Psicologia

Afinal, porque é que temos medo de palhaços?

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Com a nova versão de "It" a chegar aos cinemas, muitos são os que voltam a lembrar o medo que têm dos sorrisos rasgados dos palhaços. A fobia tem raízes na História mas é na nossa mente que habita.

Pennywise, o palhaço assassino, na versão de 2017 de "It"

Vinte e sete anos depois da primeira versão, “It” já arrecadou mais de 200 milhões de euros nas bilheteiras espalhadas pelo mundo, o que equivale a mais de três vezes o preço que custou a produzir. Renascido em 2017 como o maior sucesso de bilheteira no dia da estreia no mundo dos filmes de terror, a nova versão às salas de cinema esta quinta-feira em Portugal.

[o trailer de “It”]

It surgiu originalmente em 1986 como um livro de Stephen King, que contava a história de um serial killer que usava um disfarce de palhaço — de nome Pennywise — para conseguir chegar perto das suas vítimas preferidas: crianças. Mais tarde, em 199o, “It” surgiu como minissérie de televisão, conquistando ainda mais sucesso. A nova versão, produzida de acordo com as exigências do showbiz do século XXI, é o mais recente episódio de uma saga vencedora.

Mas ainda antes de estrear por estas bandas, o remake de “It” já está a causar arrepios a quem não se sente confortável com homens pintados de branco e lábios pintados de vermelho — mesmo junt de quem nunca viu a adaptação com quase 30 anos ou de quem nunca leu o livro.. As personagens que devíamos associar à alegria e descontração podem ser as mesmas que nos deixam brancos de susto. Porque é que há quem tenha tanto medo de palhaços? A justificação está na nossa mente e na História e é sobretudo esta que aqui recordamos.

Joey e Pierrot. A história triste dos palhaços sorridentes

Nos bastidores do histórico Teatro Drury Lane, Joseph Grimaldi enchia o rosto com uma espessa camada de pó de arroz, pintava excessivamente os lábios de encarnado e desenhava grandes triângulos vermelhos nas bochechas. A vida do espetáculo estava-lhe no sangue. O bisavô paterno, John Baptist Grimaldi, havia deixado o trabalho como dentista em Itália para se dedicar às peças de teatro em Londres. O avô, Giovanni Battista Grimaldi, seguiu-lhe os passos em Inglaterra e França, onde chegou a ficar detido na Bastilha e depois enviado para a capital britânica por causa de um “espetáculo escandaloso”. E o pai, Joseph Giuseppe Grimaldi, era um reconhecido ator e bailarino que casou com uma das suas aprendizes, Rebecca. Ela ainda não tinha 14 anos e ele já ultrapassava os 60. Em 1778, Joseph Grimaldi vinha ao mundo e com apenas dois anos já participava nos espetáculos do pai.

Joseph Grimaldi vestido de palhaço. Créditos: Bonnor and O’Keefe

Ali sentado à frente do espelho vestido com um fato cheio de bolinhas amarelas, mangas volumosas e chumaços nos ombros, Joseph Grimaldi transformava-se no palhaço Joey e era o artista mais aclamado da época. Estima-se que um oitavo da população londrina chegou a ver o pai dos palhaços modernos em alguns dos palcos mais famosos da capital inglesa. Mas quando tirava a maquilhagem do rosto e descalçava as botas azuis com laços, a vida de Grimaldi era muito mais sombria. O pai, um “homem de comportamentos obsessivos e excêntricos” que mantinha várias famílias, batia-lhe violentamente se lhe desobedecesse e fingia morrer à frente dos filhos por ter fascínio de ver a reação de medo no rosto das crianças. Já no leito da morte, a sofrer de edema, Giuseppe obrigou a filha mais velha, Mary, a cortar-lhe a cabeça depois do último suspiro porque tinha medo de ser enterrado vivo. Em troca, Mary recebeu cinco libras a mais na herança. Com nove anos, Joseph Grimaldi tinha-se tornado no principal sustento da família.

