PSD

O discurso de Rui Rio nas entrelinhas

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Rio diz que o PSD não é de direita. Não? Ficou no Porto porque "palavra dada, palavra honrada". Quem criticava? Diz que este é o momento mais crítico do PSD: Será? 2008 não foi pior? Por Vítor Matos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rui Rio falou do distanciamento entre os portugueses e os políticos, mas não respondeu a perguntas depois do discurso. Disse que o PSD não é de direita. Mas não é mesmo? Alegou que ficou no Porto em 2008 e 2010 e que não avançou com uma candidatura à liderança, porque “palavra dada, palavra honrada”. Afinal, quem está a criticar? Hoje afirma que este é o momento mais crítico do PSD. Mas as crises entre 2004 e 2008 não foram piores? O que disse Rui Rio e o que está por detrás do que afirmou o candidato à liderança do PSD, que recusa ser “muleta” do PS e quer devolver a “ética” e os “valores” à politica?

O discurso de Rui Rio está em itálico e os comentários e interpretações estão a amarelo.

“No passado recente, foi-me, por duas vezes, feito um apelo no sentido de me candidatar à presidência do Partido Social Democrata. Primeiro, nas eleições internas de 2008 e depois, uma segunda vez, nas de 2010. Seria normal, no quadro de valores pelo qual se tem vindo a reger a política em Portugal, que eu, nessa altura, tivesse aceitado o desafio, perante o significativo apoio de que dispunha. Só que, na política, como na vida, palavra dada deve ser palavra honrada. E quem, como eu, tinha pedido ao eleitorado da sua cidade para lhe dar o seu voto, em circunstância alguma deve trair quem em si confia.
E, se da primeira vez, isso era já inquestionável pelos mais elementares princípios éticos, na segunda, logo depois de umas eleições autárquicas em que eu afirmei perentoriamente que estaria “com os dois pés no Porto”, reafirmo que abandonar quem em mim confiou não faz, nem nunca fará, parte do meu código de conduta.”

Só não foi líder em 2008, quando Manuela Ferreira Leite ganhou, nem concorreu em 2010, quando Pedro Passos Coelho lá chegou, porque tinha prometido aos portuenses que não abandonava o Porto. E ainda critica os que dão o dito pelo não dito, “o quadro de valores” porque que se rege a política portuguesa. Percebe-se quem é o destinatário da crítica: António Costa, que em 2013 foi sempre ambíguo sobre se ia terminar o seu mandato em Lisboa. Quando Rui Rio cita Costa com o célebre “palavra dada, palavra honrada”, no fundo diz que o primeiro-ministro traiu quem nele confiou e sugere que não tem “valores”. Isso fica ainda mais sublinhado quando diz que manter este compromisso com os eleitores do Porto era “inquestionável pelos mais elementares princípios éticos”. Rui Rio recorda ter dito na campanha de 2009 que ficaria “com os dois pés no Porto”. Ora, em Lisboa em 2013, foi o social-democrata Fernando Seara que fez um cartaz a dizer “em Lisboa, com os dois pés”, exatamente para atacar Costa”.

“Se há coisa de que, hoje, a política precisa em Portugal, é justamente de um banho de ética. Não pode valer tudo. Antes do mais têm de vir os princípios e os valores. Por isso, eu jamais me poderia ter candidatado ao que quer que fosse sem antes cumprir a minha palavra até ao último momento.”

No dia em que é conhecida uma acusação (pesada) ao ex-primeiro-ministro José Sócrates, por crimes alegadamente cometidos em funções, são fortes e ajustadas as palavras de que a política precisa de um "banho de ética". Não pode valer tudo, diz Rui Rio para falar de assuntos tão "leves" como o "simples" e habitual voltar atrás na palavra de um político, nada que dê cadeia. O “banho de ética” que Rui Rio promete é uma daquelas proclamações arriscadas de qualquer político que alega a pureza dos valores e a superioridade moral. A primeira vez que Rui Rio falhe a sua palavra, volte atrás, ou tenha qualquer ambiguidade em relação a casos concretos que envolvam “ética” e “valores”, arrisca-se a um banho de críticas. Manuela Ferreira Leite teve um discurso parecido e depois era atacada por ter como esteio no partido um dirigente como António Preto -- nessa época alvo de investigações de que seria ilibado.

“Fazer o contrário, era feio! Muito feio. Era utilizar o Porto, que tanto respeito, como trampolim para estratégias pessoais. Era, na minha forma de estar na política, defraudar princípios básicos das regras democráticas. E se, nos corredores da política, há muitos que discordam da opção que então tomei, estou seguro que o povo entende, como ninguém, a linguagem do cumprimento da palavra dada.”

