Livros

Dan Brown explica no CCB a religião do novo livro. Culpa da matrícula do carro da mãe e da matemática do pai

103

Dan Brown esteve pela primeira vez em Portugal para apresentar o seu último romance, "Origem". O Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB) esgotou para receber o escritor norte-americano.

Dan Brown já vendeu mais de 200 milhões de livros no mundo inteiro. Os seus livros estão traduzidos em mais de 50 línguas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dan Brown cresceu numa casa “esquizofrénica”. A mãe, uma cristã convicta, tocava órgão na igreja e era diretora do coro. Costumava levar o filho aos treinos de futebol numa carrinha Volvo, com a matrícula “KYRIE”, a transliteração latina da palavra grega para “Deus”. “Era a forma silenciosa de ela dizer que era cristã e que acreditava em Deus”, explicou o escritor, durante a apresentação do seu novo livro, Origem, este domingo. “Podem imaginar o que é que isto fez à minha juventude — ser levado para os treinos por uma mãe que tinha uma matrícula que dizia ‘Deus’.” O pai, professor e autor bestseller de manuais de matemática, tinha outras crenças — à mesa de jantar, depois de a mãe dar graças, preferia discutir secções cónicas ou ângulos. A matrícula do seu carro dizia “METRIC”.

De um lado a religião, do outro a ciência. Foi assim que Dan Brown cresceu. A casa da sua juventude era um lugar onde duas crenças aparentemente antagónicas convergiam, mas o escritor sempre pôde fazer todas as perguntas que queria — sobre matemática, sobre Deus ou sobre outra coisa qualquer. “Os meus pais nunca discutiram sobre as suas crenças. Fui muito feliz”, contou durante a sessão de apresentação, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. Foi só aos nove anos, quando se apercebeu que o que ouvia na igreja não era igual ao que ouvia nas aulas de Ciência, que se começou a afastar de Deus.

“Quando tinha nove anos, comecei a aperceber-me que estas duas visões do mundo tinham grandes contradições. A Bíblia dizia que Deus tinha criado o mundo em sete dias, mas na escola estava a aprender sobre o Big Bang.” Na igreja, tinha aprendido que Deus tinha criado o homem, a mulher e os animais mas, quando visitou o Museu de História Natural, viu fósseis de espécies há muito extintas. Quem é que tinha razão? “Perguntei a um padre. Ele disse-me que ‘os bons rapazes não fazem essas perguntas’. Então fiz o que todos os rapazes fazem quando lhes dizem para não fazerem uma coisa — comecei a fazer aquela pergunta.”

Dan Brown trouxe a antiga matrícula da sua mãe, com a palavra “KYRIE”, a transliteração latina da palavra grega para “Deus”. Durante a apresentação, o autor também mostrou a matrícula do carro do seu pai, com a palavra “METRIC”

É esta relação entre religião e ciência que aborda em muitos dos seus livros, mas mais aprofundadamente neste novo romance, Origem, publicado no início deste mês de outubro. Neste, Robert Landgon, o famoso simbologista que protagoniza cinco dos seus romances, vê-se envolvido numa trama que o leva a viajar por várias cidades espanholas — primeiro Bilbao, depois Sevilha, Barcelona e Madrid. Com 550 páginas, o enredo desenrola-se em apenas três dias, a uma velocidade alucinante. A pergunta central da obra é, talvez, tão controversa quanto a de O Código Da Vinci, editado em 2003 — pode Deus sobreviver à Ciência?

Foi O Código Da Vinci que tornou Dan Brown conhecido do grande público, apesar de a sua relação com a literatura ser muito mais antiga — escreveu e publicou o primeiro livro com apenas cinco anos, com a ajuda da mãe. “Eu ditei-o e ela transcreveu-o. Fizemos uma única cópia”, com uma capa feita de cartão e laçarotes vermelhos a segurar as páginas. Chamava-se A girafa, o porco e as calças que pegaram fogo e era, “naturalmente, um thriller”, contou entre risos, enquanto segurava esse primeiro e único exemplar. Seguiram-se outros — mais sérios –, como Anjos e Demónios, de 2000, o primeiro que tem Landgon como personagem principal.

