Livros

A poesia que continua a crescer na clandestinidade

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A poesia continua a mexer entre as novas gerações. Lemos o sétimo número da Apócrifa e fizemos uma visita às Terças de Poesia Clandestina, que agora estão no Desterro. Hoje há mais uma edição: a 73.

Uma das Terças de Poesia na Casa Independente

Autor
  • Nuno Costa Santos

“Estamos aqui de faca nas mãos a talhar não sei o quê”. Abre o poema “Soneto do Duplo”, de André Alves, e é o primeiro verso da sétima edição da Apócrifa, revista de poesia dedicada à publicação de originais de escritores jovens, fundada em 2014 e que em 2017 traz poemas de sete autores. Além de André, estão aqui representados, com textos vários, Beatriz de Almeida Rodrigues, Emanuel Madalena, Inês Francisco Jacob, Marta Esteves, Nuno Mangas-Viegas e Vasco Macedo. São nomes que, mais uma vez, chegam ao leitor sem rasto biográfico. Alguns já os conhecíamos de outros números, outros aparecem-nos pela primeira vez.

Vasco, o coordenador, relembra como é que se pode publicar na revista: “Todas as edições tiveram até agora uma espécie de conselho editorial que tratou de assumir as responsabilidades do que haveria a publicar em determinado número, sendo que os textos foram chegando ou por convite ou por submissão livre de outras pessoas que souberam da nossa revista e quiseram participar”.

O número 7 da revista “Apócrifa”

Ainda no referido “Soneto do Duplo”, escreve-se: “É corpo morto o mar que se afoga, este não saber…”. E este não saber é como que o ponto de partida para o gesto de avançar com a mão que escreve ou para um metafórico remoinho ou para outra forma de alquimia e de risco. Entre o corpo, o sexo e a morte, continua a seguir Beatriz de Almeida Rodrigues. Aqui caminha entre escombros e fantasmas:

(…) os rostos translúcidos daqueles que nos precederam
e que nos deixaram tão pouco os crânios gastos
amontoados na vala comum dos sonhos
a aguardar a arqueologia porosa do prazer”

São diversas estas vozes e não vão sozinhas. Ao segui-las, ouve-se um conjunto de autores, que vão de Herberto Helder a Lautréamont. Complementam-se no seu alinhamento e não querem adiar o coração para outro século. É este o tempo de que habitam e é hoje que reivindicam um espaço, mesmo que entre ruínas.

Entre as ilustrações de João Pedro Fonseca, algumas preferem digressões longas. Outras as curtas. Como Emanuel Madalena, em “Por Vezes”, sobre as memórias em “velhas fitas de celuloide enroladas” e tratadas com luvas de cetim ou Inês Francisco Jacob em “Promessa”:

Não ponho as mãos no fogo
por nenhuma fogueira
ou brasa/ ainda quente:
não tenho mãos (…)”

Há quem, como Marta Esteves, remate um poema afirmando que “Será sempre mais digno o labor dos astros” e quem, como Vasco Macedo, num poema que começa por se reportar a um histórico romântico – “Eu já ardi em ideal delírio/ nas intermitências riscadas dos sonhos” –, o faça com uma espécie de lamento crítico em relação à crença no que podem as palavras:

(…) Ah tanto falar-se dizendo
inventando-se permanecendo
tanta poesia do eu”

Tanta poesia do eu, do outro, dos pais e das mães, das coisas, dos elementos, das árvores, dos animais. Tanta aventura nesta aprendizagem e pesquisa, a encontrar um poiso possível nestas páginas. Como escreve André Alves, “Línguas desconhecidas/ condenados reencontros/ A casa é aqui”.

Terças de Poesia no Desterro

E a casa das Terças de Poesia Clandestina, um dos bons eventos poéticos que se distribuem pelas noites de Lisboa, é agora o Desterro. Depois da passagem por lugares distintos, como o Café Central, em Alfama, o Titanic Sur Mer, no Cais do Sodré, ou a Casa Independente, no Intendente, é na penumbra de uma cave do número 7 da Calçada do Desterro que decorre mais uma edição deste ciclo de sessões que circulam à volta de livros, imagens e sonoridades várias.

Cada uma das sessões tem duas intervenções, com leituras de textos por parte de um convidado e de um diseur residente. Duas pessoas, Vasco Macedo e Anna Leppänen, lêem poemas em voz alta, de um modo sóbrio, sem procurar grandes variações no tom. Há uma projecção de imagens comandada por Rita Casaes e a sonoplastia é de Nuno Vicente (Dragão Inkomodo). Gente, muita dela na casa dos vinte, ouve, atenta. Esta clandestinidade tem público.

Nomear estas Noites é oportuno: muitos dos que escreveram para a Apócrifa foram convidados para ler os seus textos nas sessões e chegou a ser organizado um ciclo de intervenções dedicado a jovens escritores. Embora considere o facto de haver algumas pessoas que circulam entre os dois projectos, ajudando ora um ora outro, Vasco Macedo destaca a independência de cada um deles e refere ter havido muitos autores que foram convidados e não publicaram nem se presume que publicarão alguma vez na revista.

A próxima sessão – a 73.ª — acontece esta terça feira, 26 de Setembro, a partir das 22h, e contará com Luís Geraldo como leitor convidado. É ir. Para ouvir poesia e beber “uma cerveja no Inferno”. Como escreve Beatriz de Almeida Rodrigues, “o ar cavo da noite desvela nas coisas uma estranheza que cresce”.

Nuno Costa Santos escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.

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