Crítica de Livros

Maya Angelou não veio para ficar

"Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola" é a primeira das sete autobiografias que Maya Angelou, poetisa e ativista dos direitos civis, escreveu entre 1969 e 2013. João Pedro Vala dá-lhe quatro estrelas.

Além de poetisa, dramaturga e ensaísta, Maya Angelou foi uma feroz ativista dos direitos civis dos afro-americanos. Morreu em 2014

Getty Images

Autor
  • João Pedro Vala

Nome: Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola
Autor: Maya Angelou
Editor: Antígona
Páginas: 304
Preço: 17,50€

O livro chegou às livrarias no final de setembro

Na primeira linha de Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola, a primeira das sete autobiografias que Maya Angelou escreveu entre 1969 e 2013, encontramos a protagonista, Marguerite Johnson (nome verdadeiro de Angelou) a tentar declamar dois versos: “Porque é que ‘tão a olhar para mim?/ Não vim para ficar”. Estes dois versos parecem ser a introdução perfeita para o livro, uma vez que Marguerite tentará sempre colocar-se simultaneamente numa postura rebelde de desafio, sugerida pelo primeiro verso, e de recusa ao enclausuramento na gaiola em que a comunidade afro-americana é (ou, pelo menos, era entre 1931 e 1944, os anos abrangidos pela narrativa) inevitavelmente introduzida, conforme se percebe no segundo verso. É por isso que, logo no primeiro capítulo, Marguerite fantasia com o momento em que descobririam que ela, a jovem negra alta e de carapinha por todos desprezada, era, afinal, uma rapariga branca, loira de olhos azuis, o que conduziria a um arrependimento generalizado pela injustiça contra si cometida. Ao fantasiar com a sua própria metamorfose, Marguerite imagina-se branca porque não consegue perceber os motivos que a impedem de ser tratada como tal, porque se recusa a reconhecer o seu estatuto de negra.

A visão infantil do mundo acima descrita irá, ao longo da narrativa, evoluir, dando a esta imagem de alguém preso na pele errada uma vocação universalista, não sendo, portanto, apenas Marguerite, mas todos os membros da comunidade negra as vítimas deste equívoco. Assim, a raiva da protagonista dirigir-se-á na direcção dos brancos que deixam de ser vistos como pessoas (“Pessoas eram Mrs. LaGrone, Mrs. Hendricks, a Mãezinha (…) e o Rex. Os brancos não podiam ser pessoas porque tinham os pés demasiado pequenos” (p.31)), mas também na direcção dos negros, considerados por Marguerite demasiado moderados, conservadores e subservientes (a cena em que Marguerite vê a avó ser humilhada por três crianças brancas é ilustrativa a este respeito).

O título I Know Why The Caged Bird Sings, traduzido em português por Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola, é retirado de “Sympathy”, um poema com uma carga alegórica evidente do escritor negro Paul Anderson Dunbar sobre um pássaro engaiolado que, impedido de voar em liberdade, se arremessa contra as grades da sua gaiola até que estas fiquem cobertas de sangue. No poema, o canto do pássaro é uma súplica por libertação a Deus. A mesma libertação é suplicada em “Caged Bird”, o poema que revisita “Sympathy”, escrito por Maya Angelou em 1983. No entanto, o pássaro engaiolado de Angelou já não enche de sangue as grades da gaiola, já nem consegue sequer voar e, se o seu canto é uma súplica por tudo aquilo que deseja mas que nunca viu, só canta porque já nada mais pode fazer.

Tal como acontece em “Caged Bird”, em Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola, as personagens já não têm forças ou ânimo para procurar inverter as coisas e a única rebelião possível contra o sistema consiste em pequenas revoltas. Não é possível imaginar um sistema que trate brancos e negros por igual, mas ainda é possível a uma criada negra partir o serviço de louças de uma senhora branca, ou um negro enganar um branco num negócio, ou arranjar um trabalho nos eléctricos de São Francisco, ou ser campeão do mundo de pesos pesados. Como Marguerite perceberá na sua festa de
finalistas, “os miúdos brancos iam poder tornar-se Galileus e Madames Curies e Edisons e Gauguins e os nossos rapazes (as raparigas nem sequer eram incluídas nos planos) tentariam ser Jesse Owens e Joe Louises” (p.181).

No meio desta desolação, Marguerite parece, ainda assim, depositar fortes esperanças na possibilidade de uma redenção através da literatura, descrita quase sempre de forma apoteótica como um refúgio para o mundo, muito acima do mundo, como se a literatura fosse forte o suficiente para consolar os tristes e minimizar as misérias (“Oh, poetas negros conhecidos e desconhecidos, quantas vezes as vossas dores leiloadas nos sustentaram? Quem calculará as noites solitárias que as vossas canções tornaram menos solitárias, ou as panelas vazias que os vossos contos tornaram menos trágicas?” (p.187)).

Esta defesa assolapada da importância da literatura virou-se contra Maya Angelou em 1999, quando a escritora e crítica literária Francine Prose escreveu um artigo em que defendia a retirada de Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola e de outras obras da lista de leitura das escolas do ensino secundário dos Estados Unidos da América. Prose argumenta que seria um erro fazer de Maya Angelou um exemplo de prosa poética virtuosa. A violenta crítica de Prose, sendo em alguns momentos deselegante, não pode ser desvalorizada. Torna-se evidente ao longo das suas memórias, a atracção de Maya Angelou pelo dramatismo e por uma linguagem excessivamente metafórica (como a própria admite, aliás, ao escrever que “era difícil domar o meu amor ao gesto exagerado e à voz emotiva” (p.218)). Não são raros os momentos em que levamos em poucas linhas com uma incomodativa enxurrada de metáforas e comparações de qualidade duvidosa, como acontece, por exemplo numa das, apesar disso, melhores sequências do romance, onde se narra o momento em que uma senhora tresloucada invade o púlpito do pregador aos gritos. Aí, em apenas duas páginas, encontramos cinco comparações que pouco nos acrescentam, como “ficaram suspensos como meias penduradas numa corda da roupa” ou “soltou um grito como uma árvore a cair” (p.45).

No entanto, seria um erro menosprezar Maya Angelou como escritora apenas devido a uma atracção pelo melodrama e por metáforas onde lágrimas são equiparadas a leite morno. A descrição que Angelou faz da violação de que foi vítima aos nove anos e da angústia e vergonha que se seguiram, é feita com sobriedade e através de uma metáfora perfeitamente adequada, de uma violência tremenda: “Depois veio a dor. Uma entrada em que até os sentidos se rasgam. O acto de violação perpetrado num corpo de oito anos é um caso em que a agulha cede, porque o camelo não consegue. A criança cede, porque o corpo pode, e a mente do violador não” (p.82). É ainda demonstrativo de uma originalidade literária que nos impede de ver em Maya Angelou apenas uma representante dos movimentos em defesa dos direitos civis dos afro-americanos a mudança radical que acontece a certa altura na gramática da avó. Depois de visitar a mãe em Saint Louis pela primeira vez, e depois de aí ser violada pelo padrasto, Marguerite regressa ao Arkansas, para casa da sua avó. Ao regressar, a avó, até então eloquente, transforma-se numa senhora de linguagem humilde, incapaz até das mais simples conjugações verbais (“Muitos foi os dias”; “eu faz costuras”, etc), uma vez que, perdida a inocência, Marguerite é agora capaz de ver mais claramente o mundo que a rodeia e de reduzir as coisas à sua real dimensão.

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