Crítica de Restaurantes

No Tapisco come-se despacito mas não se chega longe

Sebastião Carolino foi ao Tapisco e jantou numa mesa de 4. Não se arrependeu mas também não saiu encantado. Descobriu uma bomba que não explode, um toucinho vindo dos céus e deu-lhe 3 estrelas.

Nesta foto vê-se a cozinha do Tapisco. E também o chef Henrique Sá Pessoa. É provável que ele não esteja por lá todos os dias

© Tiago Pais / Observador

A minha mãe é a pior cozinheira que conheço. Gostei muito de viver com ela mas habituei-me a comer tudo sem esperar nada. Ou melhor, a esperar sempre o pior e a lidar bem com isso. As refeições mantinham-me vivo e eram feitas com a maior brevidade possível. Hoje, quando vou a um restaurante, espero sempre o pior, consequência de anos e anos de más expectativas transformadas em norma.

E a verdade é que muitas vezes as surpresas são más. A desilusão é um prato servido vezes a mais e em algumas ocasiões é uma tristeza que sai cara. Quando entrei no Tapisco esperava o pior porque a vida é mesmo assim e eu também. Atenção, não encontrei nenhuma desgraça, mas também não vi por lá nenhum encanto. A minha mãe teria gostado mas isso vale o que vale.

O Tapisco, restaurante do chef Henrique Sá Pessoa, é bonito. Tem um bar em forma de varandim que vende uns comes e bebes diretamente para a rua. E ao entrar é impossível não fixar os olhos no balcão que percorre toda a sala. Dá gosto, dá sim senhor, e é capaz de dar ainda mais gosto do que comer nas mesas.

Passo a explicar: as ditas são demasiado próximas umas das outras e os clientes são quase todos forasteiros (pelo menos naquela noite eram). Quando veem o menu ficam meio perdidos (quem nunca?) e quando há pratos servidos aos vizinhos do lado, multiplicam-se os olhares e os comentários. Em sendo local, na nacionalidade ou nos hábitos, o cliente sente-se uma espécie de cobaia. Estive para perguntar ao casal ao meu lado, gente de aspecto nordicamente civilizado, se queriam provar qualquer coisinha. Falhei porque a minha mãe habituou-me a não interferir na vida dos outros e a nunca ter vontade de oferecer comida.

Mas ainda antes disso, passaram uns 15 minutos e ninguém me disse sequer olá. Não sou fã de conversa de circunstância mas ele há mínimos. Contudo, a nota devida: no Tapisco é só malta simpática. Sim, as coisas demoraram um pouco a rolar (e num sítio onde as ervilhas com chouriço custam 16 euros esperava um pouco mais de amor logo no início da relação) mas assim que entraram nos carris foi bonito de ver. Até porque o menu serve mais ou menos como toalha de mesa e enquanto esperávamos decidíamos o que comer.

Quanto à escolha, convém saber: no Tapisco há um conceito. Isso é por natureza irritante para quem só quer comer e não quer estar envolvido em nenhum tipo de experiência. E ali o conceito é a partilha, “it’s to share”, “lo repartimos”. O problema é que esta divisão fraterna de comes pode resultar em pouca satisfação e muita conta. A ver vamos.

Tapisco. Henrique Sá Pessoa casa tapas e petiscos no Príncipe Real

Tapisco, o nome da casa, resulta da junção das palavras “tapa” e “petisco”, que na essência querem dizer a mesma coisa: um poquito daqui, mais um nadinha dacolá, com pão e uns copos à mistura. Cruza-se a cozinha de sotaque castelhano com a portuguesa e está feita a ementa ibérica. Convém pedir várias coisas pequenas e talvez um dos poucos pratos maiores que o chef apresenta. Foi o que fizemos e foi mais ou menos isto que aconteceu:

Jamon ibérico de bellota. Chega rápido, mas convenhamos que não podia ser de outra maneira (basta uma faca e jeito no corte). O presunto está como se quer: gordura quanto baste para nos sentirmos a cometer um crime pelo qual vale a pena ir de cana, cura no ponto para lhe dar o sabor que interessa. Mas no caso de dividir a tábua por mais de duas pessoas, as curtas fatias sabem a pouco e fazem uma cama fraquinha para o que há de vir depois. E fica pelos 14 euros. Certo, vem de um produtor distante, cuidadoso e de qualidade mais que certificada. Mas é tão pouco que esquecemos isso rapidamente. (14€)

La bomba de Lisboa. O nome é bom porque desperta a curiosidade. O menu é composto quase na totalidade por clichés do universo das tapas e petiscos mas uma bomba de Lisboa tem potencial para surpreender (ainda que seja a adaptação de uma iguaria tradicional de Barcelona). Até que percebemos que é apenas OK. É uma espécie de croquete esférico (mas em grande), com empadão de carne no interior, alheira, kimchi, mais um molho aioli e outro de salsa brava. É bom, não me entendam mal, mas quando pedi uma “bomba” estava à espera de um outro tipo de explosão, de mais impacto e intensidade. E nesse campeonato foi um valente falso alarme. No negócio da pura gordice, é um encanto. (7€)

