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Ruby Bridges. “O racismo ainda não acabou”

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A ativista norte-americana Ruby Bridges foi convidada a fechar o encontro “Em que pé está a igualdade?”. O evento que que fez dela história, faz a história que ela escolheu ser.

Fotografia: Alfredo Matos / FFMS

A sessão de encerramento do 7º encontro anual da Fundação Francisco Manuel dos Santos, dedicado à Igualdade, foi protagonizada pela ativista norte-americana Ruby Bridges. Hoje, com 63 anos, dedica-se a espalhar, juntos dos mais jovens, uma mensagem simples mas poderosa: “O racismo é um mal terrível”.

Isto porque a história que a tornou conhecida ainda não terminou. Os factos ocorridos em novembro de 1960 são bem conhecidos, mas ouvidos na primeira pessoa ganham outro impacto. A pequena Ruby Bridges, apenas com 6 anos de idade, foi a primeira criança afro-americana a frequentar uma escola para brancos — a William Frantz Elementary, em Nova Orleães.

Perante um Teatro Nacional de São Carlos completamente esgotado, Ruby Bridges contou que, naquele tempo, não havia hipótese de escolha, o Estado escolhia por eles, brancos para um lado, negros para o outro, alunos e professores, todos da mesma cor. Diz ter memórias bastante precisas desse primeiro dia de escola em Nova Orleães, dos US Marshals que a escoltaram de casa à escola, dos protestos dos brancos pelo caminho, pessoas zangadas “por uma razão qualquer” que ela não compreendia naquela altura — uma cena que ficou imortalizada na pintura The Problem We All Live With.

“Eu era uma criança, eu não fazia ideia o que era o racismo”, contou. Naquele dia, entrou na escola e todos os outros saíram. No dia seguinte aconteceu o mesmo, e nos outros também, mas à medida que a notícia que uma menina negra andava numa escola de brancos se espalhava, os protestos aumentavam.

Esteve um ano assim, sozinha na sala, com a única professora que aceitou dar-lhe aulas. “E era branca, eu nunca tinha visto uma professora branca”. Mrs Henry (a professora) fez da escola um lugar divertido, foi para Ruby Bridges uma grande motivação. “Eu sabia que era preciso passar aquela multidão de brancos a protestar para chegar à minha professora. Ela era igual aos outros, lá fora, mas era diferente, ali na sala era diferente.” Com o tempo, os protestos passaram a ser dirigidos também para a professora. Foi insultada, o marido foi despedido, acabou por ter de sair daquela escola.

Ruby Bridges explicou que só compreendeu verdadeiramente que era a única criança negra naquela escola quando um menino lhe disse “a minha mãe disse-me que eu não posso brincar contigo porque tu és negra. Foi aí que compreendi o racismo”.

Isto são memórias com 50 anos, mas “agora é pior”, acrescentou. Isto porque Ruby Bridges já não é a menina de 6 anos numa escola de brancos em Nova Orleães, ela é agora a mãe que perdeu um filho, assassinado a tiro por um homem da mesma cor.

É por isso que diz, com as palavras todas “O racismo é um demónio.” Hoje, Ruby Bridges corre o mundo numa luta pelos direitos civis, para ensinar às crianças que o racismo não pode existir. É “uma responsabilidade e um privilégio”, conclui a mulher que virou uma página importante no história da segregação racial nos Estados Unidos.

Identidade e Igualdade

A tarde começou com o único painel apresentado em português. Moderado por Margarida Pinto Correia, contou com a participação de Leonor Beleza e Richard Zimler, o escritor norte-americano radicado em Portugal.

Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud, recordou ter sido “uma mulher no mundo de homens”, afirmando ter sido um dos maiores privilégios da sua vida ter vivido o 25 de Abril de 1974. “Tinha 25 anos, era jurista, estava no lugar certo quando isso aconteceu” e por isso pôde participar ativamente nas mudanças na lei — no caso, na elaboração do código civil.

“Naquela altura uma mulher no Irão podia ser juíza, em Portugal não”. O mundo dá muitas voltas e nem sempre no melhor sentido, por isso o papel das mulheres na sociedade e a desigualdade a que se encontram sujeitas é um assunto longe de estar terminado.

O escritor Richard Zimler optou pelo discurso escrito, falando da segregação racial (com elogios a Ruby Bridges) e sublinhando a desigualdade que existe entre homens e mulheres, em muitos lugares do mundo. Mas também no fosso cada vez maior que existe entre ricos e pobres (deu o Brasil como exemplo), dizendo que “no dia em que eu tiver de viver rodeado de arame farpado, vou-me embora deste país.”

Falou contra ao politicamente correto, sobre os maus tratos das mulheres (diz ser um feminista “porque cresceu com os maus tratos do pai“ sobre a sua mãe), sobre os homossexuais, sobre os sobreviventes do preconceito. Foi um discurso na primeira pessoa, aguçado e sem rodeios, de armas apontadas à homofobia social e política – com farpas aos deputados e políticos que não tiveram a coragem de argumentar porque votaram contra ao casamento homossexual, ou que usaram argumentos absurdos — com uma referência direta a Manuela Ferreira Leite.

Richard Zimler e Leonor Beleza falaram também sobre o poder destrutivo do medo, porque é insidioso, vive escondido e tem muita força. O medo de perder o emprego, de ser visto como diferente e de ser descriminado por isso.

Foi um dos debates mais interessantes e aplaudidos do dia, com uma forte expressão sobre os direitos das mulheres, mas também sobre discriminação da orientação sexual e de etnia.

A persistência das desigualdades

Falar de igualdade implica discutir políticas sociais e económicas, um assunto debatido pelo escocês Gregory Clark, professor de economia, e pelo filósofo belga Philippe Van Parijs — que o Observador teve a oportunidade de entrevistar esta semana. A moderação ficou a cargo do comissário deste encontro, o professor Fernando Alexandre, da Universidade do Minho.

“Quem limpa casas de banho pode vir a ganhar mais do que um professor”

Gregory Clark participou num estudo curioso: procurou as relações entre os apelidos, a história familiar e o sucesso profissional. Nalguns países, o apelido de família é, ainda hoje, sinónimo de status e tem uma tradução direta no sucesso social e profissional.

Além disso, Gregory Clark defende que a genética tem um papel importante nesta afirmação de estatuto, uma conclusão surpreendente que não ficou ali totalmente esclarecida.

Philippe Van Parijs, o filósofo que ficou conhecido por ser um dos grandes protagonistas da defesa do Rendimento Básico Incondicional, fez esta tarde uma passagem breve sobre o tema. Afirmou que há muitas coisas que são precisas para alcançar a igualdade, que não tem uma receita, mas tem uma certeza: o rendimento básico incondicional é fundamental.

Durante a manhã, falou-se do impacto da tecnologia e da globalização na igualdade — o resumo pode ser lido aqui.

Debate sobre Igualdade: “A globalização é uma oportunidade”

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