Se era feio usar o Porto como trampolim para estratégias pessoais, foi feio Costa fazê-lo em Lisboa. Mais indiretas ao primeiro-ministro. O adversário está identificado para quem tinha dúvidas sobre o posicionamento de Rio. No entanto, fica registado que uma candidatura à liderança de um partido é uma estratégia pessoal, quando se trata da candidatura dos outros. Presume-se que para satisfazer ambições pessoais. Quando se trata dos próprios, normalmente é um apelo à consciência e uma obrigação cívica ou uma missão...

“Acresce que, nessa altura, o PSD vivia momentos de relativa normalidade. Normalidade não quer dizer facilidade, mas significa que não estávamos numa situação de crise. Hoje, a situação é diferente.
Hoje – temos de o dizer com frontalidade – o PSD está numa situação particularmente difícil. Uma situação que se não for, desde já, combatida, pode conduzir o partido para um patamar de menor relevância no quadro político nacional, a exemplo do que já aconteceu com grandes partidos de referência noutros países da Europa. Mas, hoje, a situação também é diferente, porque, hoje, eu não tenho a minha palavra, eticamente presa a qualquer compromisso. Posso decidir livremente.
E, se no tempo próprio, estava com os dois pés no Porto, hoje estou disponível, neste tempo próprio, para estar com os dois pés no PSD e no País. Decidi, por isso, ser candidato a presidente do Partido Social Democrata, nas próximas eleições internas de janeiro. Tudo na vida tem o seu tempo. Hoje, o meu tempo, é o tempo de me dedicar a servir o PSD, num dos momentos mais difíceis da sua história.”

Não deixa de ser estranho Rui Rio referir-se à eleição interna do PSD em 2008 como um momento de relativa normalidade e achar que hoje é muito pior. Entre 2004 e 2008, o PSD tinha sido defenastrado do poder por Jorge Sampaio, que dissolveu a maioria de Pedro Santana Lopes para ser humilhado nas urnas. A seguir, o partido foi liderado por Marques Mendes que após uma derrota autárquica em Lisboa perdeu a liderança para o seu arqui-inimigo Luís Filipe Menezes. Durante mais de um ano (o tempo de Santana somado ao de Menezes) o partido viveu os momentos mais alucinantes e surreais da sua rica história e Rio entende que não estava numa situação de “crise” profunda. E Santana, de quem Rio foi vice, ofereceu a maioria absoluta a José Sócrates, a única que o PS alguma vez teve. Se Rio considera que o partido agora está numa situação muito pior, quando venceu as últimas eleições e o PS ficou em segundo lugar, terá de explicar muito bem a gravidade da sua análise comparativa. De certa forma, quando fala na redução do partido a um patamar de menor relevância, pode estar a dar voz a opiniões de um amigo e apoiante, Pacheco Pereira, que escreveu logo depois das autárquicas que o PSD “deixou de ser um grande partido para ser um partido médio”.

“Seria bem mais cómodo do ponto de vista pessoal, familiar ou profissional não responder afirmativamente aos apelos que me fazem. Mas, como sempre pensei, sempre disse, e sempre fiz, eu jamais defraudaria a esperança que tantos em mim depositam. Por isso, aqui estou. Pronto para cumprir o meu dever de português e pronto para a batalha que todos temos de travar por um PSD forte – pelo PSD que Portugal tanto precisa.”

Declaração habitual em muitos políticos — Cavaco Silva, por exemplo —, que quando se candidatam isso acarreta mais do que prazer, um sacrifício pessoal, uma missão em nome da pátria. Depois, Rio coloca o ónus não na sua vontade, mas sobretudo na esperança que sobre ele outros depositaram para que se candidatasse. Fica sempre bem fazer estas manifestações de altruísmo, mas assim parece que não há ambição nem vontade pessoal, o que também soa a uma certa hipocrisia.

“Este é também o momento certo para aqui firmar uma palavra de respeito, de consideração e de gratidão ao Dr. Pedro Passos Coelho, pelos serviços que prestou ao Partido e ao País. A gratidão é dos valores éticos mais relevantes da nossa convivência social. Sem ela, o mundo é uma selva que não conhece a solidariedade. Nós não podemos esquecer quem nos ajudou e quem, por nós, trabalhou. Comigo a presidente, o PSD não se esquecerá de Pedro Passos Coelho, nem de todos os demais que de forma correta, leal e altruísta, serviram o partido ao longo dos tempos. É este o exemplo que queremos dar à sociedade portuguesa em geral e ao sistema partidário em particular.”