Adorado por uns e odiado por outros, Brown tem sido alvo de fortes críticas por tocar constantemente num tema que muitos consideram ser demasiado delicado. Apesar de as reações negativas que recebeu por altura da publicação de O Código Da Vinci não terem surpreendido ninguém, o escritor admite que nunca pensou que o romance fosse tão mal recibo por alguns e que causasse tanta controvérsia. “Cresci numa casa onde podia fazer perguntas e escrevi um livro onde as personagens fazem uma pergunta importante.” O seu principal objetivo foi — e continua a ser — o de criar um diálogo. “É por isso que escrevo.”

“Quando penso no futuro, penso no papel que as religiões irão desempenhar”

Passaram mais de quatro anos desde que Dan Brown publicou Inferno, uma história misteriosa que voltou a colocar o seu protagonista, o simbologista Robert Landgon, numa intrigante aventura, desta vez pelas ruas de Florença. Em Origem, o último romance, a receita não é muito diferente — Landgon atira-se aos enigmas depois de um estranho evento no Museu Guggenheim, em Bilbao — a revelação de um descoberta que “mudará para sempre o rosto da ciência” e que põe em causa o futuro das religiões. Pela primeira vez desde que as obras de Brown começaram a ser editadas em Portugal, Origem chegou às livrarias portuguesas no mesmo período do lançamento mundial, no início de outubro. E, pela primeira vez desde a publicação de O Código Da Vinci, Brown passou por Portugal.

A sessão de apresentação do novo romance aconteceu durante a tarde deste domingo, no Grande Auditório do CCB, em Lisboa. Os fãs puderam reservar o seu lugar atempadamente através do site da Bertrand, editora responsável pela publicação das obras de Brown em Portugal, mas alguns dos bilhetes foram disponibilizados para serem levantados diretamente na bilheteira do CCB, a partir das 9h. Com uma lotação de cerca de 1.500 lugares, às 16h, uma hora antes do início do evento, já não havia lugares disponíveis. À porta do Grande Auditório, foi colado um papel que anunciava a “lotação esgotada”, para frustração de muitos fãs, ao mesmo tempo que uma longa fila de pessoas se prolongava até à entrada do Jardim Vasco da Gama. Todos queriam garantir um bom lugar.

A sessão de lançamento de Origem teve lotação esgotada. O Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, tem capacidade para cerca de 1.500 pessoas (plateia e camarotes)

Quando Dan Brown subiu ao palco, já depois das 17h, foi recebido com uma ensurdecedora salva de palmas. “Wow! Este sítio é lindíssimo!”, disse, enquanto caminhava em direção ao púlpito. “Obrigado por terem vindo. Está um dia bonito, podiam estar a fazer outra coisa qualquer”, disse. “Tenho a certeza de que nos vamos divertir muito.” Explicando que iria falar um pouco durante a primeira parte da apresentação, Brown deixou claro que, no final da sessão, iria haver espaço para algumas perguntas. Um dos seus principais objetivos para este domingo era criar um diálogo com o público e era exatamente isso que ia fazer.

Durante cerca de meia hora, o autor norte-americano contou um pouco da sua própria história e procurou apresentar alguns dos temas que aborda neste novo romance, explorando a relação da religião com a Ciência, num discurso muito semelhante (senão mesmo igual) ao que apresentou em 2015 na Web Summit, sob o tema “Will Science Kill God?” (“A Ciência Vai Matar Deus?”). Frisando que as religiões sempre tiveram uma “função muito importante”, apoiando os valores morais, e que essa é uma das razões pelas quais sempre se mantiveram tão consistentes, Brown afirmou que, por outro lado, “a Ciência mudou radicalmente ao longo do tempo”. “Está a avançar tão depressa que mal a conseguimos acompanhar.” Essa realidade faz com que, quando pensa no futuro, o autor questione “o papel que as religiões irão ter” porque não “há nada no nosso ADN que pré-determine as nossas crenças”.

“O mundo está a ficar cada vez mais pequeno e agora, mais do que nunca, há esta crença de que somos infalíveis. Para a sobrevivência da nossa espécie, é crucial que vivamos com uma mente aberta, que nos eduquemos, que façamos perguntas difíceis e que dialoguemos, principalmente com pessoas que não pensam como nós”, afirmou o autor norte-americano, no final da sua apresentação. “O que nos trouxe aqui, a este espaço, foram os livros, esses artefactos mágicos que atravessam barreiras. A todos vocês, que gostam de livros, muito obrigado.”