Mesmo em adulto, no auge da sua carreira, a vida do palhaço Grimaldi contrastava com as gargalhadas que arrancava ao público sempre que entrava em palco e dizia: “Aqui estamos nós outra vez!”. A primeira mulher de Grimaldi, Maria, morreu enquanto dava à luz o primeiro filho, que também não sobreviveu. Para lidar com o luto, o palhaço dava dois espetáculos por noite, um no Teatro Drury Lane e outro no Teatro Sadler’s Wells. Mas durante um desses espetáculos, Joseph Grimaldi deu um tiro no próprio pé com uma arma com que costumava aparecer em palco e ficou de baixa durante cinco semanas. E apesar de ter casado com a dançarina que cuidou dele durante esses tempos, o filho que resultou do novo casamento transformou-se num palhaço bêbedo que morreu aos 31 anos. Reformado por invalidez, tais eram as dores que os malabarismos em palco lhe valeram, Grimaldi morreu bêbedo e na miséria em 1837.

Enquanto Joseph Grimaldi conquistava o público que escondia uma triste vida pessoal, Jean-Gaspard Deburau levava os parisienses ao rubro com o palhaço Pierrot. Também ele escondia uma realidade sinistra debaixo da maquilhagem monocromática que o tornou famoso: Deburau era tão famoso em Paris que mesmo sem maquilhagem era aclamado na rua pelos habitantes da capital francesa. Um dia, um grupo de crianças encontrou-o numa rua e começou a fazer piadas sobre Pierrot. Jean-Gaspard Deburau matou um deles com uma pancada na cabeça dada com uma bengala.

Jean-Gaspard Deburau vestido de Pierrot. Créditos: Wikimedia Commons

O medo de palhaços está na História

Para David Kiser, diretor de talentos da Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus (um dos maiores circos ambulantes do mundo), as histórias de Joseph Grimaldi e Jean-Gaspard Deburau são a personificação daquilo que os palhaços, no fundo, sempre foram: “uns espíritos maliciosos”. Em entrevista à Smithsonian Magazine, David Kiser explicou que “os palhaços sempre tiveram um lado obscuro. Eram personagens que punham um espelho das casas de diversão a refletir a sociedade. A sua comédia sempre derivou de apetites vorazes por comida, sexo, bebida e comportamentos maníacos“. E é assim desde que os faraós do Egito contratavam pigmeus para animar os líderes, desde que o palhaço YuSze fazia pouco dos planos do imperador Qin Shih Guang para pintar a Grande Muralha da China ou desde que, na Roma Antiga, os bobos da corte se chamavam “stupidus“. Mas Andrew McConnell Stott, professor da Universidade de Buffalo, encontra outro culpado para o receio que alguns sentem dos palhçaos: Charles Dickens.

Em 1836, um ano antes da morte de Grimaldi, Charles Dickens lançou The Pickwick Papers, um famoso livro publicado em partes em que uma delas fala sobre um palhaço reformado cujo corpo se degradava a cada gargalhada que arrancava do público: sempre que alguém ria das suas piadas, o palhaço sofria dores incomensuráveis. Para Andrew McConnell Stott, foi Charles Dickens que lançou “as sementes na imaginação popular para o palhaço assustador”: “Tornou-se impossível dissociar a personagem do ator”. Quatro décadas mais tarde, depois de os circos terem começado a ganhar espaço no mundo do espetáculo tanto na Europa como nos Estados Unidos, o crítico literário Edmond de Goncourt havia de escrever: “A arte do palhaço e agora algo assustadora e cheia de ansiedade e apreensão. Os seus feitos suicidas, os seus gestos monstruosos e mimetismo frenético lembram-me de pátio num asilo para lunáticos”.

