Autárquicas 2017

PS/Porto. Disputa pela liderança à vista?

A derrota eleitoral do PS no Porto precipitou a contestação interna a Pizarro, que se começa a organizar no terreno. Socráticos e seguristas unem-se contra costista. Apoio de Costa será fundamental.

JOSÉ COELHO/LUSA

A maioria absoluta conquistada por Rui Moreira na noite eleitoral de domingo agravou a crise profunda em que vivem os dois maiores partidos portugueses na cidade do Porto. O PS, mesmo empurrando pela onda rosa que varreu o mapa autárquico, teve o segundo pior resultado da sua história recente. No partido, há quem peça já a cabeça de Manuel Pizarro. As adormecidas células socráticas e seguristas parecem estar dispostas a unir forças para derrubar o costista que lidera a poderosa federação distrital. Que vai haver uma candidatura alternativa a Pizarro é já uma garantia. Quem? Ainda ninguém arrisca avançar com nomes. Ainda assim, na lista de possíveis candidatos há uma hipótese que salta à vista: Renato Sampaio, deputado socialista e ex-líder da Federação Distrital do PS/Porto.

“Ainda é muito cedo para falar, mas há algum mal-estar no Porto”, assume Renato Sampaoio. “É evidente que Manuel Pizarro é responsável pelo resultado. Apesar da grande vitória do PS no país, apesar do esforço de António Costa e da boa vontade do Governo, Manuel Pizarro não conseguiu mais que uma derrota por poucochinho“, sublinha o socialista.

Sem nunca se comprometer com nomes, Renato Sampaio não tem dúvidas: “Vai haver uma alternativa à atual liderança“. Segundo o calendário normal do partido, deverá haver eleições para os órgãos concelhios em janeiro, mas, sabe o Observador, as tropas de Sampaio começaram já a reagrupar-se no terreno.

Outra fonte do partido, próxima da extinta ala segurista afeta a José Luís Carneiro e que preferiu não ser identificada, concorda com Renato Sampaio e diz ao Observador que os “números são óbvios”: “É o segundo pior resultado autárquico de sempre no Porto desde o 25 de Abril. E o primeiro já tinha sido conseguido por Manuel Pizarro. Este projeto está esgotado“, defende.

Para este segurista, Manuel Pizarro cometeu “um ato suicida” ao querer renovar o acordo com Rui Moreira e está agora a sofrer as consequências desse processo. “Estou certo de que vão aparecer alternativas ao poder“, assegura este socialista, sem, mais uma vez, se comprometer com nomes.

Mesmo que nunca o assuma, a hipótese de ser o próprio Renato Sampaio a avançar para o duelo com Manuel Pizarro é a mais forte neste momento. Aliás, as manobras deste socrático no interior do aparelho socialista portuense já foram detetadas pelas tropas fiéis a Pizarro, que estão conscientes do que Sampaio está a preparar. “Sabemos que têm existido contactos e que Renato Sampaio quer avançar”, conta ao Observador uma fonte próxima da atual liderança.

“Há uma associação entre um conjunto de pessoas que nunca aceitou bem a entrada de Pizarro em cena. Renato Sampaio, Isabel Santos, Fernando Jesus [três deputados socialistas], que contam com o apoio ativo de José Luís Carneiro [secretário de Estado das Comunidades e ex-líder do PS/Porto]. Serão pouco mais do que trucidados“, garante a mesma fonte .

Leituras políticas há muitas e para todos os gostos

A verdade é que Manuel Pizarro e a oposição interna não se entendem em relação aos resultados de domingo. Para os opositores, depois de não ter conseguido capitalizar o efeito do bater de asas de António Costa e Mário Centeno, Manuel Pizarro, que se bateu contra algumas vozes dissidentes do seu próprio partido pelo apoio a Rui Moreira, é o principal responsável por uma derrota do PS no Porto. E mesmo que tenha tentado capitalizar o ligeiro crescimento do PS no Porto e a esmagadora vitória na Área Metropolitana, a verdade é que não só perdeu no Porto, como viu Rui Moreira chegar à maioria absoluta, agravando a difícil situação dos socialistas no concelho. Arredados do poder desde a presidência de Fernando Gomes, votados à travessia no deserto durante os três mandatos de Rui Rio, levados para a governação por Rui Moreira, humilhados pela cisão com o independente, voltam agora a perder voz política na Câmara do Porto, atirados que foram para líderes da oposição na Assembleia Municipal.

E isto mesmo depois de terem apostado tudo para derrubar Rui Moreira. A cada intervenção, debate, entrevista ou declaração à imprensa, Manuel Pizarro lá ia lembrando os méritos do Governo socialista, tentando mimetizar no Porto o bom momento que o PS atravessa no país. António Costa, galvanizado e reforçado pelos números favoráveis, foi presença ativa na campanha do socialista — foi ao lado de Manuel Pizarro, aliás, que o primeiro-ministro encerrou a campanha eleitoral autárquica. Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e figura de proa da “geringonça”, esteve com o candidato do PS no último dia de campanha eleitoral, ajudando a distribuir rosas na Baixa portuense. João Matos Fernandes, ministro do Ambiente e figura reconhecida no Porto, foi mandatário de Pizarro. Até Azeredo Lopes, ministro da Defesa e ex-chefe de gabinete de Rui Moreira, apareceu para declarar o apoio ao socialista. De nada valeu, a não ser para evitar uma derrota que muitos julgavam que ia ser humilhante. Não o foi, é um facto. Mas isso não impede que a oposição interna já se esteja a organizar para derrubar Pizarro da federação.

