Cinema

Doclisboa 2017: 11 filmes para 11 dias de festival

Eurico de Barros escolheu 11 filmes muito variados e todos a não perder, de entre os muitos que vão passar nos onze dias do 15.º Doclisboa. O festival começa no dia 19 e prolonga-se até ao dia 29.

Autor
  • Eurico de Barros

A 15ª edição do Doclisboa vai trazer mais uma vez à capital, entre os dias 19 e 29, o que de melhor se faz no documentarismo mundial, distribuído pelas habituais secções competitivas e de exibição, do documentário de actualidade, de intervenção, experimental e do “eu”, até às ficções de maior ou menor preponderância documental e aos formatos híbridos. As retrospectivas desta ano são dedicadas ao cinema do Quebeque (Uma Outra América — O Singular Cinema do Quebeque) e à realizadora checa Vera Chytilová, que morreu em 2014, nome central e grande rebelde da Nova Vaga do cinema do seu país sob o comunismo, que a censurou e chegou a proibir de filmar durante alguns anos. Sharon Lockhart é a artista convidada da secção Passagens, trazendo o seu último filme, “Rudzienko” e outro por si programado, “Children Must Laugh”, de Aleksander Ford, e apresentando uma exposição com curadoria de Pedro Lapa, composta por fotografias, obras noutros suportes e mais dois títulos seus. Os filmes passam na Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca, Cinema Ideal, Museu Berardo e Museu do Oriente. De entre a vasta programação deste 15º Doclisboa, seleccionámos 11 filmes, um por cada dia do festival.

“Ramiro”

de Manuel Mozos

O Doclisboa 2017 abre com uma ficção. E é assinada por um realizador português, Manuel Mozos, que se tem dividido entre o documentário (“Olhar o Cinema Português: 1896-2006”, “Ruínas”) e as ficções (“Xavier”, “… Quando Troveja”) e conta nesta comédia, escrita por Telmo Churro e Mariana Ricardo, colaboradores de Miguel Gomes, a história de Ramiro, um alfarrabista lisboeta e poeta em bloqueio criativo permanente, que passa os dias entre a sua loja e uma tasca, na companhia do cão. (Dia 19, Culturgest, 21h30)

“Quem é Bárbara Virgínia?”

de Luísa Sequeira

Um documentário sobre a primeira mulher a realizar um filme em Portugal, Bárbara Virgínia (nome artístico da actriz, locutora de rádio e declamadora Maria de Lourdes Dias Costa), com “Três Dias Sem Deus”, em 1946, que passou nesse ano no Festival de Cannes, a par de “Camões”, de Leitão de Barros. Foi o único filme da realizadora, do qual restam apenas 26 minutos sem som, que também serão exibidos nesta sessão, tal como a curta documental “Aldeia dos Rapazes”. Bárbara Virgínia foi para o Brasil nos anos 50, onde morreu, em 2015, aos 92 anos. (Dia 25, São Jorge-Sala Manoel de Oliveira, 18h45/Dia 29, Culturgest, 14h00)

“Jovens e Atrevidas”

de Vera Chytilová

O filme mais emblemático da radical e iconoclasta realizadora da Nova Vaga checa, a quem o Doclisboa 2017 dedica uma das suas retrospectivas deste ano (a outra é sobre o cinema do Quebeque). Destemida contestatária do regime comunista do seu país, com filmes que foram insistentemente censurados e levaram a que fosse proibida de realizar entre 1969 e 1976, Vera Chytilová (1929-2014) põe aqui em cena duas raparigas que se envolvem numa sucessão de situações destruidoras do mundo em seu redor. Também formalmente audaz, “Jovens e Atrevidas” revela o interesse de Chtytilová pelos problemas da condição feminina, uma constante da sua obra, mesmo depois do fim do comunismo a Leste. (Dia 21, São Jorge-Sala 3, 21h30/Dia 27, Culturgest, 16h15)

“Le Film de Bazin”

de Pierre Hébert

Em 1958, ano da sua morte, o crítico e teórico do cinema André Bazin, co-fundador dos “Cahiers du Cinéma”, começou a trabalhar num documentário sobre as igrejas românicas da região francesa de Saintonge, hoje parte do departamento da Charante-Maritime, que o fascinavam particularmente. O realizador canadiano Pierre Hébert pegou nas notas, nas fotografias e no guião deixados por Bazin e fez este filme, que é uma reflexão-ensaio sobre as ruínas, a passagem do tempo e a morte de André Bazin. (Dia 20, Culturgest, 14h00/Dia 23, São Jorge 3, 16h30)

“Bitter Money”

de Wang Bing

Grande cronista das profundas modificações económicas, sociais e culturais que têm afectado a China e os chineses nos últimos anos, Wang Bing segue aqui três jovens que deixam a sua terra natal pela primeira vez para irem trabalhar em Huzhou, uma das cidades com maior e mais rápido desenvolvimento económico no país, e a crescer desmesuradamente. Só que o trabalho é precário e as condições de vida são promíscuas e más, o que leva ao aparecimento de tensões entre as pessoas e à degradação das relações entre os casais, que podem levar a situações de confronto e violência. O dinheiro ganho em Huzhou só pode ser amargo. (Dia 20, Museu do Oriente, 17.00/Dia 29, São Jorge-Sala Manoel de Oliveira, 18.45)