“Pickwick Club” de Charles Dickens. Créditos: Wikimedia Commons

Mas uma coisa é não gostar de palhaços, outra é ter medo deles. Chama-se coulrofobia ao medo excessivo e intenso de palhaços, mas essa é uma condição que nem sequer faz parte dos livros oficiais de psicologia. O único manual da psicologia e psiquiatria onde o medo por palhaços é mencionado chama-se “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” e apenas se refere a essa fobia numa secção dedicada à pediatria sobre “medo de personagens mascaradas”. Nesse livro, os psicólogos dizem que essas fobias “normalmente começam em crianças com idade abaixo dos dois anos, quando ficam ansiosas por estarem com estranhos. Nessa idade, a mente das crianças ainda está em desenvolvimento e não consegue distinguir completamente a fantasia da realidade”.

Um desconforto com raízes na massa cinzenta

Sabemos disso desde 1920, recorda a IFL Science, um reconhecido portal de divulgação científica. Nesse anos, os psicólogos John B. Watson e Rosalie Rayner estudaram um bebé de nove meses psicologicamente equilibrado e saudável chamado “Albert B.”. Numa experiência com traços que hoje seriam considerados desumanos, o psicólogo comportamental e a sua aprendiz mostraram à criança uma série de imagens que mostrava um rato branco, um coelho, um macaco, máscaras e um monte de jornais a arder. Albert não mostrou medo de nenhuma daquelas imagens, por isso os dois psicólogos avançaram para a segunda parte da experiência: ao mostrar a imagem do rato à criança, John B. Watson produziu um som com um tubo metálico e um martelo. A criança começou a chorar. Quando Albert se acalmou, os cientistas voltaram a mostrar-lhe o rato e a produzir o mesmo som. Como na primeira vez, o bebé começou a chorar. A experiência foi repetida tantas vezes que, a certa altura, o rapaz começava a chorar simplesmente de olhar para o rato.

Imagens das gravações da experiência “Albert B.”. Créditos: Wikimedia Comuns

Com esta experiência ficou provado que, tal como nos cães estudados na Rússia por Pavlov, também no humano se verifica o chamado “condicionamento clássico”: o cérebro começa a associar dois estímulos sem relação aparente e direta entre si se eles começarem a coincidir. Aprendemos então a associar um “estímulo neutro”, que é inofensivo, com outro que nos causa desconforto. Se essa associação se tornar muito enraizada nas nossas experiências, nascem os medos, que podem ser exacerbados se forem muito marcantes e se acontecerem muito cedo na nossa vida.

Raramente esse medo persiste à medida que amadurecemos: apenas 2% da população adulta no planeta tem uma verdadeira fobia por palhaços. Ainda assim, a psicologia tem resposta para este medo: ele existe porque, num rosto pintado, os adultos não se sentem confortáveis em não conseguir distinguir emoções genuínas. “Onde há mistério, costumamos partir do princípio que também há maldade. Por isso é que olhamos para um palhaço e pensamos: o que estás a esconder?“, resume Andrew McConnell Stott.

É como se não pudessemos podemos confiar neles, diz Rami Nader, diretor da Clínica da Ansiedade e Stress no Canadá à Health: “Eles têm uma expressão artificial, pintada e exagerada. Essa expressão não representa o que o palhaço realmente sente porque ninguém pode estar feliz a toda a hora e, no entanto, ele tem sempre um rosto sorridente estampado durante todo o tempo. Sabemos que ele nos está a mentir, que estamos a ser enganados“. Uma cara mascarada cria “ambiguidade nos verdadeiros sentimentos” que queremos sempre ler nas outras pessoas.