Para os homens leais ao líder da federação, no entanto, o resultado na Câmara do Porto não pode apagar o que foi conseguido no resto do distrito. “Pizarro está seguro. Meteu o pescoço por Luísa Salgueiro em Matosinhos e correu bem. Conquistou a Área Metropolitana, conquistou mais câmaras e ainda ganhou Paredes e Marco de Canaveses. Teve um grande resultado e tem o apoio de António Costa. Está sólido“, nota a mesma fonte próxima da atual liderança.

Um elemento próximo da ala de Francisco Assis comenta com o Observador que a liderança de Pizarro é difícil de derrubar. “É um cenário muito difícil. Não se vê ninguém com vontade de assumir. Há umas coisas no terreno, mas são fracas“.

Renato Sampaio é uma hipótese, ainda que seja visto como alguém que não representa o ciclo de renovação de que o partido precisa no Porto. Depois, há outra questão importante: o facto de António Costa atravessar um ciclo político virtuoso faz com que muitos dos quadros do PS tenham sido absorvidos pelo Governo ou nomeados para cargos na administração pública, o que torna o lugar de líder da distrital bem menos apetecível. Mais: com Costa a viver um poder quase absoluto, ninguém quer arriscar desafiar Manuel Pizarro, um dos seus homens de confiança.

José Sócrates entra em jogo

Aos olhos dos homens fiéis à atual liderança, não pareceu indiferente o facto de José Sócrates ter surgido no Porto Canal a comentar as eleições autárquicas, com críticas à prestação do líder do PS/Porto. “Isto tem dedo do Renato Sampaio”, comenta fonte próxima de Pizarro. A hipótese de o ex-primeiro-ministro passar a ter um programa de comentário semanal naquela estação está a ser aguardada com alguma expectativa pelos dirigentes socialistas locais, que acreditam ter sido essa a forma encontrada por Renato Sampaio para recuperar algum peso dentro da estrutura.

Renato Sampaio e companhia são uma velha guarda muito requentada. Vão tentar fazer das eleições para a concelhia [em janeiro] uma espécie de primárias para a distrital [maio]. Sabem que, se Manuel Pizarro continuar à frente da distrital, vai fazer alterações à composição das próximas listas de deputados e afastar uns quantos. Eles sabem que a sua sobrevivência política depende de uma vitória contra Pizarro”, comenta a mesma fonte.

No núcleo duro de Manuel Pizarro, a convicção é de que uma candidatura como a de Renato Sampaio estaria condenada à partida, até porque os ciclos socráticos e seguristas já passaram. Mesmo juntos, os últimos homens de Sócrates e de Seguro — ou até aqueles mais próximos de Assis e que nunca morreram de amores por Pizarro e António Costa –, nunca terão força para derrubar o líder do PS/Porto enquanto Pizarro mantiver a confiança política do secretário-geral do PS.

Eduardo Vítor Rodrigues jura lealdade a Manuel Pizarro

Nessa perspetiva, só alguém com muito capital político adquirido poderia enfrentar Pizarro pela liderança do PS/Porto. Alguém que tivesse, por exemplo, conseguido uma vitória por maioria absoluta na região e que liderasse uma das maiores câmaras do país. E, aí, todos os dedos parecem apontar para um candidato: Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia.

Apesar de ter descartado no início de 2016 uma eventual candidatura à liderança do PS/Porto, o nome de Eduardo Vítor Rodrigues é apontado com insistência para aquele cargo político. Apoiante de António José Seguro nas primárias que dividiram o partido, a relação com António Costa tem vindo a normalizar-se nos últimos tempos. Um dos seus mais fiéis aliados, João Paulo Correia, presidente da junta de Mafamude e deputado socialista, é um dos parlamentares com maior ascensão no grupo socialista, sendo já coordenador da Comissão de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa — a mais relevante das comissões. Os dois têm uma importante bolsa de votos que pode ser decisiva numa eventual disputa. Mas Eduardo Vítor Rodrigues só avançaria com o beneplácito de António Costa — e ninguém quererá hostilizar o líder socialista no momento que o partido atravessa.

O autarca de Vila Nova de Gaia já terá jurado, aliás, lealdade a Manuel Pizarro. Assim como os autarcas de Matosinhos, Paredes, Marco de Canaveses e Santo Tirso. Para esta noite está marcada a reunião do Secretariado Distrital do PS/Porto, onde se espera que Eduardo Vítor Rodrigues faça uma intervenção favorável a Pizarro e particularmente dura para com Renato Sampaio. Na próxima segunda-feira, a Comissão Política Distrital do PS reúne-se para avaliar os resultados e definir trincheiras. E começará aí, em definitivo, a próxima batalha de Manuel Pizarro.

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