“Risk”

de Laura Poitras

A oscarizada realizadora de “Citizenfour”, sobre Edward Snowden, vira-se agora para a figura de Julian Assange, o fundador do WikiLeaks. “Risk” foi rodado ao longo de seis anos e durante esse tempo, Poitras mudou de opinião sobre Assange e as suas motivações, o que a levou a remontar o documentário. Em 2016, “Risk” teve uma versão simpática para com aquele, e em 2017, uma outra, mais distanciada do biografado. A realizadora foi muito criticada por se ter envolvido sentimentalmente com o jornalista, “hacker” e especialista em segurança informática Jacob Appelbaum, amigo de Assange e colaborador da WikiLeaks, de quem se viria a separar, lamentando depois tal relação. “Risk” é também um filme sobre a ética do documentarista e os perigos de se tornar parte da história que está a contar. (Dia 19, Cinema Ideal, 20.00/Dia 20, Culturgest, 19.00)

“Ex Libris-The New York Public Library”

de Frederick Wiseman

Aos 87 anos, o mestre do documentarismo americano não dá sinais de querer reformar-se. Em “Ex Libris-The New York Public Library”, Frederick Wiseman pegou na câmara e foi percorrer longamente as instalações dessa instituição nacional que é a Biblioteca Pública de Nova Iorque, filmando corredores, salas de leitura, arquivos, reuniões de directores e responsáveis pela gestão, conferências e debates, ouvindo leitores e funcionários, visitando dependências e testemunhando como é que a NYPL se está a adaptar á idade do digital. (Dia 19, São Jorge-Sala Manoel de Oliveira, 22.00/Dia 23, São Jorge-Sala 3, 16.30)

“Becoming Cary Grant”

de Mark Kidel

Um retrato biográfico de Cary Grant, aliás Archibald Leach, nascido pobre em Bristol e que, transplantado dos palcos do “vaudeville” ingleses para Hollywood nos anos 30, se transformou numa estrela de primeira grandeza, vedeta de comédias “screwball” e de filmes de Alfred Hitchcock e modelo consumado do “gentleman” sofisticadamente “british”. Este documentário de Mark Kidel, baseado nas memórias nunca publicadas do actor, pretende mostrar a verdadeira identidade do homem que disse certa vez: “Toda a gente quer ser Cary Grant. Até eu quero ser Cary Grant”. (Dia 21, Culturgest, 21.30/Dia 28, Culturgest, 17.00)

“Whitney: Can I Be Me”

de Nick Broomfield e Rudi Dolezal

Realizador de documentários pouco bem-comportados e habitualmente muito controversos como “Kurt & Courtney”, “Batalha por Haditha” ou “Biggie and Tupac”, o inglês Nick Broomfield, aqui acompanhado pelo austríaco Rudi Dolezal, parte da morte da cantora Whitney Houston, a 11 de Fevereiro de 2012, para contar a história da sua ascensão ao sucesso e das suas relações com familiares e amigos, tentando também mostrar como e porquê Houston começou a tomar drogas e nunca conseguiu libertar-se delas — um vício acabou por lhe ser fatal. (dia 22, Culturgest, 16h15)

“The Prince of Nothingwood”

de Sonia Kronlund

Chama-se Salim Shaheen, é afegão e o mais prolífero e popular produtor, realizador e actor de filmes de série Z do Afeganistão – e talvez mesmo de todo o mundo –, descrito como um cruzamento de Gérard Depardieu e de Steven Seagal (sem esquecer Ed Wood). A jornalista e realizadora francesa Sonia Kronlund foi ao encontro desta personagem única, quando Shaheen se preparava para rodar o seu 111.º filme (de acção, claro) a 100 quilómetros de Cabul, com alguns amigos (vários deles veteranos de guerra como o próprio realizador), uma câmara de vídeo e um punhado de armas e munições. (Dia 27, São Jorge 3, 22.00/Dia 28, Cinema Ideal, 00.00)

“Era uma Vez Brasília”

de Adirley Queirós

O Doclisboa 2017 abre com uma ficção realizada por um português e fecha com uma ficção realizada por um brasileiro. Em 1959, o agente intergaláctico WA4 é encarregue de vir para a Terra e matar o Presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, no dia da inauguração de Brasília. Mas a nave perde-se no tempo e WA4 aterra no Brasil de 2016, no meio da tensão política e social do processo de “impeachment” de Dilma Rousseff. Adirley Queirós regressa ao Doclisboa com uma fita em que recorre a um cenário de ficção científica para expressar os seus sentimentos sobre a situação vivida no Brasil. (Dia 28, Culturgest, 21.00)

Toda a programação do Doclisboa aqui.

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