Rússia

Russos viram “House of Cards” para aprender a influenciar americanos

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Funcionários russos de uma empresa encarregue de influenciar as eleições presidenciais eram obrigados a ver a popular série do Netflix para compreenderem como funciona o sistema político americano.

Frank Underwood é a personagem principal de "House of Cards"

David Giesbrecht/Netflix/Sony Pictures Television

Os funcionários da empresa russa Internet Research Agency (também conhecida por “troll factory”), que tinha como objetivo influenciar as eleições norte-americanas, eram obrigados a ver a série “House of Cards” para compreenderem como funciona o sistema político americano e conseguirem “pôr os americanos contra o seu próprio governo”.

Quem o diz é um desses funcionários, que trabalhava no departamento de língua inglesa dessa empresa e que deu uma entrevista ao canal de televisão independente russo Rain.

Segundo Maksim, nome pelo qual o indivíduo se identificou, havia toda uma “estratégia” para compreender a fundo o modo de funcionamento do sistema político americano e isso passava por, numa primeira fase, serem “obrigados a ver ‘House of Cards’ em inglês”.

“Era preciso conhecer todos os principais problemas dos Estados Unidos: problemas com impostos, o problema dos gays, minorias sexuais, armas”, afirmou o funcionário russo, citado pelo Yahoo News.

A série da Netflix conta a história do congressista Frank Underwood (interpretado por Kevin Spacey) até à Casa Branca. Uma subida ao poder feita de acordos corruptos, criação de histórias falsas sobre oponentes políticos e até os homicídios de um outro congressista e de uma jornalista.

Maksim, que trabalhou para a empresa em 2015, revelou ainda outros mecanismos utilizados pela “troll factory” para influenciar os norte-americanos nas eleições de 2016. Um deles passava por fazer “comentários” em artigos dos jornais New York Times e Washington Post, fazendo-se passar por americanos, de modo a provocar uma discussão.

“Era necessário olhar para todos eles [comentários] e perceber a tendência geral, sobre o que as pessoas estavam a escrever, o que estavam a debater. E depois começar uma discussão para atiçar.”

O objetivo? Denegrir a imagem de Hillary Clinton, recordando episódios escandalosos do ex-presidente Bill Clinton, chamar a atenção para a sua saúde e para a utilização do seu email pessoal para tratar de assuntos governamentais.

“A principal mensagem era: irmãos americanos, não estão fartos dos Clinton?”, sublinhou o russo.

Mas havia outro temas que estes funcionários tinham de abordar nos comentários dos artigos, como armas e homossexualidade. “Quando o tema era gays, quase sempre tínhamos de falar de questões religiosas. Os americanos são muito religiosos, especialmente aqueles que fazem comentários nos sites de notícias. Tínhamos que escrever a sodomia é pecado. Isso gerava sempre uma dúzia de likes.” Sim, porque estes funcionários eram avaliados consoante os likes que recebiam por comentário.

O departamento de língua inglesa tinha ainda uma tarefa mais específica: incutir um certo descontentamento face à administração Obama. “Tínhamos como objetivo pôr os americanos contra o seu próprio governo. Causar desconforto, descontentamento e baixar o índice de popularidade de Obama”, acrescentou Maksim.

O funcionário explicou ainda que todos tinham de usar uma VPN (rede privada virtual) para quando fizessem os comentários para não se saber que eram provenientes da Rússia. Aliás, nenhum dos comentários que faziam podia conter quaisquer referências à Rússia e ao seu presidente.

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