La Bomba de Lisboa #tapisco

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Patatas bravas. “Patatas” que é como quem diz batatas. Esclarecidos? Ótimo. Posto isto, é o que é: batatas fritas, ali cortadas aos cubos, mais ângulo menos ângulo, com o molho certo para lhes dar algum “epá, isto pica” pelo meio. E está tudo bem, ainda que a parte do picante fique um pouco aquém. Peguemos nesta timidez no condimento, porque é um bom exemplo para esclarecer um detalhe: o Tapisco é diplomático, quer ser amigo de toda a gente. Mas assim arrisca-se a ser só mais um. (6€)

Choco frito com maionese de coentros e lima. Partindo do princípio que estamos a falar de cozinheiros profissionais e não da minha mãe, para estragar choco frito é preciso arte. Não foi o caso. E a maionese de coentros e lima é boa. É mesmo boa. Boa até para um tipo esquisito como eu, que não gosta de maionese. Boa ao nível de “se tivesse aqui uma torrada, barrava-a com isto, comia-a e agradecia”. E, já agora, o reconhecimento: tratou-se de uma dose muito bem servida, de tal maneira que ouvi na minha mesa um incompreensível “epá, não consigo comer mais disto” (inserir aqui aquele emoji do moço com uma das mãos a tapar a cara). (12€)

[pausa para admirar a capacidade que uma das empregadas tem de explicar a um casal americano o que é uma açorda, de tal maneira que o mesmo casal pede uma “right now”; caramba que devia ter batido palmas de pé em cima da mesa enquanto atirava um “oh captain, my captain”]

Paella negra con sépia y alioli. Um prato mais substancial, depois de outros divididos em porções mais pequenas. E um prato que gera opiniões diferentes a dois tempos. A paella negra tem este nome porque o arroz é cozido num caldo que inclui a tinta do choco. A primeira opinião vai para o arroz, muito saboroso e com a densidade no alvo. A segunda vai para o choco: cadê? Apanhar pedaços do animal é uma felicidade mas acontece pouco. E não vale a pena dizer que isto é uma metáfora para a vida, por favor. Já tinha falado aqui na questão dos preços e de como às vezes o valores ajudam à desilusão, não foi? Pois bem, atentem nisto: 28€. (valem os camarões servidos em cima do arroz — poucos, claro, mas bem bons). E uma colher para servir era boa ideia, malta. Se estiverem a ler isto, considerem.

Paella Negra con sépia y alioli #tapisco #tachinhos

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Crema catalana. Leite creme, pessoal, leite creme. “Mas se é creme catalana tem um toque diferente, mais limão, mais canela…” Repito, é leite creme. Cheguem-se à frente com uma espécie de Pepsi Challenge sobre o assunto e depois conversamos. (5€)

Toucinho do céu com sorvete de tangerina. A melhor coisa que comi no Tapisco. Mas de longe a melhor coisa. Toucinho do céu, aquele doce e meloso ataque cardíaco servido com um sorvete P E R F E I T O. Perfeito no sabor e na textura e perfeito na forma como se enrola ao toucinho como fazem os bons amantes. Um corta o que está a mais no outro, o outro trata de exaltar o que há de melhor no primeiro. Como tudo até ao fim, pouso o garfo, encosto-me na cadeira e agradeço o dom da vida. (5€)

Toucinho do Céu com sorvete de tangerina #tapisco #toucinhodoceu

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No final, cem euros e poucos copos, que as bebidas resumiram-se a umas quantas imperiais e água. Quatro pessoas mais ou menos satisfeitas, numa noite a meio da semana que leva muitos a fazer fila lá fora à espera de vaga. Não há arrojo neste Tapisco mas também não há passos em falso. Há um compromisso inteligente entre conforto e previsibilidade. Isso — e uma boa comunicação e localização — basta para encher a sala todas as noites, numa zona movida a curiosidade cool. Mas não chega para motivar um regresso.

Há por ali muita simpatia, toda a gente se ri quando me levanto em direção ao WC. Riem-se como quem diz “vai gostar daquelas toalhinhas individuais”. E gostei. Mas são só toalhinhas. É um restaurante perfeito para aquele jantar de trabalho com colegas que vêm de fora e não conhecemos muito bem, ou para uma refeição de negócios que não envolva alta finança mas precise de tempo e conversa, despacito e com calma. Mas não é muito mais que isso. Vai suave, suavecito.

+Info:

Tapisco: Rua Dom Pedro V, 81, 1250-096 Lisboa; aberto todos os dias, do meio dia à meia noite; telefone: 213 420 681
Preço médio: 25 euros por pessoa
Ambiente: à maneira da Monocle; ou como o lounge de uma companhia aérea com pinta, línguas diferentes de países diferentes, muitos telefones e nenhuma criança.
Banda sonora: nem dei por ela
Serviço: ótimo. Foi preciso esperar uns minutos pelo primeiro “boa noite” mas foi um pequeno detalhe.

#dicacerta: se for jantar ao Tapisco, faça uma reserva. Se não tiver reserva, tente aparecer até às 20h. Porque depois dessa hora bastam 15 minutos para ficar tudo mais difícil. Mas nada está perdido, terá sempre o balcão de rua para se entreter. Peça um vermute, não se vai arrepender.

Rua Dom Pedro V 81, 1250-096 Lisboa, Portugal

Sebastião Carolino gosta tanto de carne como de peixe, prefere vinho a cerveja (quase sempre) e não tem qualquer tipo de alergia. Assina semanalmente esta rubrica do Observador.

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