Não ser capaz de ler a expressão alheia incomoda as pessoas, mesmo que inconscientemente. Isto é confirmado pela psicóloga social Melanie Phelps ao The Sun: “O nosso cérebro tem de combinar padrões para sobreviver. Temos de ser capazes de reconhecer e distinguir rostos humanos que consideramos amistosos”. Como o rosto de um palhaço é sempre criado com base no exagero, as regiões mais essenciais do cérebro não conseguem reconhecê-lo como seguro e a mente rotula-o como uma possível ameaça. Não é nada pessoal: este receio, muitas vezes inconsciente, de palhaços é gerado também por figuras como os vampiros ou os demónios: “Eles são demasiado imprevisíveis e travessos para o nosso gosto”, adjetiva Frank McAndrew, professor de psicologia em Knox College.

É o que explica também Mark Griffiths, psicólogo da Universidade de Nottingham Trent. A maior parte das pessoas não tem medo de palhaços no ambiente onde os esperamos encontrar (como no circo), mas vê-los noutros contextos pode ter um efeito diferente no cérebro. “Esse é um estereótipo do palhaço desagradável, maléfico e estranho. Quando se olha para um palhaço, tende-se a encontrar partes do corpo exageradas, como os pés ou partes do rosto. Mesmo que isso não seja feito diretamente, mas através de filmes do Stephen King ou de personagens como o Joker”.

A culpa também é do cinema, do teatro e da literatura

A arte soube aproveitar-se destes meandros da mente humana. Depois de Charles Dickens ter lançado o livro sobre um palhaço em sofrimento por detrás dos constantes sorrisos, provavelmente inspirado no filho de Joseph Grimaldi, outras obras de arte exploraram o medo por palhaços. Em 1892, a ópera italiana “Pagliacci” falava de um palhaço que assassinou a mulher durante um espetáculo porque ela o tinha traído.

Já no século XX, em 1940, a DC Comics criava Joker, um psicopata criminoso em Gotham que dificulta a vida de Batman. Quarenta anos depois, sai “Poltergeist”, a história de uma família californiana que experencia fenómenos sobrenaturais e que incluem o ataque de um boneco em forma de palhaço. Oito anos mais tarde, em 1990, Stephen King lança a primeira versão de It, a história de um palhaço demoníaco responsável por assassinatos brutais e desaparecimentos misteriosos ao longo de séculos. O fascínio pelo medo de palhaços prossegue para o novo milénio com “Saw”, uma série de filmes estreada em 2004 em que um boneco semelhante a um palhaço comandado por um psicopata leva grupos de pessoas a explorar os seus instintos mais primários de sobrevivência com jogos mortíferos.

De gangster a psicopata: a evolução do Joker em imagens

Estas representações dos palhaços não ajudam a dissipar o medo. E até dificultam a vida profissional dos animadores socioculturais que fazem da máscara de palhaço o seu ganha-pão. Artigos publicados desde o início do século sugerem que há cada vez menos palhaços a participar em espetáculos de entretenimento na cultura ocidental. Para Andrew McConnell Stott, professor da Universidade de Buffalo, isso é uma prova de que “o palhaço já não é a figura de diversão” a que estava associado no início dos tempos.

Na verdade, estudos psicológicos têm vindo a sugerir que “as imagens negativas dos palhaços estão a substituir as imagens positivas dos mesmos palhaços”, explica à Smithsonian Magazine Martin Antony, professor de psicologia da Universidade Ryerson em Toronto. É como uma bola de neve: como têm aparecido mais representações assustadoras dos palhaços, há menos oportunidades de criar boas associações a eles, aumentando o medo. Quanto mais medo houver, menos serão procurados. Mas a culpa não é só da literatura, do teatro e da cinema: a realidade também se tem provado sombria.

O caso de Wayne Gayce

A polícia bateu à porta do número 8975 na West Summerdale Avenue. Se alguém podia ter pistas sobre os misteriosos desaparecimentos que em 1978 assustavam Chicago (Illinois, Estados Unidos) era John Wayne Gacy. Era suficientemente próximo dos membros da comunidade para lhe poder saber alguns segredos. Quando pintava os lábios de vermelho e contornava os olhos de azul, John transformava-se no palhaço Pogo, o melhor amigo das crianças da cidade. Mas à saída de sua casa, a polícia notou um cheiro esquisito. Era, dizia John, um entupimento nos esgotos. A explicação não pegou junto de um dos polícias, que começou a investigar a vida do homem por detrás das tintas de palhaço. Encontrou um assassino em série com um passado triste.