Rui Rio agradece ao homem que deixou o PSD numa das situações mais difíceis da sua história. Percebe-se. Há uma certa grandeza em elogiar os que passam, os que estão “politicamente mortos” ou fora de combate. Mas se Passos Coelho deixou o PSD nessa situação tão negativa, esta gratidão como valor ético parece mais uma forma de ser magnânimo ou então cínico (mais uma vez). Este agradecimento deixa no ar esta pergunta: mesmo que da mesma forma lhe agradecesse, que críticas faria a Passos se este discurso o tivesse como adversário direto?

“Por isso, quero que fique, desde já, bem claro, que num PSD por mim presidido, não há ruturas geracionais. Todos somos importantes. Os mais velhos pela sua experiência, pelo seu saber e pelo respeito e gratidão que nos merecem. Os mais jovens, pela dinâmica, pela ambição e pela criatividade que nos trazem. São os mais jovens, que, com o apoio dos mais velhos, constroem, no presente, um futuro melhor para eles próprios. Só assim, em plena harmonia com a suas raízes culturais e com o seu saber acumulado, é que uma sociedade pode prosperar e assegurar um futuro melhor para todos. Para todos, sem exceção. Não queremos um país dos novos contra os velhos, dos do interior contra os do litoral, dos do norte contra o os do sul ou dos funcionários públicos contra os trabalhadores do setor privado.”

Este trecho do discurso parece uma resposta às acusações de o núcleo duro de Rio parecer a “brigada do reumático”. Numa sala cheia de cabelos grisalhos, o candidato colocou os mais velhos no patamar do saber e os jovens no da dinâmica e criatividade. Mas vamos colocar as idades em perspectiva. Rui Rio tem 60 anos. Cavaco Silva tinha 45 anos quando chegou a primeiro-ministro, assim como Durão Barroso, Pedro Passos Coelho ou António Guterres estavam a meio dos 40 quando tiveram as mais altas responsabilidades. A parte final desta passagem é mais uma crítica velada aos governos de Pedro Passos Coelho, e foi sempre um argumento muito usado por Pacheco Pereira, que acusava o passismo de colocar os portugueses uns contra os outros — sobretudo em termos geracionais e na relação funcionários públicos e trabalhadores do privado.

“Somos todos portugueses e temos todos o direito à igualdade de oportunidades, à solidariedade social, à tolerância e, acima de tudo, à liberdade. São estes os valores da social-democracia, os valores primeiros que, no nosso quadro ideológico, o Estado, a todos, tem de garantir.
Somos sociais-democratas! O PSD não é um partido da direita. O PPD que Sá Carneiro, Francisco Balsemão, e tantos outros, fundaram – com raízes profundas na nossa classe média e transversal a toda a sociedade – é um partido do centro; que vai do centro direita ao centro esquerda. Não é um partido de direita, tal como alguns o têm tentado caracterizar. Não é, nem nunca será.”

A primeira parte desta passagem é consensual no PSD. Mesmo os mais liberais poderiam subscrevê-la. Basta comparar esta declaração com uma parte do discurso de despedida de Passos Coelho. As diferença começam quando se discute o que é “solidariedade social”, ou o que é “igualdade de oportunidades”. Ou que papel cabe ao Estado para as garantir. Mas quando Rui Rio diz que o PSD não é um partido de direita corre dois riscos: o de não ser compreendido pelas bases que se consideram de direita (uma vez que esta coisa de o PSD ser de esquerda é de algumas elites urbanas minoritárias); ou o risco de não ser compreendido pelos portugueses que olham para o PSD como um partido de centro-direita, e que trata os restantes partidos (tirando o CDS) como “a esquerda”. Aliás, quem converse com qualquer dirigente ou militante do PSD, percebe que “a esquerda” são os outros, nunca o PSD. Lembra-se de alguém no PSD, nos últimos 30 anos ter falado do PSD como “nós, a esquerda?” Percebe-se que Rui Rio queira colocar o PSD “ao centro”, sobretudo porque Passos Coelho tem sido acusado de ter colocado o PSD demasiado à direita, longe desse centro histórico social-democrata. Curiosamente, não se ouviu uma palavra pública de Rui Rio sobre as alterações que Pedro Passos Coelho fez ao programa do partido — tornando-o muito mais liberal e à direita do que era, sobretudo no que respeita ao papel do Estado — e que foi aprovado num congresso. Rio não apareceu lá a criticar a deriva doutrinária. Esse programa começou a ser elaborado por José Pedro Aguiar-Branco, dirigente da mesma linha ideológica de Rio. Mas o texto final foi elaborado no gabinete do então primeiro-ministro. Ora, se o partido aprovou um programa mais à direita, agora vai aprovar outro mais à esquerda? Este esforço de recentrar o PSD terá de ser corporizado pelo programa do candidato, para se perceber exatamente o que isso quer dizer. A seguir, será um teste para aqueles que andaram a aplaudir as ideias e políticas de Passos mais à direita e que agora podem estar a aplaudir as ideias e políticas de Rui Rio, mais à esquerda.

