Caso José Sócrates

As conversas com o “bloguista”, a amiga Sandra e o sms de António Costa. Saiba quem foi escutado na Operação Marquês

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Anexo à acusação do processo, está um documento de 113 páginas com as escutas que servirão de meio de prova em tribunal. Ao todo são 3.633 chamadas, SMS e até MMS.

MÁRIO CRUZ/LUSA

É preciso chegar à terceira página — de um total de 113 — para o nome de José Sócrates aparecer pela primeira vez no documento com a relação de escutas telefónicas apensas à acusação do Processo Marquês, a que o Observador teve acesso.

Ao todo, são 3.634 as “sessões de interceção telefónica” consideradas pelo Ministério Público e que vão servir de prova da acusação durante o julgamento. Da lista de escutas, captadas entre 15 de junho de 2009 e 18 de setembro de 2015, constam dezenas de implicados no processo e figuras próximas do ex-primeiro-ministro. Dos 19 acusados, só Luís Marques e José Luís Ribeiro dos Santos não constam do rol anexo à acusação.

Apesar de serem sobretudo conversas mantidas de viva voz ou através de SMS, há também sete MMS – mensagens com imagens. Três foram enviadas para José Sócrates; uma por Johana Ruth Tablada de la Torre, embaixadora de Cuba em Portugal, outra pelo advogado Guilherme Machado Dray, e uma última por Nazaré Soares, funcionária da agência de viagens Top Atlântico. Carlos Santos Silva recebeu duas, uma foi-lhe enviada pela mulher, Inês do Rosário (ambos foram esta terça-feira acusados no processo); outra pelo advogado Gonçalo Trindade Ferreira (também acusado, de 4 crimes). Por último, um remetente anónimo enviou uma imagem a Fernanda Câncio, ex-namorada do ex-primeiro-ministro. Não há como saber se foi o mesmo que mandou uma outra para Guilherme Machado Dray.

Voltando a José Sócrates, que tanto surge com os dois nomes próprios ou como José Pinto de Sousa: a primeira vez que aparece no rol de escutas é a propósito de uma chamada que fez para o banqueiro José Maria Ricciardi, que no decorrer do processo depôs não só contra o ex-primeiro-ministro como também contra Ricardo Salgado, exatamente às 13h05:47 do passado dia 28 de dezembro de 2011. O ex-presidente do BES, que foi esta quarta-feira acusado de 21 crimes, também consta da lista de escutados.

A 29 de outubro de 2014, pelas 21h29, José Sócrates enviou um SMS para o agora primeiro-ministro António Costa. A resposta, se existiu, não foi incluída no processo. É o único momento em que Costa surge nas escutas. Francisco Balsemão também só aparece uma vez, graças a um telefonema que manteve com Ricardo Salgado, às 8h46 do dia 20 de dezembro de 2011.

Já José Paulo Pinto de Sousa, o primo de José Sócrates que vive em Angola, que terá dado origem a todo o Processo Marquês, foi agora acusado de dois crimes de branqueamento de capitais, e pelo caminho trocou a nacionalidade portuguesa pela brasileira, surge 223 vezes. Invariavelmente manteve conversas com Sócrates, Hélder Bataglia, Carlos Santos Silva, com o irmão, António Pinto de Sousa, e com a mulher, Luciana.

Nazaré Soares, funcionária da Top Atlântico que terá revelado ao procurador Rosário Teixeira um alegado esquema de marcação, cancelamento e faturação de viagens, pagas por Carlos Santos Silva a José Sócrates quando este ainda era primeiro-ministro, aparece dezenas de vezes. Falou ao telefone sobretudo com o segundo.

Foram 29 as conversas que José Sócrates manteve, ao telefone ou por sms, entre setembro de 2013 e agosto de 2014, com Fernanda Câncio. O nome da jornalista aparece 30 vezes no documento anexo à acusação — uma chamada que recebeu de João Perna, motorista do ex-primeiro-ministro, e o já referido MMS completam o rol.

O nome de Sandra Santos, sempre com a nota “Suíça” associada, surge 207 vezes. A partir de julho de 2013 e até ao dia 19 de novembro de 2014, aquela que tem sido descrita como a “amiga secreta” do ex-primeiro-ministro falou ou trocou mensagens com José Sócrates ou com Carlos Santos Silva. Na noite de 21 de novembro de 2014, o ex-primeiro-ministro foi detido no aeroporto da Portela, quando regressava de Paris, às 22h12. Sandra Santos enviou-lhe quatro SMS seguidos, às 22h15. Nunca chegou a obter resposta.

Sofia Fava, ex-mulher e mãe dos seus filhos, acusada de um crime de branqueamento de capitais e de outro de falsificação de documentos, aparece referida nas escutas 161 vezes. Maria Célia Tavares, outra das mulheres associadas ao ex-primeiro ministro, aparece em 99 ocasiões. Exatamente o número de vezes que aparece Lígia Correia, a ex-secretária com quem, segundo a revista Sábado, José Sócrates passou a viver quando saiu da cadeia — e que terá sido também uma das suas principais ajudas no caso da compra dos livros.

A partir de 16 de setembro de 2013, pouco antes de o Expresso avançar a notícia de que o ex-primeiro-ministro tinha acabado a sua tese de mestrado sobre tortura, que se preparava para editar no mês seguinte, com prefácio de Lula da Silva, José Sócrates manteve conversas com António Peixoto, identificado nas escutas como “bloguista”. Até 12 de novembro de 2014 foram assinaladas como prova 95 chamadas entre o ex-primeiro-ministro e o blogger que, sob o pseudónimo “Miguel Abrantes”, alimentava na altura o “Câmara Corporativa“, blogue que atacava abertamente os detratores de Sócrates. De recordar que, em 2015, surgiriam notícias sobre as dúvidas do Ministério Público relativamente à autoria do livro “Confiança no Mundo – Sobre a Tortura em Democracia”. E que já este ano foram reveladas as suspeitas de que Peixoto teria recebido 76 mil euros para manter o blogue.

Há ainda dez conversas mantidas em 2009 entre Joaquim Oliveira, presidente da Controlinveste, e Armando Vara no processo. Várias notícias publicadas já em 2017 davam conta de um pretenso plano orquestrado por figuras próximas de José Sócrates para controlar a comunicação social. Armando Vara, que já foi condenado no processo Face Oculta, foi acusado agora na Operação Marquês de 5 crimes: um de corrupção passiva de titular de cargo político, dois de branqueamento de capitais e outros dois de fraude fiscal qualificada. São muitas também as comunicações (pelo menos 20) com Afonso Camões, primeiro com diretor da Lusa e atualmente do JN, conhecidas que eram já escutas em que José Sócrates e Camões discutem a mudança de diretor no DN (jornal que pertencia à Global Notícias de Joaquim Oliveira, primeiro, empresa agora liderada por Proença de Carvalho, ex-advogado do ex-primeiro-ministro).

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