Sporting

A arte de bem contra-atacar (e sofrer)

Os "leões" venceram no sempre difícil Georgios Karaiskakis, foram muito superiores na primeira parte, controlaram a segunda, mas acabaram a sofrer (por culpa própria, diga-se) nos últimos minutos.

ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images

Não é bem, bem a mesma coisa.

Logo à partida, Seydou Doumbia e Bas Dost estão separados por dezassete longos centímetros na altura de um e de outro. E enquanto o holandês é mais “pesadão”, até ligeiramente tosco na hora de tocar a bola e algo desengonçado na de correr, o costa-marfinense (que também não é propriamente um prodígio de técnica, diga-se…) faz do relvado uma pista de atletismo – e corre, corre, corre. Jesus sabia-o.

E sabia que a defesa do Olympiacos mais facilmente metia Dost no “bolso” do que Doumbia — que raramente se entrega à marcação desta, jogando de frente para ela e não de costas. Mais: sabia que a defesa do Olympiacos (nomeadamente os centrais Romao e Engels) jogaria a duas velocidades: lenta… e ainda mais lenta. No lugar do ponta-de-lança, Doumbia foi titular e Dost suplente. A ordem era só uma: contra-atacar. Ter a bola, circulá-la por forma a atrair os gregos e, subindo-lhes a defesa, contra-atacar.

Olympiacos-Sporting, 2-3

Estádio Georgios Karaiskakis, em Atenas

Árbitro: Viktor Kassai (Hungria)

Olympiacos: Kapino; Omar Elabdellaoui, Romao, Engels e Diogo Figueiras; Gillet, Fortounis (Zdjelar, 46’), Odjidja-Ofoe, Marko Marin e Carcela (Felipe Pardo, 78’); Djurdjević (Emenike, 62’)

Suplentes não utilizados: Proto, Nikolaou, Kourtis e Sebá

Treinador: Besnik Hasi

Sporting: Rui Patrício; Piccini, Coates, Mathieu e Jonathan Silva; William Carvalho, Battaglia, Gelson Martins (Bruno César, 72’) e Acuña; Bruno Fernandes (Ristovski, 87′) e Doumbia (Bas Dost, 63’)

Suplentes não utilizados: Salin, Tobias Figueiredo, Petrovic e Alan Ruiz

Treinador: Jorge Jesus

Golos: Doumbia (2’), Gelson (13’) e Bruno Fernandes (43’)

Ação disciplinar: cartão amarelo para Romao (23’), Diogo Figueiras (47’), Battaglia (77′), Bruno Fernandes (87′) e Pardo (89′; 93′)

A decisão de Jesus (semelhante a do jogo contra os romenos do Steaua, na terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões) cedo de resultado. Leia-se: golo.

Ainda mal o árbitro Viktor Kassai tinha apitado para o início e já Doumbia “molhava a sopa” em Atenas, somente com dois minutos jogados – curiosamente, o golo não é em contra-ataca mas de bola (mais ou menos) parada. Foi Doumbia mas até poderia ter sido Coates: os dois surgiram isolados na pequena área — e acabou por ser o costa-marfinense a cabecear a bola sem oposição e com o guarda-redes Kapino literalmente “aos papeis”, tentando em vão socá-la. O Sporting cedo ganhou um livre à direita, Piccini deu um ligeiro toque na bola – apenas o suficiente para que rolasse –, Acuña cruzou-a (tensa e redondinha) em seguida para a área e a entrada do Sporting foi realmente “à leão” no estádio Georgios Karaiskakis. Foi o 15.º golo de Doumbia numa fase de grupos da Liga dos Campeões.

Acaso, mero acaso? Não. O Sporting entrou “mandão” e continuaria assim. Aos 13’, há contra-ataque dos “leões”, a defesa do Olympiacos fica nas “covas” e Gelson, à saída de Kapino, bate o guarda-redes grego. Como começou? Assim: depois de um canto, o Sporting estava recolhido à defesa e resistia, o Olympiacos insistia, Odjidja-Ofoe cruzou para a área, Patrício cortou a punhos, a bola chegou a Bruno Fernandes e o médio português rapidamente a tocou para Doumbia de cabeça. Depois, o costa-marfinense não hesitou e desmarcou Gelson. O resto é velocidade nas botas e precisão (mais: precisão e perceção… de quando era tempo de chutar e parar de correr) no remate. Nunca Gelson fez tantos golos num início de época: cinco em oito jogos.

