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Bowls. A moda das receitas saudáveis serve-se em taças

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Nestas taças, cabe tudo. A moda das "bowls" junta comida saudável e montes de potencial fotográfico na mesma receita e há cada vez mais sítios onde pode mergulhar a colher e prová-las.

Não é difícil perceber porque é que estas taças estão a ter tanto sucesso. Basta pensar que juntam duas variáveis nem sempre muito fáceis de combinar: comida confortável e uma dieta saudável. Afinal, há lá coisa mais prática do que trocar um prato por uma tigela e (se quiser muito) substituir um par de talheres por uma única colher. É possível, não parece nada mal e até virou moda. Como acontece com todos os fenómenos culinários, as bowls (palavra inglesa para taça ou tigela) correram meio mundo e só depois chegaram à nossa mesa. Então e a sopa que sempre comemos à colherada de uma tigela? A dúvida é legítima, mas nestas taças cabe tudo: os cereais e a fruta, os vegetais e o peixe e até os noodles com carne, do pequeno-almoço ao prato principal do jantar.

“Transformou-se numa tendência, mas começou muito por conforto. A pessoa chega a casa, atira tudo para dentro de uma taça e tem um jantar ou um almoço. Sopa, pudim de chia, papas de aveia, iogurte, granola, açaí, tudo se pode juntar.” Quem o diz é Joana Limão, autora do blogue Lemonaid. Em todas as receitas que partilha, o princípio é o mesmo: utilizar ingredientes naturais e manter uma alimentação o mais saudável possível, onde a fruta e os vegetais são essenciais. Conta que há três ou quatro anos começou a ver as taças a aparecerem ali e acolá, tempos depois a moda rebentou. Nessa altura, já uma boa parte das iguarias que preparava apareciam em tigelas.

Mais olhos que barriga

Além de saudáveis, estas taças são por defeito fotogénicas. Que o diga Joana, que todos os dias partilha fotografias de smoothies, papas e saladas, em bom e em bowl. Quem vê quer a receita para poder fazer, postar e provar. Às produções caseiras e ao que vai provando nos sítios por onde passa há que juntar o trabalho como food stylist. “Não há ingredientes obrigatórios”, esclarece. Contudo, se um dos objetivos é fazer brilhar a taça nas redes socais, há produtos que convém ter por perto, dos mini vegetais às flores comestíveis. Afinal, os olhos também comem e, no caso das bowls saudáveis o apetite é a dobrar.

Batido Mega Verde, uma das muitas receitas de Joana Limão que se servem numa taça e que partilhamos mais abaixo. © Joana Limão

E se o assunto é o potencial “instagramável” das smoothie bowls, Marta de Magalhães Lemos e Mariana Pires Silva têm uma palavra a dizer. Em junho, abriram a Bowl Lisboa (Rua Nova do Carvalho, 72) e trouxeram as famosas taças para o Cais do Sodré, em Lisboa. Além dos turistas, que já estão mais habituados ao menu de tigelas, os fins de semana são de romaria familiar. Vêm pelo apelo visual do que viram em blogues e nas redes sociais e os mais novos até trazem a família. “Até temos de lhes dizer para não deixarem os smoothies descongelar”, conta Marta. De caminho, o resto da família também prova, estranha ao início, mas acaba a lamber os beiços.

Fotogenia à parte, a história da Bowl Lisboa merece ser contada. Marta e Mariana trabalhavam juntas numa empresa de organização de eventos e já nessa altura eram verdadeiras geeks das bowls. Levavam-nas todos os dias para o almoço e facilmente pregavam grandes secas aos colegas de marmita sempre que trocavam receitas. Claramente, estavam no ramo errado ou, pelo menos, precisavam de dá-las a provar a mais gente. Dito e feito. Hoje, quase três meses depois da abertura, já há preferidos, num menu dividido entre papas de aveia e smoothies (sempre com a base de banana). A bowl de abacaxi e manga é uma das mais requisitadas, mas é do lado das taças de aveia que estão as receitas mais complexas. A de figos é a estrela do mês de setembro (até porque a fruta da época tem sempre prioridade), a de banana caramelizada uma guloseima do mais saudável que há e a de açafrão e gengibre está reservada aos palatos mais especiais.

A Saint-Tropez, da Bowl Lisboa, leva banana, frutos vermelhos e leite de arroz, com coco ralado, sementes de chia e mais frutos vermelhos a decorar. Custa 7€. © Divulgação

Da Rua Cor-de-Rosa, as duas amigas querem partir à conquista da cidade. O espaço é pequeno (à noite, funciona como bar associado ao restaurante Taberna Tosca), por isso há muita gente a fazer pedidos para levar. “Queremos muito chegar a sítios com mais vida de bairro”, acrescenta Marta. Com as idas em família a correrem tão bem, os pequenos almoços e lanches mais demorados ao fim de semana podem muito bem ser a próxima tendência.

