Livros

João Pinto Coelho: “Ainda há muito para descobrir sobre a historia da Segunda Guerra Mundial”

441

O Prémio Leya 2017 foi atribuído a "Os loucos da rua Mazur", de João Pinto Coelho, um romance livro dá a conhecer um lado diferente da Segunda Guerra Mundial. "Foi uma sensação ótima", admite o autor.

João Pinto Coelho já tinha sido finalista do Prémio Leya, com o romance "Perguntem a Sarah Gross"

© Leya

Os loucos da rua Mazur, de João Pinto Coelho é o vencedor do Prémio Leya 2017, anunciou Manuel Alegre, presidente do júri, ao final da manhã desta sexta-feira na sede do grupo editorial, em Alfragide. Coelho já tinha sido finalista do galardão em 2014, com o romance Perguntem a Sarah Gross, publicado posteriormente pela editora D. Quixote.

Passado em dois tempos distintos — por altura da Segunda Guerra Mundial, na Polónia, e na atualidade, Os loucos da rua Mazur é um romance “bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção do leitor, quer pelo tema quer pela construção em tempos paralelos, um no passado imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial e no início desta, e o outro no mundo atual”, afirmou Manuel Alegre. “Não cedo ao facilitismo do romance histórico, embora a história seja parte da ação e nos apresente uma visão inédita da tragédia resultante das invasões russa e nazi da Polónia.”

Segundo o presidente do júri, “as qualidades de efabulação e verosimilhança em episódios de violência brutal com motivações ideológico-políticas e étnico-religiosas, emergindo de uma convivência comunitária multissecular” foram as mais apreciadas pelos jurados. “De igual modo, o júri valorizou a criação de personagens com densa singularidade existencial, no triângulo perturbador de amizade e conflito amoroso dos protagonistas, tal como de figuras secundárias com valor simbólico“. Para o júri, é ainda “de salientar a força humana de um protagonista, o velho livreiro cego, que irá ficar como uma figura inesquecível da nossa ficção mais recente”.

Manuel Alegre salientou ainda que Os loucos da rua Mazur foi premiado “pela sua qualidade literária e também pela sua singularidade”, uma vez que retrata a violência cometida numa “pequena comunidade da Polónia”. Ao contrário de outras obras sobre a Segunda Guerra Mundial, o romance de João Pinto Coelho fala “da crueldade cometida pela comunidade sobre a própria comunidade”. “É uma das comunidades que extermina outra, não se passa em Auschwitz”, frisou ainda o presidente do júri do Prémio Leya.

O presidente executivo da Leya, Isaías Gomes Teixeira, também presente no anúncio desta sexta-feira, disse que o grupo editorial “está muito contente” com o vencedor, “uma vez que já foi finalista há três anos com um livro Perguntem a Sarah Gross” um livro que foi “não só um sucesso de crítica, mas um sucesso comercial”. “É uma alegria ver o João Pinto coelho a escrever um livro que entusiasma o júri”, acrescentou Isaías Gomes Teixeira.

Um livro sobre a “universalidade do mal e não sobre a sua banalidade”

Foi o próprio Manuel Alegre que deu a grande notícia a João Pinto Coelho. “A reação foi de grande contentamento”, confessou o presidente do júri do Prémio Leya, durante o anúncio desta sexta-feira. “O contentamento sentia-se, embora sem a exuberância de alguns vencedores anteriores.” Ao Observador, o autor admitiu que “foi uma sensação ótima, porque nunca estamos verdadeiramente à espera”. “Claro que temos sempre aquela sensação de que pode acontecer, mas é muito bom.” Além de se tratar de “um reconhecimento prévio” por parte de júri respeitado, o galardão dará também “outra visibilidade ao livro”. “Um prémio como este é sempre importante, principalmente para um autor que não é conhecido”, admitiu ainda.

João Pinto Coelho pode não ser conhecido, mas já não é novo nestas andanças. O primeiro romance, Perguntem a Sarah Gross, foi editado pela D. Quixote em 2015, depois de ter sido finalista do Prémio Leya no ano anterior. A história — sobre uma mulher carismática e misteriosa que dirige o colégio mais elitista da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos da América — remete para um tema a que Coelho tem dedicado os últimos 30 anos da sua vida — a perseguição dos judeus na Segunda Guerra Mundial.