Doumbia fez somente dois passes até aqui. Acertou o primeiro e assistiu no segundo. Tentou assistir uma terceira vez… mas teve azar. Novo contra-ataque, novamente Doumbia (18’) no lance, o ponta-de-lança arranca em direção à área do Olympiacos, desmarca Bruno Fernandes mais ao centro e o português, à meia volta, acertou onde menos queria ter acertado: no poste. No minuto seguinte não foi Doumbia a assistir mas a finalizar. Ou a tentar. Bruno Fernandes tentou desmarcar Gelson no interior da área, pela direita. Não conseguiu. E não conseguiu porque o lateral Diogo Figueiras cortou a bola. Sorte ou não, a verdade é que esse corte acabaria por ser uma “assistência” para Doumbia. Isolado na frente do guarda-redes Kapinos, remataria contra o corpo do grego. E ficou de mãos na cabeça, incrédulo com o que desperdiçara.

O Sporting continuava destroçar em velocidade a defesa (muito frágil e desatenta, diga-se) do Olympiacos. Depois de cortar uma bola a meio-campo, Coates – sim, o central Coates — tabelou com Bruno Fernandes, recebeu a bola de volta e correu (22’) todo o meio-campo defensivo dos gregos em direção à área. Lá entrado, rematou de pé esquerdo — que até é o pé “cego” do uruguaio –, mas Kapinos defenderia.

Quando não era o ferro era Kapinos a defender, quando não era Kapinos era o ferro. Aos 40’, a pressão alta do Sporting (logo à saída da defesa do Olympiacos) deu resultado, os gregos perderam a bola e os verde-e-brancos (hoje equipados de negro) apanharam-nos em contra-pé. Acuña desmarcou Doumbia na área, à esquerda, o costa-marfinense viu Gelson do outro lado quase sem marcação e colocou lá bola, mas Gelson (depois de se livrar de Diogo Figueiras) acertou na barra.

Antes do intervalo, e depois de tanto procurar o terceiro golo, o Sporting voltaria a marcar. E a defesa do Olympiacos voltaria a meter água. De longe, desde a defesa, Coates viu (43’) Bruno Fernandes a desmarcar-se nas costas dos centrais dos gregos, colocou lá a bola e Bruno, à saída de Kapinos, picou a bola por cima do guarda-redes da casa — que a tocou de raspão mas sem hipótese de defesa. Em apenas oito jogos Bruno Fernandes iguala a sua época mais goleadora de sempre. Ou melhor, épocas: apontou cinco golos em 2013/14 na Udinese e outros cinco na última época, na Sampdoria.

Após o intervalo tudo se alteraria. Tudo ou quase tudo. É verdade que o Sporting continuou a controlar o jogo em Atenas, a circular a bola a seu bel-prazer, mas Doumbia foi perdendo “pilhas” e contra-ataques nem vê-los. Aliás, a primeira ocasião de golo após o recomeço até foi grega. Mas só aos 62’. Marin desmarca Djurdjevic na área, pela direita, o sérvio remata, um remate que ainda resvala em Mathieu, sobrevoa Patrício e segue para a baliza do Sporting. Só não deu golo porque Coates foi veloz e cortou a bola para canto in extremis.

Entretanto, Jesus trocaria Doumbia por Dost. E o holandês esteve muito, muito perto do quatro golo do Sporting. Primeiro, aos 88’, Jonathan lança à direita para o interior da área, os centrais gregos saltam juntos e chocam no ar, a bola sobra para Dost, que a remata para defesa de Kapinos. Adivinhe lá quem evitou o golo do holandês no minuto seguinte?… Exato: se não foi o guarda-redes Kapinos só podia ser o ferro. Canto de Acuña à esquerda, Dost salta mais alto do que Gillet na área, cabeceia como quer e para onde quer, mas acerta em cheio na barra.

Tudo resolvido? Não. Se o Sporting teve a arte de bem contra-atacar na primeira parte, teria igualmente a arte (ou falta dela) para sofrer e bem. Aos 89’, Felipe Pardo (ex-Braga, lembra-se?) fez tudo sozinho: sentou Jonathan, entrou na área pela direita, driblou William junto à linha de fundo e, de lá, com pouquíssimo ângulo, rematou cruzado de pé esquerdo, batendo Patrício. A defesa do Sporting (sobretudo o lateral esquerdo argentino que esta noite fez as vezes de Coentrão) facilitou e muito. E mais facilitaria aos 93’. Cruzamento à esquerda de Diogo Figueiras, a bola caí no poste contrário e Pardo — mais veloz do que Jonathan a atacar a bola; aliás: Jonathan nem a atacou… — bate Patrício num remate de primeira. O jogo terminaria logo depois. Ufffff…

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