Com o plano de expansão já em marcha estão os irmãos Martin e Tiago Tresca, que em agosto levaram as bowls para as Amoreiras. Porquê começar por um centro comercial? Pareceu-lhes o teste perfeito, antes de se lançarem num espaço voltado para a rua. Em vez de papas e smoothies, a Crave fez da taça o recipiente perfeito para se saborear uma boa salada. Alfaces à discrição, kale (um tipo de couve), quinoa e arroz integral são o ingredientes base. Depois é só compor o prato, perdão, a taça com frango marinado, camarão, salmão, tataki de atum, vários tipos de queijos e vegetais, cogumelos, húmus e frutos secos. No fundo, o objetivo é compor uma refeição saudável, sem deixar de fora as valiosas proteínas.

Mas ter muitos ingredientes não era o suficiente. “Normalmente, quando vamos a um sítio de saladas servem-nos os ingredientes mais caros em menor quantidade, além de ficar tudo em camadas. Uma salada deve saber ao mesmo, do princípio ao fim”, afirma Martin. É aqui que entra a primeira taça, onde tudo é misturado, ainda atrás do balcão. Noutra taça, a salada chega à mesa, mas também pode seguir viagem.

Green Machine, a salada da Crave com pesto, sementes, brócolos assados, ervilhas, pepino, aipo, espinafres, camarão e kale. Custa 7,95€. © Divulgação

Online, é possível escolher uma das nove receitas elaboradas pelo chef, em parceria com uma nutricionista, ou então decidir-se por uma combinação de ingredientes personalizada. Uma opção especialmente apetecível quando o intuito é comer noutro sítio, uma vez que fica logo a saber a que horas é que a sua salada vai ficar pronta. Para já, acontece tudo no site, se bem que há uma aplicação da Crave a caminho. No próximo mês, a marca chega à Rua da Boavista, a meio caminho entre Santos e o Cais do Sodré, com uma cozinha de onde vão sair também todos os ingredientes para o balcão das Amoreiras.

Taças caseiras

Sempre que faz smoothies em taças, Joana Limão responde à mesma pergunta dos seus seguidores: “Como é que se juntam vegetais a uma bebida?”. É preciso criatividade e, claro, ter os utensílios certos. Nesta matéria, Joana destaca duas ajudas valiosas: um liquidificador (também conhecido por blender) ou uma varinha mágica e uma boa faca.

Smoothie Mega Verde por Joana Limão

Ingredientes:

1 banana em pedaços;
2 courgettes, em pedaços;
1/3 pepino descascado e em pedaços;
1 punhado de espinafres;
sumo de 1 lima;
6 folhas de hortelã;
1 pedacinho de gengibre fresco picado.

Para decorar:

1 kiwi em fatias finas;
1 colher de sopa de sementes de papoila;
1 colher de chá de pólen de abelhas;
4 fatias de lima.

Preparação

Depois de lavar todos os ingredientes, triturá-los num blender ou com uma varinha mágica até obter uma textura cremosa e homogénea. Colocar numa taça e decorar.

Do lado dos ingredientes, é claro que não faltam tendências. A autora do livro Brunch topa-as à distância e antecipa 2018 como sendo o ano dos alimentos fermentados, como é o caso do sauerkraut, do miso, do tempeh e do kimchi. Outros ingredientes vão continuar populares. É o caso da das sementes, dos frutos secos e de cereais mais exóticos como a quinoa e o millet.

Entretanto, Joana não tem mãos a medir. É pouco o tempo para organizar eventos. O último foi um supper club improvisado em casa para alguns amigos. No dia 17 de setembro, domingo, vai estar no Alegro Alfragide para um showcooking, a partir do meio-dia. O evento serve de antevisão da próxima edição do Organii Eco Market, um evento dedicado a um estilo de vida mais saudável, da comida à moda.

Fruta fresca

Eis um negócio que não estamos habituados a ver em plena Baixa lisboeta, uma Frutaria (Rua dos Fanqueiros, 269). Esta chama-se mesmo assim e leva o nome à letra. Mal se entra, não cheira a outra coisa que não a fruta e a razão é simples: quase tudo na ementa leva um fruto ou dois. À frente do negócio estão Pedro Duarte de Oliveira e Annabel Parsons, o português e a australiana que há cinco anos abriram o hostel We Love F****** Tourists, no mesmo prédio. “Quisemos trazer para o centro da cidade uma frutaria como as que vemos nos bairros mais residenciais”, explica Pedro.