“Temos todos consciência de que chegamos a um ponto em que o distanciamento entre a política e os portugueses é enorme. Um distanciamento provocado pelo facto de a sociedade ter mudado muito e depressa e o regime não ter revelado a imprescindível flexibilidade para acompanhar essa evolução. No quadro desta realidade, os partidos políticos são, talvez, a instituição que tem a sua credibilidade mais afetada. Mas, sendo os partidos um pilar fundamental da nossa vida democrática, não me conformo que se possa aceitar passivamente esta situação.
Urge dar uma resposta política capaz de defender e revitalizar a democracia. A democracia para o ser na substância, e não apenas nos seus formalismos, exige partidos políticos pujantes, credíveis e plenamente entrosados com a sociedade que visam servir. Mas, tal só será possível se, consequentemente, tiverem, ao seu serviço, agentes políticos sérios, capazes e coerentes.”

É verdade que há um grande distanciamento entre eleitores e eleitos. Menos em relação a um político: ninguém dirá que Marcelo Rebelo de Sousa seja distante dos portugueses. Resta saber se Rio acha que há um problema de atitude dos políticos em relação ao povo, ou se isso nada tem a ver com a proximidade física e os afetos. Que “flexibilidade” do sistema defende para acompanhar a evolução da sociedade? De que forma tenciona Rio melhorar os níveis de credibilidade dos políticos? Rui Rio tem falado muito de reformas do regime que incluem também a comunicação social e a justiça. Veremos se não sairão daqui as suas propostas mais polémicas, uma vez que faz um diagnóstico, mas não apresenta qualquer terapia. Para quem acha que os políticos estão muito distantes dos portugueses, o facto de ter recusado responder a perguntas dos jornalistas não ajuda muito à proximidade, promove mais a distância.

“Candidato-me a Presidente do PSD com a noção muito clara de que o partido tem de definir um novo rumo, que leve ao renascer do contrato de confiança que, ao longo da sua história, sempre soube manter com os portugueses. Temos de prosseguir um caminho que abra o partido à sociedade e que consiga atrair à militância ativa não só os jovens quadros de valor que hoje existem em Portugal, como também o povo anónimo que é, acima de tudo e de todos, o mais lídimo intérprete da forma de ser português.
A abertura à sociedade significa um diálogo permanente com todos, mas implica referenciarmos, com particular cuidado, os sectores mais jovens, mais dinâmicos e mais modernizadores de Portugal; sejam eles empresariais, científicos, sociais ou culturais.”

Considerando que o PSD se tem tentado afirmar, por contraponto ao PS, como o partido da confiança que permitiu a saída do resgate e da bancarrota — tem sido este o discurso oficial do PSD — não se percebe este “renascer”. Só se for à luz do fechamento da liderança de Passos Coelho nestes dois anos de oposição, que deu sinais de estar distante das dinâmicas políticas e sociais mantendo o discurso da catástrofe. Quanto à abertura do partido, é um posicionamento que não tem sido comum no passado recente do PSD, resta saber como vai ser realizado, pois o aparelho tenta expelir da sua proximidade qualquer tentativa de entrada de gente sem os vícios da vida e lógica partidárias.

“O País não se pode deixar hipnotizar por uma conjuntura económica, que – por contrastar, pela positiva, com a profunda crise que recentemente atravessámos – tende a nos iludir quanto ao futuro. Mais do que gerir o presente ou lamentar o passado, Portugal tem de se preparar para o futuro.
Seguir este caminho, significa olhar de frente as alterações estruturais que o País tem de fazer para assegurar a sua competitividade no espaço global. Significa, também, ganhar uma margem sustentável para distribuir a riqueza de forma mais justa, e ser social e territorialmente mais coeso.”

