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Covilhã. 6 razões para ir à serra mesmo sem neve

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É conhecida como a porta de entrada na Serra da Estrela, mas na verdade há muito para fazer na Covilhã para além da neve. Da arte urbana ao hotel dedicado à lã, um roteiro onde também entra a natureza

Já foi um dos maiores centros industriais do país, hoje restam cerca de 12 fábricas de lanifícios em funcionamento — e é preciso contar com todo o concelho do Fundão. Quando se fala na Covilhã é impossível não falar de lã, e não falar de neve. Às portas da Serra da Estrela, e em plena Rota da Transumância dos pastores, a cidade cresceu à sombra desta brancura a dobrar. Hoje é sobretudo uma cidade de turismo de inverno e de estudantes, muito por força da Universidade da Beira Interior, e os novelos desenrolam-se essencialmente no Museu de Lanifícios, instalado no edifício que em tempos funcionou como a Real Fábrica de Panos, mandada construir pelo Marquês de Pombal em 1764.

Duzentos e 50 anos depois, fomos ver o que a cidade oferece e trouxemos seis razões para se fazer à estrada sem esperar pelo inverno.

1. Visitar uma antiga fábrica de lãs transformada em polo criativo

São 10 mil metros quadrados onde velhas máquinas convivem com novas ideias e onde “todos vestem a camisola — a camisola de lã”. Naquela que em tempos funcionou como a fábrica de lanifícios António Estrela, considerada a mais antiga da Covilhã, existe hoje o New Hand Lab, um “projeto colaborativo de diferentes artistas” que procura manter vivo “o imaginário em volta da lã”. “Há quem nos chame a Lx Factory da Covilhã mas privilegiamos a criatividade e não o imobiliário”, explica Francisco Afonso, que herdou a fábrica da família e era já o proprietário quando ela fechou, em 2002. O que o atual dono e mentor do projeto quer dizer é que todos os artistas “estão presentes não por pagarem um aluguer, como se faz habitualmente nos espaços de cowork, mas por convite”. A escala também é diferente, assim como a hospitalidade: para além das cerca de 14 pessoas envolvidas atualmente, é o próprio Francisco — ou a mulher, Ana Almeida — que recebe quem quiser aparecer e visitar a fábrica.

“Interessa-nos preservar as memórias e o património”, esclarece, enquanto sobe e desce escadas, põe e funcionar máquinas antigas, desvenda salas a perder de vista, mostra o inventário de tecidos ou exibe, com orgulho, o Golden Needle, um prémio mundial de design têxtil que o pai recebeu em 1976 “pela riqueza com que misturava as cores”.

É também Francisco que explica o que são as escavações abertas junto à loja e ao bar do New Hand Lab: “Presume-se que sejam as ruínas da primeira manufatura de lãs da Covilhã — e do país –, datada de 1620. É possível distinguir o buraco onde funcionaria a caldeira, antes de tomar um chá numa das mesas que veio do refeitório da velha fábrica. “Também estamos abertos a jantares de grupo, por marcação”, acrescenta o proprietário. Como seria de esperar num verdadeiro projeto colaborativo, nessa noite todos ajudam, seja a cozinhar ou a levantar a mesa.

Rua Mateus Fernandes, Travessa do Ranito, Covilhã. 96 269 7493. Visitas todos os dias das 14h30 às 18h.

Numa das salas desvendadas durante a visita guiada estão algumas das ferramentas e dos fios usados na fábrica, que funcionou até 2002. © Jorge Vieira

2. Ver arte urbana no centro histórico (e comer bem no final)

Nasceu para dar vida às paredes abandonadas da Covilhã e o nome é um resumo disso mesmo. O Wool, que à letra significa lã mas também pode funcionar como um homófono de wall (parede) é um festival de arte urbana realizado há seis anos que tem vindo a contar a história da cidade através de latas e pincéis. A ideia foi dos irmãos Lara e Seixo Rodrigues — filhos da terra, como não podia deixar de ser –, e desde 2011 mais de duas dezenas de artistas nacionais e internacionais têm espalhado as suas intervenções pelo centro histórico.