As três “smoothie bowls” da Frutaria: Fix Me Açaí, Go Green, com base de espinafres e banana, e Do The Trick, Turmeric, com ananás, manga e gengibre. Preços entre 4,50€ e 5€. © Divulgação

“É uma frutaria do século XXI”, acrescenta o responsável. No menu, o casal juntou influências da cozinha portuguesa, mas também receitas do outro lado do mundo, da Austrália e das várias viagens de Annabel. Há canja, sandes de queijo de Seia e pastéis de massa tenra (estes últimos, a caminho), mas também uma lista de sumos, no mínimo, sofisticada. Marcos Ribeiro, chef que preparou a carta da Taberna Moderna, aceitou o desafio e trocou os pratos cheios de substância do Campo das Cebolas pelas receitas saudáveis e frescas.

Embora a carta vá muito além das smoothie bowls, elas estão cá, do simples iogurte com granola à base de espinafres e banana com kiwi e coco. São pequenos almoços saudáveis e em doses generosas e a fruta chega todas as manhãs, fornecida por uma das bancas mais requisitadas do Mercado da Ribeira. O brunch é servido todos os dias e inclui iguarias fora da taça. Depois da bowl, pode escolher entre ovos (espargos e presunto, abacate e feta e cogumelos, tomate e parmesão) e panquecas. Ajude a empurrar com um sumo e complete com um chá ou café, só porque sim. O menu fica por 15€.

“E dá para comprar fruta lá para casa?” Desde que a Frutaria abriu, no fim de agosto, a pergunta tem sido tão recorrente, que Pedro e Annabel já encomendaram uma balança para poder vender fruta ao quilo. Uma opção para juntar ao take away, que também tem andado a fazer sucesso na Baixa.

Bowls. Não é só Lisboa que as tem no sítio

Perguntámos a Bianca Martins onde é que experimentou smoothie bowls pela primeira vez. Sempre gostou de viajar e foi em Barcelona que tropeçou nas famosas taças saudáveis. Foi fácil antever o momento em que a moda cruzaria a fronteira, por isso manteve-as debaixo de olho. Em julho, abriu o Negra Café (Rua Guedes de Azevedo, 117), no Porto, com o marido. Já eram donos de um bar na Cândido dos Reis, o coração da noite portuense, mas queriam um negócio em que vissem a luz do dia.

O sortido de ingredientes das “smoothie bowls” do Negra Café, no Porto. Preços entre 5,50€ e 6,50€. © Divulgação

Antes de pensar na ementa, o Negra Café privilegiou o conforto da clientela. O espaço tem uma primeira zona ao estilo cafetaria moderna, o resto está ocupado com sofás para quem quiser demorar mais tempo. Parece que refeições saudáveis era coisa que não abundava por estes lados, por isso, quem trabalha nas redondezas já não quer outra coisa. Mas as smoothie bowls custaram a arrancar. As saladas, que podem levar até oito ingredientes, são a escolha mais popular e Bianca teve mesmo de reformular a ementa e reduzir as taças às três opções mais pedidas. Aos poucos, o Porto está a ganhar-lhes o gosto, sobretudo à de pitaya, ingrediente que assegura ser a grande tendência no Brasil, depois do açaí.

E por falar em inspirações que vêm de longe, este verão trouxe para a Ericeira as smoothie bowls tal como são servidas em Bali. Há muito que os amigos de Alexandre e Susana insistiam para que trouxessem as Nalu Bowls (Rua Manuel Ortigão) para Portugal. Com um ritmo de vida acelerado e viagens constantes, foi desta que o casal decidiu assentar. Escolheram fazê-lo junto ao mar e com a importação mais trendy do momento, o que até faz sentido se pensarmos que estas taças são ideais para comer depois de surfar umas ondas. As taças seguem as receitas originais à grama, se bem que foram feitas algumas afinações por causa do sabor mais intenso da fruta portuguesa. As mais populares são a Mavericks, uma combinação secreta de açaí com granola, banana, morango, flocos de coco e mel, e a Uluwatu, à base de pitaya rosa (que chega de Bali todas as semanas), banana, papaia, framboesa e sumo de maçã.

A famosa receita de pitaya da Nalu Bowls, com manga, morango, coco e banana a decorar. Custa 7,50€. © Divulgação

Desde dia 1 de julho, o corrupio ainda não parou, tanto que Alexandre já pensa em aumentar, pela segunda vez, a esplanada. Com o espaço da Ericeira, as Nalu Bowls entraram oficialmente na Europa. Depois desta abertura, a cadeira também já chegou a Ibiza. Expandir a marca faz parte dos planos de Alexandre e Susana. Lisboa e Porto podem ser os próximos destinos. Prepare a colher e a câmara, porque as bowls estão mesmo por todo o lado.

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