audiência igualmente emocionada.

O vínculo de Caprio com a comunidade tornou-se muito forte, e algo inusitado. Nas entrevistas que dá, o juiz explica que nunca pensou ficar conhecido e muito menos que quisessem tirar selfies com ele como acontece agora, desde que começou a aparecer na televisão.

Caprio é imigrante e garante que foram as adversidades que testemunhou que o tornaram mais “sensível” às dos outros. “O meu pai era vendedor ambulante de fruta, vieram para Providence ainda no século XIX. Ele era um de dez filhos e a minha mãe uma de oito e tiveram que confiar nas pessoas ao seu redor para conseguirem sobreviver”, disse também ao diário britânico Daily Mail.

“Não só neste país mas pelo mundo todo, acho que fica a sensação de que as instituições do Governo não funcionam para solucionar os problemas das pessoas e isso cria uma sociedade cheia de conflitos. Estou sempre muito ciente do facto de que o poder do Estado em comparação com poder de um cidadão comum é desproporcional. Eu iria ter vergonha de mim mesmo se representasse apenas o Estado dando às pessoas sentenças que não merecem, se representasse a lei de uma forma tão estrita”.

Mas a injustiça também lhe tocou diretamente. Ao diário espanhol El País, o juiz contou um episódio que o marcou.

“Uma noite o meu avô foi preso, enquanto jogava às cartas com os amigos, porque se meteu numa briga. A minha avó pediu, implorou ao juiz que não o enviasse para a prisão, enquanto ele mesmo pedia desculpa. O juiz do caso pediu então ao meu pai que fosse ter com ele e explicou que o ia devolver à família porque ele era um homem bom que tinha tido uma noite má. Este juiz teve uma influência muito profunda na vida da minha família”.

Agora tenta replicar este gesto nas suas próprias sentenças porque um tribunal, considera, “deve ser um local amistoso, não de confrontação, nem uma arena onde se ridicularizam as pessoas pelas suas ações”.

Aos que ainda têm idade para isso, diz-lhes que só lhes perdoa a multa se vierem mostrar-lhe as boas notas.

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