“Sempre pensei que um título maravilhoso seria The Sintra Cifra”

Antes da sessão de apresentação, a Bertrand deu a oportunidade aos fãs de enviarem algumas questões (por email e através do Facebook) que gostariam de ver respondidas pelo autor. A estas juntaram-se depois outras tantas, feitas pelos leitores da plateia do CCB. Uma delas estava relacionada com as adaptações cinematográficas, cujos finais não seguem os enredos dos livros. O escritor explicou que é difícil “tornar estes livros em filmes”. “Quando vejo o guião, geralmente choro!” Segundo Brown, se os finais fossem exatamente iguais, as adaptações teriam “dez horas”. Contudo, houve uma coisa que se manteve sempre fiel — “a pergunta central”.

Todos os romances de Dan Brown têm um país diferente como pano de fundo. Num vídeo de apresentação, exibido no início da sessão de apresentação, o escritor explicou que a escolha recai sempre sobre um país “com uma grande tradição histórica”, como França (no caso de O Código Da Vinci) ou Itália (no caso de Inferno). Relativamente a Origem, Brown escolheu Espanha por ter também um lado mais moderno e tecnológico, que lhe interessava para este romance. Além disso, é um país com o qual tem uma relação mais pessoal.

Além de ter vivo alguns anos em Espanha quando era mais novo, Brown passou um ano na Universidade de Sevilha, onde aprendeu a dançar como as sevilhanas. “Mas não vou dançar aqui!”, alertou, entre os risos da audiência. “Vivi com uma família de acolhimento maravilhosa, que me levou à Feira de Sevilha. Não sei como, mas alguém soube que este americano sabia dançar. E, de repente, dei por mim em cima de um palco do tamanho deste com uma mulher. Ela estava a fazer qualquer coisa à minha volta, e eu não sabia o que fazer! Felizmente não havia telemóveis naquela altura.” Além de ter aprendido danças sevilhanas, houve outra coisa que Brown usou para escrever Origem — as memórias do tempo que passou na cidade espanhola.

E para quando um livro sobre Portugal? A pergunta tinha de ser feita, e Dan Brown apressou-se a responder. “Sim, já pensei em escrever um livro passado em Portugal. É engraçado, sempre pensei que um título maravilhoso seria The Sintra Cifra.” Outra pergunta que não podia faltar diz respeito ao próximo livro. “Quem é que perguntou isso? Onde é que está? Levante-se!”, disse Brown em tom de brincadeira. Timidamente, uma mulher levantou-se no meio da audiência. “Tem filhos?”, perguntou o escritor. “Imagine que teve um filho há dez minutos. Está na cama do hospital, o seu marido entra e pergunta: ‘Querida, quando é que voltamos a fazer isto?’.” O livro saiu há pouco mais de uma semana, e a principal preocupação do escritor parece ser descansar. Depois, logo se vê.

O novo livro de Dan Brown, Origem, explora temas como a ciência, a tecnologia e a religião. Brown disse esperar que algumas das ideias que explora no romance possam vir a tornar-se verdade

“Robert Langdon não é tão corajoso nem tão fixe quanto o Indiana Jones”

Questionado pela audiência sobre se pensa que algumas das ideias que explora nos seus livros podem vir a tornar-se verdade, Brown disse que esperava que sim. “Origem é muito otimista”. Vivemos tempos estranhos, e há tecnologias que são muito perigosas. Nunca criámos uma tecnologia que não tornássemos numa arma. Quando olhamos para a tecnologia do futuro, seria ingénuo pensar que não terá um impacto negativo”, afirmou, acrescentado que, porém, “algumas dessas tecnologias irão resolver alguns dos grandes problemas do planeta, como a superpopulação ou a poluição”. Mas há uma coisa em que Dan Brown e os cientistas concordam — que “o futuro está a chegar mais depressa do que imaginámos”.

Relativamente às suas próprias crenças, Dan Brown admitiu, para a surpresa de alguns, que não é ateu, como muitos pensam, mas sim um agnóstico. “Digo de forma muito aberta e confiante que sou um trabalho em curso. É por isso que escrevo estes livros — para explorar estas ideias. Não acredito no Deus da minha infância mas, ao mesmo tempo, quando olho para uma sala como esta, cheia de pessoas, interligadas, cheias de ideias, é difícil não acreditar que não há qualquer coisa maior que faz com que isto aconteça. Não lhe vou dar um nome, mas vou continuar à procura.”