Forma hábil e mais sofisticada de colocar a questão, diferente do modo como Passos Coelho fez oposição nos últimos tempos: o momento é positivo, mas nada nos garante que não seja uma ilusão para o futuro para o qual temos de nos preparar. Não se sabe que alterações estruturais são estas que Rui Rio tem na manga. Mas é muito social-democrata falar em “distribuir riqueza de forma mais justa” — o PS, o PCP ou o Bloco subscreveriam esta frase isolada sem outras explicações. A coesão territorial, pelo contrário, tem sido uma bandeira do PSD, mas sem grande sucesso do ponto de vista mediático.

“Não podemos estar apenas preparados para navegar com mar calmo e ventos favoráveis. O tempo maior da História de Portugal foi justamente quando tivemos a capacidade e a grandeza de navegar contra ventos e marés.
Temos de ser capazes de construir a robustez estrutural de que necessitamos, para que o País tenha uma adequada capacidade de resposta às tempestades que sabemos que, ciclicamente, sempre acontecem. Temos, por isso, de mudar de política. Temos de olhar mais para o futuro do que para o presente. Em harmonia com a sua história, é urgente que o PSD esteja capaz de ser o agente dessa mudança. Mas só o seremos para Portugal se o formos no nosso seio.”

Tirando o facto de as metáforas com os Descobrimentos fora do contexto parecerem sempre pindéricas, Rui Rio coloca o acento tónico em algo que não é assim tão diferente do partido de direita ou centro-direita: as políticas contracíclicas ao ciclo económico. Ou seja, poupar e criar robustez quando tudo corre bem, para gastar ou ter um conforto quando corre mal. Olhar mais para o futuro do que para o presente não é muito diferente do que Passos andava a dizer -- só varia a forma -- resta saber qual o conteúdo das políticas defendidas por Rio.

“Só um PSD com novas formas de funcionamento, bem mais perto das pessoas, mais aberto à sociedade e umbilicalmente ligado ao quotidiano dos portugueses, é que pode voltar a ser a força política liderante, capaz de levar Portugal a ultrapassar os constrangimentos estruturais que o condicionam; e que, pelas contradições que em si encerra, esta coligação parlamentar que hoje nos governa, jamais será capaz de o fazer.”

Como é que se liga um partido “umbilicalmente”? Com redes sociais? Com mais comentadores na televisão? Com think-tanks? Com a cativação de mais militantes (dos verdadeiros)? Não se compreende porque é que as contradições da coligação fazem com que não esteja “umbilicalmente” ligada aos portugueses (uma vez que tem sido acusada de querer dar tudo a toda a gente, e a todas as corporações, ou seja, de estar talvez demasiado “umbilicalmente” ligada). Mas talvez seja apenas produto de uma passagem mal escrita e Rui Rio quisesse apenas dizer que a coligação não será capaz de “ultrapassar os constrangimento estruturais que nos condicionam”. Só não podemos comentar porque não sabemos que constrangimentos são esses, pois Rui Rio não os identifica.

“Como disse, tem de haver um tempo para tudo. A situação em que o partido e o País se encontram não admite que baixemos os braços, nem é compaginável com a desmoralização ou com o abandono da militância; mas muito menos o é, com a entrega passiva da liderança a outras forças partidárias. Bem pelo contrário: O PSD é um partido de poder, não é muleta do poder.
Por isso, esta é a hora! A hora de cerrar fileiras, de olhar para o futuro e de rasgar horizontes. É a hora de agir! Podemos estar enganados, mas não podemos estar inativos.”

Helás, era o que toda a gente estava à espera que Rio dissesse e parecia que nunca mais… Ficou para o fim. O objetivo do PSD é o poder e não ser a muleta do PS. Portanto, nada de Bloco Central. Se era preciso clarificar este aspeto, clarificado ficou. Como o partido gosta de ouvir isto! É música para os laranjinhas! Na necessidade de cerrar de fileiras, porém faltaram duas palavrinhas: “maioria” e “absoluta”. É claro que é um pouco fantasioso dizer hoje que o PSD tem como objectivo uma maioria absoluta, sobretudo quando não o consegue sem a muleta do costume, o CDS. Mas não se percebe como é que a "direita" pode chegar ao poder sem maioria absoluta. Nem como é que um partido de centro ou de centro-esquerda recusa coligar-se com o outro partido de centro esquerda, para ser mais amigo da direita. Mas falar destes detalhes na quarta-feira estragava a narrativa e a noite era de festa e de esperança.
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