Embora haja passeios guiados pontualmente, qualquer pessoa pode agarrar no mapa feito pela organização e aventurar-se a pé. Um bom ponto de partida é o parque nas traseiras da Câmara Municipal e em cerca de uma hora e meia descobrem-se obras de maiores e menores dimensões, quase todas elas ligadas à história e ao património da cidade. Como não podia deixar de ser, a lã é evocada várias vezes, seja no pastor pintado pelos ARM Collective ao lado da Igreja de Santa Maria ou na mulher de três braços que Tamara Alves colocou junto ao miradouro, a tecer as suas próprias roupas. Mas também há referências ao fado “Covilhã, Cidade Neve”, de Amália Rodrigues (na intervenção tipográfica dos Halfstudio), à lenda da Serra da Estrela (Gijs Vanhee) ou aos andorinhões que voam em bandos ruidosos, sobretudo ao início e ao final do dia (Pantónio).

Terminado o passeio, se quiser retemperar forças da caminhada ali mesmo pelo centro (e voltar ao ponto de partida — as traseiras da Câmara Municipal), uma boa opção para almoçar é a Taberna A Laranjinha, renovada este verão e onde a cozinha típica é adoçada, no final, pelo cremoso de requeijão com doce de abóbora. Se preferir subir até à serra, experimente o Varanda da Estrela, nas Penhas da Saúde, onde o arroz de zimbro do Ti Manel (11€) é a estrela da carta. O zimbro é criado ali mesmo na Serra, “devido às grandes diferenças de temperatura”, como explica uma das funcionárias, e acompanha carne de vitela. Se preferir peixe, o bacalhau com espinafre em crosta de broa (12€) também é uma excelente opção.

Muitas das intervenções remetem para a ligação da Covilhã à indústria da lã e dos tecidos, como esta de Regg, feita junto ao miradouro. © Jorge Vieira

3. Dormir num hotel dedicado à lã

As cores escolhidas são as que se podem encontrar naturalmente nas ovelhas portuguesas e os materiais mais usados andam entre a pedra e a madeira. Entrar no Pura Lã Wool Valley é como descobrir uma enorme casa beirã onde se respira o espírito rústico e industrial dos lanifícios. Conhecido em tempos como o Hotel Turismo da Covilhã e localizado logo à entrada da cidade, há cerca de oito meses o hotel foi completamente remodelado para servir como uma espécie de portal de tudo o que envolve a lã (ou não fossem os proprietários também donos da marca Tricots Brancal, natural da Covilhã).

Para além da decoração, recheada de pormenores que remetem para a indústria — dos novelos expostos em vitrines às mantas tricotadas aos pés da cama, passando pela parede de picar o ponto que veio de uma antiga fábrica ou pela fachada em forma de tear gigante — a remodelação trouxe também espaços mais modernos. A começar pela loja, logo à entrada, com produtos de artesões locais, passando pelo espaço dedicado às crianças, com tablets nas paredes, pufes e PlayStations para jogar, e a terminar nos dois espaços onde se come: o Bar Bistro, com petiscos escritos na ardósia, montra de queijos da Serra e cocktails preparados à vista dos hóspedes, e o restaurante principal, que tanto funciona em regime buffet como à carta e onde o chef Helder Bernardino dá primazia aos produtos locais, com a ajuda de uma nutricionista que indica sempre qual a opção mais saudável do dia (incluindo ao pequeno-almoço).

Alguns dos petiscos que se podem provar no Bar Bistro. A ideia é cada cliente personalizar a sua tábua, escolhendo os queijos da Serra de uma montra. © Luis Dias/Divulgação

Com quatro rotas preparadas para propor aos hóspedes consoante diferentes perfis (em família ou a dois, por exemplo), criadas precisamente para “mostrar que a Covilhã é muito mais do que neve”, o hotel dispõe ainda de um spa com um tratamento original e digno da região: um ritual da lã em que o corpo é massajado da cabeça aos pés e é a lã virgem que serve de esponja através da qual se aplica um óleo quente à base de azeite extra virgem… da Beira Baixa, claro.

Alameda Pêro da Covilhã. 27 533 0400. Quarto duplo a partir de 60€ por noite.

A lã está presente em cada um dos 100 quartos e os próprios tons escolhidos remetem para as cores naturais das ovelhas. © Luis Dias/Divulgação

4. Comer o que o forno preparou (e refrescar na piscina)

São 1,20 metros de largura por 0,80 de altura, um “senhor forno” que garante a fama d’A Cozinha d’Avó. O restaurante faz parte do Clube de Campo da Covilhã, o que quer dizer que fica ao lado de quatro courts de ténis e de duas quadras oficiais de squash, com vista para uma piscina exterior onde se podem dar mergulhos (por 5€/dia).

