Hollywood

Harvey Weinstein, de colosso de Hollywood a violador

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Harvey Weinstein era dos mais poderosos produtores de Hollywood e tem o nome ligado a filmes como "Pulp Fiction" ou "A Paixão de Shakespeare", mas as acusações de assédio há muito que eram conhecidas.

O produtor foi acusado de assédio sexual em troca de papéis por atrizes como Emma Thompson e Cara Delevigne, entre muitas outras

Drew Angerer/Getty Images

Harvey Weinstein é um dos maiores produtores de Hollywood. É? Era. Os rumores de que se aproveitava da sua posição para exigir favores sexuais a aspirantes a atrizes levaram a que no passado dia 6 de outubro o New York Times divulgasse os esquemas de assédio sexual a que submetia as suas vítimas. As alegações não só levaram ao despedimento da empresa de que é co-fundador, The Weinstein Company, como ao internamento numa clínica para tratar do “vício de sexo”.

Produtor Harvey Weinstein acusado de décadas de assédio sexual

Mas quem é este homem que era ao mesmo tempo admirado e temido em Hollywood? Para conhecer Harvey é preciso conhecer também o irmão, Bob Weinstein. O duo ajudou a definir a indústria cinematográfica como hoje a conhecemos . Em 1979 criaram a Miramax (que nasce dos nomes dos pais, Miriam e Max), que se iria tornar uma das mais emblemáticas produtoras independentes do mundo.

Bastaram dez anos para que, em 1989, com o lançamento de “Sexo, Mentiras e Vídeo”, se tornassem os maiores produtores independentes americanos. A aposta em filmes do género, isto é, com menores orçamentos e não ligados aos “grandes estúdios” de Hollywood, tornou-se numa das imagens de marca da produtora.

Em 1993 a Miramax foi adquirida pela Walt Disney Company, mas os comandos continuaram nas mãos dos irmãos Weinstein. Até 2005 arrecadaram mais de duas centenas de Óscares. Filmes como “Pulp Fiction”, que lançou Quentin Tarantino (e que impulsionou o género independente nas bilheteiras), e a “A Paixão de Shakespeare”, que ganhou o Óscar de Melhor Filme em 1999 e teve 13 nomeações (muitos atribuíram os prémios à campanha de publicidade para os membros da academia feita pela produtora), mostraram a influência que a empresa dos Weinstein tinha na indústria.

Esse peso da Miramax (e, após 2005, da Weinstein Company) em Hollywood era demonstrado pela maior gala de entrega de prémios do mundo. Os filmes que distribuía e produzia eram tido como garantidos nos Óscares. Desde ter sido dos estúdios da produtora que saíram os boatos de que as crianças que participaram em “Quem quer ser Milionário”, filme da concorrência, tinham sido exploradas, até a campanhas de marketing de milhões de dólares para promover os filmes que distribuíam, Weinstein era conhecido pelo peso que tinha na academia. Agora, as acusações de assédio levaram a instituição do cinema a reunir de emergência.

Harvey Weinstein. Academia dos Oscares marca reuniões de emergência

Outra das características da Miramax, e que seria uma das grandes fontes de receitas da empresa, foi a aposta em filmes internacionais adaptados para o mercado americano. A edição destes filmes era feita pelos próprios irmãos Weinstein. Este “poder” de edição final, que esteve presente desde os anos de 1980 e era requisito para os irmãos Weinstein distribuírem filmes, valeu a Harvey na indústria cinematográfica a alcunha de “mãos de tesoura”. Um cognome que aterrorizava realizadores.

Como lembra o El País, nada o parava. Chegou a visitar Sydney Pollack e a mulher, quando este já estava às portas da morte, apenas para garantir que cederiam os direitos que tinham no filme “O Leitor”, que a Weinstein Company também produzia. “O Leitor” acabou por dar o Óscar de melhor atriz a Kate Winslet e foi nomeado para melhor filme.

O realizador de Snowpiercer, Bong Joon-ho, conta ao mesmo jornal que viu três editores a mexerem no filme “The Grandmaster”, de Wong Kar-wai, ao reunir-se com os irmãos em Nova Iorque para a distribuição do seu filme. “Pensei que não se atreveriam a tanto com um mestre do cinema”, afirma Joon-ho. “O que é que fariam ao meu filme? Fui-me embora a correr!”, assumiu o cineasta ao El País.

Acusações das pressões dentro da indústria e um livro de 2004, de Peter Biskind, que expunha como a Miramax controlava as cerimónias de prémios e como a produtora enriquecia às custas do cinema independente, levaram a que os irmãos Weinstein abandonassem a produtora. No entanto, os métodos de influência passaram em 2005 para uma nova empresa que salientou o poder dos Weinstein em Hollywood: The Weinstein Company.

Viria a produzir aclamados sucessos como “O Discurso do Rei”, “O Mordomo” e “Guia para um final feliz”, que arrecadaram inúmeros prémios e um grande volume de receitas nas bilheteiras. Atrizes como Penélope Cruz ganharam óscares graças a filmes produzidos por Weinstein agradecendo-lhe pessoalmente ao receberem o galardão (com Vicky Cristina Barcelona, em 2009). Harvey estava no topo e ninguém questionava o seu poder.

O segredo que todos sabiam em Hollywood

A influência e sagacidade de Harvey, porém, não se revelava só nos filmes, como agora se começa a saber. O controlo e assédio era feito também a atrizes. Mas não foi com grande surpresa, como aparentaram muitos atores, que estas acusações surgiram.

Era um segredo mal guardado de Hollywood. Como lembra o site cómico College Humor, nas décadas em que Harvey Weinstein se tornou sinónimo da indústria de entretenimento, já muitos chamavam a atenção para o “problema” do produtor. A série 30 Rock, que esteve no ar de 2006 a 2013, “brincava” mesmo com o assunto sério que levou à “queda” de Weinstein. Jenna, uma atriz do programa fictício TGS em torno da qual a história série gira, dizia: “Eu não tenho medo de ninguém no show business. Eu recusei sexo com o Harvey Weinstein em 3 ocasiões… de 5″.

Também na academia já se “gracejava” com os abusos do produtor. Em 2013, quando Seth Macfarlane anunciou com Emma Stone as atrizes nomeadas para a categoria de melhor atriz secundária, “brincou”: “Parabéns às nomeadas, já não têm de fingir que estão atraídas pelo Harvey Weinstein”.

Os inúmeros atores (principalmente atrizes) que se têm pronunciado quanto às alegações, apoiando as mulheres que assumiram os abusos, usaram quase sempre a mesma frase : “Foi com surpresa que…”. Pode ter sido uma surpresa para o mundo, mas para a indústria cinematográfica nem tanto. O sagaz produtor que dominou Hollywood é apenas símbolo da perversidade e taboo do “casting de sofá” que ainda existe, e em que executivos trocam papéis em filmes por favores sexuais.

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