Sobre o porquê de, muitas vezes, as crenças de cada um mudarem ao longo dos anos, o escritor afirmou que isso acontece porque “aquilo que precisamos da religião muda quando crescemos”. “Quando tinha 11 anos, tinha uma amiga na Igreja que tinha Leucemia, a mesma doença que tinha a minha mãe. Ela tinha 11 anos e morreu. Fui ao velório, o padre levantou-se e disse que ‘isto faz parte do plano de Deus’. Eu, uma criança, pensei que era um plano horrível e não consegui perceber porque é que Deus o tinha. Foi aí que comecei a afastar-me da religião.”

Em relação a Robert Landgon, o simbologista e professor da Universidade de Harvard que protagoniza cinco dos seus romances, Dan Brown admitiu que este “não é tão corajoso nem tão fixe” quanto Indiana Jones, o famoso arqueólogo da série de filmes de Steven Spielberg. “Alguns dos meus heróis favoritos”, como o pai, o famoso professor de Matemática, “eram professores, então quis escrever um thriller com um herói que fosse um professor”. Apesar de também ter também ter dado aulas, o autor admitiu que não há assim tanto dele próprio na personagem. “O Langdon é o tipo que eu gostava de ser. Tem uma vida muito mais interessante, é mais corajoso e também mais inteligente. Houve alguém me disse uma vez que isso não era possível, porque o que ele diz sou eu que escrevo. Só que, quando alguém lhe pergunta sobre um determinado símbolo, ele fazer rapidamente uma descrição dele. Demorei três dias a escrever aquele momento.”

“A não ser que a religião evolua, vai extinguir-se”

Apesar de este novo romance poder vir a suscitar alguma polémica, tal como aconteceu com O Código Da Vinci, Brown afirmou que tem tido “boas reações”. “São livros de ficção que exploram ideias de que todos falamos. Não são doutrinas religiosas, são thrillers. É suposto serem livros divertidos que põem as pessoas a falar sobre coisas importantes”, disse já depois do final da apresentação pública, numa conversa com os jornalistas. “Isto não é nada de novo. Se falarmos nas Cruzadas, nos julgamentos de Salem, no meu país, o que está a acontecer hoje em dia não é nada de novo, é um tema recorrente. Não acho que o terrorimo tenha alguma coisa a ver com religião. A religião é uma desculpa para levar as pessoas a fazerem coisas más que não têm nada a ver com religião. As religiões são pacíficas.”

Dan Brown, sempre polémico nas suas opiniões relativamente à religião, revelou não ser ateu. Apesar disso, admitiu não acreditar que a religião “nos vá salvar”. “Nós é que precisamos de nos salvar”, afirmou

Questionado sobre se as religiões serão obrigadas a renovar o seu discurso, Dan Brown disse que acreditava que, “a não ser que a religião evolua, vai extinguir-se”. “Quando era pequeno, os meus milagres eram o nascimento de Jesus. Para as crianças de hoje, um milagre é o novo sistema operativo do iPhone. Se tentarmos convencer as crianças de que alguém foi ressuscitado, elas dizem ‘do que é que estás a falar?!’. Mas há muitas pessoas religiosas, e até a Igreja Católica, que dizem que Adão e Eva são mitos. A religião tem de ser assim. Temos de parar de dizer que as metáforas são factos”, afirmou, frisando que a religião tem de começar a fazer alguma coisa em relação ao “escrutínio irracional”. “Todos temos um código fundamental dentro de nós. Não preciso dos Dez Mandamentos para saber que não devo matar. Até uma criança, que vê um sapo na praia, sabe que não deve pisar o sapo. Sabemos que temos de proteger a vida”, disse ainda. “Não acho que a religião nos vá salvar — acho que nós é que precisamos de nos salvar.” ;

Sobre o desenvolvimento da inteligência artificial e o papel que esta irá desempenhar no futuro, Brown afirmou que “já estamos ligados a computador”. “Toda a gente aqui tem um pequeno computador no bolso. Não é preciso muito para imaginar que, em breve, não vai ser preciso andar com eles — eles vão estar integrados no nosso corpo de alguma forma.” Mas será que isso é mau? “Não sei. Acho que não é qualquer coisa à qual possamos resistir, queremos sempre a coisa maior no que diz respeito à tecnologia. Espero apenas que a nossa moralidade cresça ao mesmo tempo que a nossa tecnologia.”

Texto de Rita Cipriano, fotografia de João Porfírio.
Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: rcipriano@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site