Moda Lisboa

ModaLisboa. Silêncio que as gueixas vão cantar o fado

Das gueixas fadistas de David Ferreira, ainda no jardim, ao desfile coreografado de Nuno Gama, no segundo dia, a ModaLisboa deu espetáculo.

A 49ª edição da ModaLisboa chegou ao segundo dia, aquele em que o calendário de desfiles sempre se adivinhou mais generoso. Se na sexta-feira já pairava a desconfiança de que os desfiles no jardim eram o grande trunfo desta mudança para o Pavilhão Carlos Lopes, no sábado tivemos a certeza. O sol brilhou como em agosto e as cores que desfilaram em torno do pequeno lago fizeram-lhe jus e os contrastes não podiam ter sido maiores.

Para começar, duas estreias na plataforma LAB: Imauve, marca da designer Inês de Oliveira, e Carolina Machado, que se estreou na ModaLisboa há precisamente dois anos, com uma participação no Sangue Novo. Não foi à toa que as coleções das duas criadoras foram unidas num mesmo desfile. Além de se terem ambas inspirado em obras cinematográficas (enquanto a primeira foi a Kusturica, a segunda foi a Xavier Dolan), mostraram que partilham da mesma ideia de verão. Um verão com espaço para azuis e amarelos marcantes, mas também para branco, preto, castanho e verde azeitona. A leveza das silhuetas marcou este dois em um. Começou fluido, embora com alguns detalhes militares, com a Imauve, mas ganhou estrutura na segunda parte. As peças de Carolina Machado exibiram o que de melhor a designer absorveu da alfaiataria clássica, através de franzidos, mangas volumosas e ombros largos.

Coordenado de Carolina Machado, no primeiro desfile deste sábado © João Porfírio/Observador

Entretanto, quem decidiu ficar a guardar lugar para ver segundo desfile, nem sabia o que o esperava. Em torno da área reservada a convidados e imprensa, a organização dispôs bancos altos. Os assentos encheram-se em três tempos, sem contar com quem ficou na relva a ver de longe. Silêncio que as gueixas vão cantar o fado. Não cantaram, mas a coleção de David Ferreira para o próximo verão foi a que mais curiosos atraiu ao jardim, junto ao Pavilhão Carlos Lopes. E se ele sabe dar espetáculo. Composta por 29 coordenados, esta foi a maior coleção apresentada pelo designer de 27 anos. A maioria das pessoas que se juntaram em torno da passerelle poderá não saber, mas o que viram a meio da tarde foi pura alta-costura.

“Teve tudo a ver com o sol, a luz, o lago. Funcionou muito bem. As pessoas que não estão em moda precisam de começar a olhar com olhos de ver para os criadores portugueses. A indústria em si, que tem tanta força, não é valorizada como devia. Eu acho que isso só acontece porque quem está fora da área da moda não sabe muitas vezes o que Portugal realmente tem”, afirma o David Ferreira ao Observador.

E ninguém diria que os dois universos na origem da coleção “Karyukai Fatum” se poderiam encontrar. As gueixas já eram um desejo adiado, o fado uma fonte de inspiração que foi crescendo a partir do momento em que o designer voltou a morar em Portugal. David só inverteu os papéis. Contrariou a natureza discreta destas figuras nipónicas, fazendo sobressair a sua silhueta em quase todas as peças. O fado, sempre intenso e visceral, ficou visível em detalhes como os xailes simulados com drapeados e os decotes, próprios das fadistas que tinham por hábito desapertar os primeiros botões dos corpetes. Tudo isto foi servido com uma boa dose de dramatismo.

Estampados fotográficos e color block, os elementos que marcam a coleção da Awaytomars © Ugo Camera

A Awaytomars voltou a optar por uma alternativa ao desfile convencional. Os modelos mostraram a nova coleção sem descerem de pequenos cubos brancos, espalhados pelo jardim. O público, esse sim, teve de se mexer. Dezenas de pessoas serpentearam entre os pedestais, incluindo Suzy Menkes, editora da Vogue internacional. A plataforma de design participativo apresentou 70 peças, num processo de cocriação que envolveu 718 designers de 85 países. O fotógrafo Gleeson Paulino também teve uma palavra a dizer. Algumas das suas imagens foram utilizados como estampados em peças da coleção.

Nuno Gama, o rei dos desfiles espetáculo não fez por menos. Cobriu os modelos de argila branca, a mesma tonalidade que dominou por completo os primeiros coordenados que pisaram a passerelle, levou bailarinos e escolta, numa ode à azulejaria e à cerâmica portuguesa. No final, Mike11 fechou o desfile com chave de ouro. O guitarrista 2.0 percorreu a passerelle a tocar ao vivo, seguido pelo já famoso batalhão de modelos de Nuno Gama.

Nuno Gama terminou o desfile em grande, com o guitarrista Mike11 © João Porfírio/Observador

A partir daí, a temperatura só aumentou. A Cia. Marítima viajou até Cuba, enquanto Christophe Sauvat se ficou pelo litoral de Cassis, no sul de França. Mas antes deles, já Aleksandar Protic tinha aquecido a passerelle, ou pelo menos o coração de todos os que sentiram a sua falta durante estes dois anos em que esteve ausente do calendário da ModaLisboa. Sempre neutro, o designer deixou-se inspirar pelas esculturas de série “Pelagos” de Barbara Hepworth.

Já com o final da noite a aproximar-se, Ricardo Andrez encalhou no Pavilhão Carlos Lopes, mas no melhor dos sentidos. Lembra-se de Reijin, o navio japonês encalhado na Praia da Madalena, em 1988? O designer fez do momento postal e construiu a partir daí o seu mood board. As cores, as silhuetas quadradas, os acabamentos metalizados — por nós, a coleção primavera-verão 2018 de Andrez podia dar à costa já amanhã.

O vermelho, uma das cores que mais se destacou na coleção “Silêncio”, de Dino Alves © João Porfírio/Observador

O dia encerrou com Dino Alves. O veterano da moda lisboeta evitou ter música durante o desfile. Preferiu o chilrear de aves exóticas para acompanhar a imagem gráfica criada por cada coordenado que pisava a passerelle.

A49ª edição da ModaLisboa avança para o terceiro e último dia. Morecco, Nair Xavier, Eureka, Olga Noronha, Nadir Tati, Luís Carvalho, Mustra e Filipe Faísca apresentam as suas coleções para o próxima verão no domingo. Os primeiros três são ao ar livre.

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