John Wayne Gacy. Créditos: Wikimedia Commons

Quando voltaram a casa de Gacy, o homem, à época com 36 anos, já estava à espera das autoridades. Levou-as para o porão da casa e desenhou um mapa onde explicou onde estavam os cadáveres das 33 pessoas que tinham desaparecido nos últimos anos, com idades compreendidas entre os nove e os vinte e sete anos. Admitiu ter torturado, violado e estrangulado todos eles. Alguns estavam enterrados mesmo ali, em sua casa. Outros, de quem já não se lembrava dos nomes, tinham sido atirados ao rio. Depois de ter dito tudo isto à polícia, desmaiou. Quando voltou à consciência negou a autoria de todos os crimes que havia confessado minutos antes: “Não fui eu quem desenhou este mapa. Foi Jack Hanson. Foi ele quem os matou”.

A teoria de que John Wayne Gacy tinha um distúrbio de personalidade – e que o palhaço tinha vários homens com vontade própria no seu corpo – não convenceu todos os psicólogos envolvidos no caso. Os diagnósticos admitiram que Gacy podia ser um “pseudoneurótico esquizofrénico paranóico”, um sociopata e até um “mentiroso patológico”, mas acima de tudo era contraditório nas versões que contava em tribunal. Numa delas, no entanto, dizia que se lembrava de cinco crimes, mas que “é como se as memórias não fossem realmente minhas”. Os psicólogos perceberam a origem destas perturbações: o palhaço Pogo era maltratado pelo pai, um alcoólico que espancava de tal forma o filho – a quem chamava de “bicha” – que chegou a provocar-lhe um traumatismo craniano aos 15 anos. A homossexualidade levou-o à prisão em 1968, já com 26 anos, por ter sido apanhado a praticar sexo com outro homem na casa de banho de um bar. Quatro anos mais tarde começou a matar.

Em 1972, John Wayne Gacy conheceu Timothy Jack McCoy, de 15 anos, numa paragem de autocarro. Gacy perguntou-lhe se estava interessado em conhecer Chicago e ofereceu-se para o acompanhar na viagem, garantindo que levaria o jovem de volta à estação a tempo do autocarro que levaria McCoy até Omaha no dia seguinte. McCoy, quinze anos mais novo, aceitou. No dia seguinte não voltou para casa. Foi morto. John Wayne Gacy alegou que encontrou McCoy de faca em punho à frente da porta do seu quarto. Quando se levantou da cama, McCoy terá levantado os braços em rendição, mas a faca provocou um corte num dos braços de Gacy enquanto caía. Ambos começaram a lutar, até que o palhaço pegou na arma e esfaqueou McCoy até à morte. Só quando foi à cozinha é que percebeu que o jovem não o queria matar: McCoy tinha feito ovos e bacon e posto a mesa para dois, por isso o mais provável é que tivesse apenas ido até ao quarto chamar Gacy para o pequeno-almoço. Mas era tarde demais. O palhaço enterrou o corpo de McCoy no porão e cobriu o túmulo com cimento. Mas o seu gosto por matar veio à tona.

Algumas das vítimas de John Wayne Gacy. Créditos: Wikimedia Commons

Entre 1972 e 1978, John Wayne Gacy matou pelo menos 33 pessoas. As vítimas eram todas do sexo masculino. Gacy conduzia um Oldsmobile preto e conversava com rapazes para os aliciar a trabalhar na sua construtora, uma atividade que tinha além do trabalho como palhaço em festas de crianças ou em hospitais. Tinha duas formas de atuar: ou convencia os jovens a seguirem com ele para casa a fim de falarem sobre a proposta de trabalho; ou então, caso o plano não funcionasse, oferecia-lhes droga e dinheiro. A seguir atacava-os com clorofórmio, já dentro do automóvel, e levava os rapazes inconscientes para casa. Depois vestia-se de palhaço Pogo e violava e torturava as vítimas enquanto lhes lia passagens da Bíblia e tapava a boca com as cuecas de outros rapazes. Usava sempre instrumentos, um dos quais apreendidos pela polícia nas primeiras buscas: era o garrote.

