Armamento Nuclear

O que é e como trabalha a ICAN, vencedora do Prémio Nobel da Paz?

Fundada em 2007, a ICAN agrega várias organizações a nível mundial para o combate às armas nucleares e foi a grande impulsionadora do Tratado para a Proibição de Armas Nucleares.

O coordenador da ICAN, Daniel Hogstan, a diretora executiva Beatrice Fihn e o seu marido Will Fihn Ramsay

FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images

A Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN na sigla em inglês) foi distinguida, esta sexta-feira, com o Prémio Nobel da Paz.

Trata-se de uma organização não governamental que junta várias organizações de todo o mundo para promover a implementação e adesão do Tratado para a Proibição de Armas Nucleares — que foi aprovado em julho pelas Nações Unidas e que os nove países que têm armas nucleares tentaram bloquear. O documento foi assinado, até ao momento, por 50 países.

“O nosso objetivo é persuadir as nações para assinar e retificar [o tratado], e trabalhar para a sua total implementação”, lê-se no site da organização.

A ICAN foi fundada em 2007, na Austrália, mas foi lançada oficialmente na Áustria. Tem sede em Genebra e conta com 468 organizações parceiras, de 101 países.

“Desde a nossa fundação, temos trabalhado para construir uma onda de apoio público a nível global para a abolição de armas nucleares. Ao trabalhar com vários grupos e ao lado da Cruz Vermelha e de vários governos, ajudámos a reconfigurar o debate sobre armas nucleares e a gerar um impulso para a sua eliminação”, adianta a ICAN.

A ICAN foi a maior promotora do tratado assinado em julho. Em 2015, mobilizou a sociedade e vários governos para que, na Conferência de Viena, 120 nações assinassem um documento onde que se comprometiam a apoiar a rejeição de armas nuclear devido “às consequências inaceitáveis a nível humanitário”, lê-se relatório da Ploughshares Fund, uma fundação que apoia iniciativas que combatam a proliferação do uso de armas nucleares, biológicas e químicas, e que concedeu financiamento à ICAN.

Promoveu depois a criação de um grupo de trabalho na ONU para que fosse examinada a proposta de desarmamento nuclear. “A nossa campanha fez posteriormente lobby para que a Assembleia General das Nações Unidas adotasse a resolução para que, em dezembro de 2016, fossem lançadas as negociações para a proibição das armas nucleares”. 122 países votaram a favor do Tratado para a Proibição de Armas Nucleares, sendo que os Estados Unidos, a Rússia, a China, o Reino Unido e a França nem sequer participaram nas negociações para a elaboração do tratado.

O trabalho da ICAN consiste na organização de eventos para alertar o público, como a promoção de dias de ação contra o uso de armas nucleares. A organização trabalha ainda com sobreviventes, não só das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki e de testes nucleares, de modo a promover os seus testemunhos.

A organização tem um orçamento anual de cerca de um milhão de dólares funciona não só graças ao financiamento da União Europeia, do Vaticano e de países como a Noruega, Suíça, Alemanha como conta com donativos privados.

“Quanto mais países tivermos a apoiar a rejeição de armas nucleares e quanto mais a opinião pública achar que as armas nucleares são inaceitáveis, mais complicado será as nações justificarem o uso de armas nucleares”, afirmou a líder da organização Beatrice Fihn, citada pelo Guardian.

A diretora executiva, que lidera a organização há dois anos, conta que quando receberam o telefonema a dizer que iriam vencer o Prémio Nobel da Paz, minutos antes do anúncio, acharam que se tratava de uma “piada” e que só acreditaram quando ouviram as declarações de Berit Reiss-Andersen, a líder do Comité Norueguês do Nobel.

Para a sueca, o prémio “envia uma mensagem para todas as nações com armamento nuclear e todos os estados que continuam a confiar em armas nucleares para a sua segurança de que se trata de um comportamento inaceitável.” “Não podemos ameaçar matar indiscriminadamente milhares de civis em nome da segurança. Não é assim que se constrói segurança”, afirmou Fihn.

Relativamente à assinatura do tratado, a líder da organização considerou que ainda há um longo caminho a percorrer. “As armas nucleares podem levar ao fim do mundo, literalmente. Enquanto existirem, o risco existirá”, afirmou a sueca, sublinhando a importância de acabar com as cerca de 15 mil armas nucleares que existem em todo o mundo.

Em declarações à Reuters sobre a tensão entre a Coreia do Norte e os EUA, Fihn considerou “ilegal” a troca de ameaças de Donald Trump e Kim Jong-un. “As armas nucleares são ilegais. Ameaçar usar armas nuclear é ilegal. Ter armas nucleares, desenvolver armas nuclear é ilegal e têm de parar.”

Recentemente, criticou o presidente dos Estados Unidos numa publicação no Twitter a propósito do desentendimento com o secretário de Estado Rex Tillerson. “Donald Trump é um idiota”, lê-se no tweet.

Várias figuras públicas já demonstraram o seu apoio à ICAN, nomeadamente o arcebispo e Prémio Nobel da Paz Desmond Tutu, o Dalai Lama, os atores Martins Sheen e Michael Douglas e a artista Yoko Ono.

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