Cinema

E se o verão de uma aldeia portuguesa guardasse todos os sonhos do mundo?

Entrevistámos Laurence Ferreira Barbosa, a realizadora de "Todos os Sonhos do Mundo", um filme que acompanha as angústias adolescentes de uma filha de emigrantes portugueses em França.

Autor
  • André Almeida Santos
Mais sobre

Paméla (Paméla Constantino Ramos) é uma adolescente a entrar na idade adulta. Pouco a distingue de outros adolescentes, está a iniciar um processo de decisão: se continua os estudos ou se começa a trabalhar, de forma a ganhar dinheiro e ajudar a família. Sente que a sua indecisão é um peso para a família e não quer que assim seja. O que a distingue é o meio onde se insere — é filha de emigrantes portugueses em França e Laurence Ferreira Barbosa usa esse fator como motor para contar o coming of age de uma adolescente.

Esse elemento, ser filha de quem é e, por associação, os comportamentos das comunidades emigrantes portuguesas, são o sumo para contar não só a sua história mas também a da realidade desses emigrantes: quando estão fora de Portugal e quando o visitam. “Todos os Sonhos do Mundo”, rodado entre França e Portugal (Alturas do Barroso) fala também de um país imaginado, aquele que os emigrantes deixam e que não querem que mude, e, consequentemente, aquele que os seus filhos veem e conhecem quando visitam a sua aldeia nas férias do verão.

[o trailer de “Todos os Sonhos do Mundo”]

Na primeira cena de “Todos Os Sonhos do Mundo” começa por evidenciar que o Portugal que os filhos de emigrantes portugueses conhecem é, normalmente, a aldeia dos seus pais.
Sim, mas creio que existe uma evolução atualmente. Os filhos, quando vêm com os pais, não querem ficar o mês inteiro na aldeia. Querem viajar por Portugal, ir ao Algarve, penso que sobretudo querem ir ao Algarve. É uma mudança de comportamento.

E é recente?
Não tenho a certeza do quão recente é, mas antigamente eles iam para a aldeia e ficavam lá o mês inteiro, dificilmente iam a qualquer outro sítio. Agora consigo ver uma evolução. Os filhos não querem estar tanto tempo na aldeia, querem viajar e ver o resto de Portugal. É uma mudança de mentalidades. Quando os emigrantes regressam à aldeia, todos os anos, é sempre a mesma coisa. Eles gostam de reencontrar a aldeia, gostam que sejam tudo igual, que não haja uma mudança, algo de diferente. E os filhos não gostam tanto disso.

E os pais querem encontrar isso porque é um reflexo do Portugal que deixaram.
Sim, claro. Quando os emigrantes partem de Portugal, da sua aldeia, é doloroso, é um grande sofrimento. É difícil deixares o teu país e quando eles regressam nas férias, esperam encontrar a aldeia exatamente como estava quando se foram embora. Torna-se num ritual, todos os anos fazem a mesma coisa, e quando regressam querem que seja tudo igual. Contudo, os comportamentos mudam com as gerações e os filhos deles não querem só isso, ficar só na aldeia. Penso que é uma grande alteração de comportamento em relação aos pais.

É por isso que coloca aquele banco amarelo à frente da casa?
Exatamente, para explicar esse sentimento, como a mudança pode afetar: o que é que este banco está a fazer aqui?

E porque é que o pai [António Torres Lima] dá aquela volta à aldeia quando chega?
Quer confirmar que nada mudou, claro!

Voltando à primeira cena. Refere Lisboa e explora o facto de os filhos conhecerem Portugal, a sua aldeia, mas não conhecerem Lisboa, a capital. E isso acaba por ser uma ideia que se instala na Paméla.
Isso é uma realidade. E os filhos dos emigrantes, nessa cena, não estão interessados em vir. Claro que é uma generalidade, claro que há muitos que querem visitar e conhecer Lisboa, mas, para eles, vir a Portugal é sobretudo visitar a aldeia, para ver a família. Mas isso está a mudar, como disse. No imaginário, Portugal continua a ser aquela vila, aquela aldeia, é o lugar afetivo, onde está a família, os avós, onde passam férias. E não há Lisboa nem o resto de Portugal. Quando a mulher pergunta se querem visitar Lisboa, conhecer a capital, os jovens não estão muito interessados. A Paméla está mas diz que não, porque não tem dinheiro. Vir a Lisboa, para ela, torna-se numa espécie de metáfora da sua emancipação.

É uma forma de matar o pai.
Exato.

E há as constantes sugestões ao longo do filme de que, para os filhos, Portugal não evolui.
Sim, mas é claro que Portugal está a evoluir. Só que na realidade que represento, o norte de Portugal, que é a zona de origem da maioria dos emigrantes em França, a mentalidade é muito fechada, são conservadores, querem, como disse, encontrar a aldeia sempre igual. E é este mundo que não evolui muito, essa conceção que têm da terra dos pais. E é sempre igual, no verão, as aldeias enchem-se das mesmas pessoas que vêm visitar a sua aldeia, há a festa, que também é sempre igual. É como se o tempo não passasse.

A Paméla tem muita responsabilidade sobre ela. Procura um trabalho, quer mudar a sua vida, tentar ajudar a família. Fiquei com a ideia de que ela está sempre à procura de algo que a faça sentir responsável.
Ela está a conhecer a responsabilidade de se tornar adulta. E ela quer ser adulta. Ela faz as coisas no sentido de se libertar dos pais, sair da alçada deles. Está a passar por uma mudança e quer fazer coisas transgressoras. Porque ela sente-se numa espécie de prisão.

E é uma personagem isolada naquele mundo. Tem amigos, mas eles não preenchem o vazio que sente.
Quando ela vem para Portugal com os pais ela pensa que as coisas se vão resolver, que vai estar tudo bem, que não haverá problemas. Porque costuma sentir-se bem em Portugal. Só que ela não reencontra esse bem-estar, há uma rutura com o passado e com a sua imaginação, sentimentos. E ela também já não está interessada no que os seus amigos fazem e naquilo que encontra. Está a sair da adolescência, a tornar-se adulta, e há uma magia, um encanto, que desapareceu.

E porque decidiu contar uma história em volta da comunidade emigrante portuguesa?
A comunidade portuguesa é muito importante em França, só que eles são muito discretos. São pouco representados nos filmes de ficção. E não se exprimem muito no espaço público francês, são muito discretos, quase invisíveis. Estão bem integrados só que ao mesmo tempo vivem num mundo muito fechado. Achei interessante ir ter com eles e tentar compreendê-los. Estava muito curiosa.

E a que se deve a escolha de Alturas do Barroso?
Quis fazer o filme no norte de Portugal porque os emigrantes são, na sua maioria, do norte. E conhecia aquela zona, porque trabalhei no documentário “Volta à Terra” [João Pedro Plácido, 2014] e gostei muito do que vi: das paisagens, das montanhas. E queria filmar ali. Vi muitas aldeias, fiz muita repérage e decidi escolher esta porque era grande e ideal para o filme. Mas não a conhecia.

E como foi a recepção quando mostrou às pessoas da aldeia o seu filme em agosto?
Gostei muito de ter a oportunidade de lhes mostrar o filme, porque tinha prometido regressar. Mas não me disseram se gostaram ou não, creio que isso não é um hábito deles. Não sei o que pensam do filme, não creio que seja importante. Mas notei que ficaram contentes.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site