Das 33 vítimas de Gacy, oito não foram identificadas na época. Só mais recentemente é que dois desses corpos ganharam nome: um era William ‘Bill’ George Bundy, um trabalhador da construção civil que desapareceu no dia em que celebrava 19 anos; outro era Steven Soden, de 16 anos, desaparecido durante uma visita de estudo do orfanato onde vivia.

O julgamento de John Wayne Gacy começou em 1980 e prometia ser longo: havia 100 pessoas para ouvir, entre os quais familiares do palhaço. Enquanto a batalha judicial corria, Gacy dedicava o tempo na prisão a pintar: outros criminosos, personagens da Disney, figuras bíblicas ou autorretratos. Apontava sempre quem lhe visitava, o que comia e todos os passos que dava. Em 1994 chegou o veredicto: foi considerado que Gacy estava consciente de todos os seus crimes e por isso foi condenado a 21 prisões perpétuas e 12 penas de morte. Foi morto por injeção letal em 1994. As suas últimas palavras: “Kiss my ass”.

Palhaço Pogo. Créditos: Wikimedia Commons

A onda de palhaços assustadores

Memórias como a que o palhaço Pogo deixou nos norte-americanos têm levantado uma onda de terror nos Estados Unidos. Centenas de pessoas dizem ter visto palhaços assustadores e armados na rua, que lhes acenam, aproximam-se das casas e tentam atrair crianças e mulheres com um sorriso (demasiado) rasgado no rosto. Não é um fenómeno novo: em 1981, algo semelhante foi registado no país. E também não é um fenómeno exclusivamente americano: acontecimentos semelhantes tiveram palco no México, Canadá, Inglaterra, Nova Zelândia e Brasil.

Há alguns anos em Portugal, uma corrente de mensagens falava também do “Palhaço da Boca Cortada”, um homem com os lábios rasgados que supostamente atacava jovens na rua e lhes cortava o rosto. Tudo não passava de um embuste, um mito, na época.

Os psicólogos não acreditam que estejamos perante uma epidemia de coulrofobia. Até porque o medo por palhaços tem raízes muito mais antigas: Joseph Campbell, um especialista em mitologia e religião, escreveu que, nas primeiras menções literárias ao palhaço ele é uma personificação do demónio que causa estranheza porque associa o riso ao terror, o humor ao susto. É contra-natura.

Os palhaços não são assim tão maus, dizem estudos

Em 2008, um estudo com 255 crianças publicado pela Universidade de Sheffield sobre o ambiente hospitalar preferido das crianças disse que elas “têm uma aversão universal aos palhaços”. No entanto, num outro estudo efetuado no mesmo ano e publicado em 2011 no Natural Medicine Journal dizia que as crianças hospitalizadas com doenças respiratórias melhoravam muito mais depressa se brincassem com palhaços. Dois anos mais tarde, em 2013, o Journal of Health Psychology dava conta de um estudo italiano que concluia que a presença de palhaços nos hospitais reduzia a ansiedade das crianças quando elas estavam prestes a ser submetidas a cirurgias.

Posto isto, quando entrar na sala de cinema esta quinta-feira para voltar a ver “It” na estreia em Portugal, mantenha em mente que talvez valha a pena confiar no sorriso do palhaço Ronald McDonald ou recordar as boas memórias do Batatinha e Companhia. Pelo sim, pelo não.

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Abel Matos Santos
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