Nascido em 1967, em Londres, e licenciado em Arquitetura, em 2009 e 2011, Coelho integrou duas ações do Conselho Europa que tiveram lugar em Oświęcim, onde ficava o campo de concentração de Auschwitz, o que lhe permitiu trabalhar de perto com diversos investigadores do Holocausto. Foi durante este período, que concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou vários jovens portugueses e polacos, e que teve a ideia para o seu primeiro livro. Mas houve qualquer coisa que ficou por contar e, por essa razão, João Pinto Coelho decidiu voltar ao mesmo tema em Os loucos da rua Mazur.

“Quando acabei o livro, que se centrava mais no Holocausto propriamente dito, o processo feito pelos alemães, deixei ficar um bocadinho a ideia de que [aquilo] só aconteceu o com os alemães. Este livro é escrito com as entrelinhas do primeiro”, explicou ao Observador. “Este livro fala-nos dos outros atores, os bons cristãos da Polónia, que conviveram durante séculos com os seus vizinhos judeus e que, num determinado contexto, decidiram praticar o mal da forma mais terrível. Aquilo era uma improbabilidade, mas aconteceu mesmo.”

Os loucos da rua Mazur é, nesse sentido, um complemento do primeiro romance do autor. “Fala-nos da universalidade do mal, não da sua banalidade” e de uma parte da história que, muitas vezes, fica por contar, e que permanece “muitíssimo” atual. “Na Polónia, está hoje a causar um debate muito aceso, até com a própria intervenção política, que está a tentar reescrever a história. Tem a ver com a memória coletiva.” Além disso mostra que, aqueles que foram vítimas, também foram capazes de praticar “atos terríveis”. E não só na Polónia. “É uma parte importante da história e deve ser falada porque aconteceu, e não só num sítio. É importante que as pessoas saibam.”

Quando lhe perguntamos como é que vizinhos foram capaz de se virar contra vizinhos, João Pinto Coelho diz que não tem uma resposta. “Tudo o que aconteceu durante o Holocausto e nestes casos paralelos, é o que me tem mantido preso à historia deste processo terrível de perseguição dos judeus no século XX. Quanto mais procuro perceber, mais interrogações reúno, e isso resulta nesse fascínio de tentar cada vez mais perceber o que aconteceu.” Passado todo este tempo, Coelho admite que o que se passou durante a Segunda Guerra Mundial é algo que ainda o surpreendo. “Ainda hoje esbarro com histórias que me surpreendem”, afirmou. “Ainda há muito para descobrir sobre a historia da Segunda Guerra Mundial.”

Júri recomenda publicação de O Testamento de José de Nazaré, de Ivan José de Azevedo Fontes

Além do prémio atribuído a João Pinto Coelho, o júri do Prémio Leya recomenda ainda a publicação de O Testamento de José de Nazaré, o brasileiro Ivan José de Azevedo Fontes. Segundo o júri, “o livro traz à cena uma prensagem obscura na tradição cristã, pela sua própria voz”. “Apresenta um José trabalhador, insubmisso e solidário, dividido entre o seu inconformismo e o seu amor por Maria e pela sua família, entre a paz e a revolta. A simplicidade de linguagem traduz uma refinada estratégia no processo de construção narrativa.”

À edição de 2017 do Prémio Leya, concorreram 400 originais, provenientes de 18 países, como Brasil, Alemanha ou Suíça. João Pinto Coelho foi escolhido de entre os cinco finalistas pelo júri, constituído por Manuel Alegre (Presidente), os escritores Nuno Júdice, Pepetela e José Castello, José Carlos Seabra Pereira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Lourenço do Rosário, Reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, e ainda Rita Chaves, professora da Universidade de São Paulo.

O Prémio Leya, no valor de 100 mil euros, foi criado em 2008 com o objetivo de distinguir um romance inédito escrito em português. É o maior prémio para uma obra não publicada em língua portuguesa. Coro dos Defuntos, de António Tavares, foi o último romance a ser galardoado, em 2015. No ano seguinte, o prémio não foi atribuído, depois de apenas um romance ter sido “submetido à apreciação final” dos jurados, explicou na altura o júri em comunicado.

Esta não foi a primeira vez que o júri decidiu não atribuir o prémio. Em 2010, foi decidido que, “perante originais que” se apresentavam “prejudicados por limitações na composição narrativa e por fragilidades estilísticas”, o galardão não seria entregue a nenhum escritor. “As obras a concurso não correspondem à importância e ao prestígio do Prémio Leya no âmbito das literaturas de língua portuguesa.”

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: rcipriano@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site