Dentro da cozinha, é o chef António Mendes que segura a pá que empurra os tabuleiros com os pratos mais conhecidos: cabrito no forno a lenha com batata assada e esparregado de feijão verde, polvo à lagareiro, bacalhau com queijo da serra, panela no forno, arroz de carqueja com entrecosto, bacalhau na telha, arroz à valenciana (manda a tradição local que este é o prato a comer aos domingos, explica o chef) e ainda cozido e feijoada, também eles cozinhados no forno generoso.

As doses são fartas e a conta é amiga (cerca de 15€ por pessoa, sem bebidas), mas vale a pena guardar espaço para as sobremesas tradicionais, das farófias à mousse de chocolate, passando pela tigelada da Beira, o arroz doce, as papas de carolo e o pudim de ovos — feito, claro está, no “senhor forno” de 1,20 metros de largura.

Quinta do Covelo, Apartado 459, Covilhã. Restaurante: 27 533 1174. Preço médio: 15€ sem bebidas.

O restaurante tem vista para o jardim e a piscina e também recebe casamentos. © Divulgação

5. Mergulhar em águas geladas

Quando não há neve, mergulha-se, pelo menos enquanto o bom tempo o permitir. E a partir da Covilhã tem várias praias fluviais conhecidas. A de Valhelhas é a mais famosa e fica em plena Serra da Estrela, o que significa que as águas do Zêzere onde se refresca não estão muito longe da nascente. Em Manteigas, a praia fluvial do Sameiro também tem um atrativo, sobretudo para os mais radicais: o Ski Park, onde é possível aprender a fazer ski numa pista artificial, enquanto a neve não chega. Mas há outras: a praia fluvial de Unhais da Serra, equipada com chuveiros e zonas relvadas com chapéus de colmo, Vale do Rossim — a praia fluvial mais alta do país, e onde é possível ficar alojado nos yurts (tendas circulares) do Vale do Rossim Eco Resort –, a de Louriga, escondida bem no meio da serra e com água límpida no meio dos rochedos, ou ainda a do Paul, mais semelhante a uma piscina natural do que a uma praia, e onde a elevação das rochas oferece o derradeiro bónus: cascatas.

Quando não há neve, mergulha-se na serra ???? ???? @fireworksbythelake

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6. Comprar português numa antiga mercearia

O nome ficou de 1935 e os móveis também, mas nos dias que correm A Tentadora já não é uma mercearia onde se abastece a cozinha mas sim uma loja de produtos portugueses que funciona também como espaço de cowork e pequeno museu de objetos antigos. Nas prateleiras e atrás do balcão de mármore alinham-se as cerâmicas da Laboratório d’Estórias, os lápis da Viarco, as plantas da Life in a Bag, as velas da Greatest Candles, os potes e ladrilhos da Tasa e algumas marcas vizinhas, como a Zêz, que faz compotas em Manteigas, ou a Daki, de sabonetes fabricados no Fundão.

Há dois anos que a loja funciona como uma montra cuidada de Portugal, embora inicialmente tenha aberto apenas com o objetivo de ser um espaço de trabalho. As secretárias dos quatro ocupantes do cowork lá estão, no meio da loja, mas são facilmente retiradas para receber workshops pontuais (como por exemplo de fotografia) ou sessões do clube de leitura.

Se gosta de pequenos cursos, de mãos dadas com boas compras, aponte também outra morada do centro histórico da Covilhã: a da Cinco, (Rua Jornal de Notícias da Covilhã, 5), uma loja/atelier de duas designers gráficas onde se fazem workshops de feltragem, tecelagem e macramé.

A Tentadora: Rua Alexandre Herculano 21, Covilhã. Segunda a sexta das 9h30 às 13h e das 14h30 às 19h. O horário ao sábado varia, pelo que é melhor confirmar através da página de Facebook.

Uma parte dos móveis recuperados da mercearia está ocupada com a coleção de objetos antigos do proprietário. Uma viagem à infância. © Imagem retirada do Facebook

O Observador ficou alojado a convite do Hotel Pura Lã.

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