Cinema

“Thor: Ragnarok”: o fim do mundo com Thor desarmado e tosquiado

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O novo filme com o super-herói da mitologia nórdica tem bastante sentido de humor, auto-gozo e irreverência, embora quando toque a reunir, seja mais do mesmo. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

O que é que está a fazer um discreto realizador e actor neozelandês chamado Taika Waititi, mais conhecido pelos seus filmezinhos “indie” (“Eagle vs Shark”, “O Que Fazemos nas Sombras”) e frequentador habitual de festivais da especialidade como Sundance, ao leme de um colosso de estúdio como “Thor: Ragnarok”, o terceiro título da série da Marvel dedicado ao Deus do Trovão da mitologia nórdica? A resposta encontra-se no filme em si. Waititi está a injectar sentido de humor, comédia e auto-irrisão, num género que prima pela solenidade banhuda e pela auto-importância oca. Por isso é que em “Thor: Ragnarok”, o Thor de Chris Hemsworth perde rapidamente o seu fiel martelo mágico e os seus longos cabelos louros, Hulk perde a memória e é Loki que tem que dar uma ajuda para salvar o dia. Já não há respeito por nada. Thor até faz má figura numa breve visita ao Dr. Strange, partindo-lhe inadvertidamente uma série de bibelôs de colecção.

[Veja o “trailer” de “Thor: Ragnarok”]

O realizador puxou “Thor: Ragnarok” para a banda de “Guardiões da Galáxia”, reservando para si o papel de um alienígena feito de calhaus e engraçadinho chamado Korg, que não estaria deslocado num filme desta série. E há alturas na fita em que o ambiente é de uma tal galhofa, que quase diríamos que por trás deste “Thor: Ragnarok” está Judd Apatow em vez dos homens da Marvel e que a acção se passa no equivalente fantástico e de super-heróis de uma república universitária ou um círculo de amigos “hipsters” alarves. Até mesmo Stan Lee participa na pangaiada, fazendo uma aparição-relâmpago na figura de um caquético barbeiro cósmico que corta a épica trunfa a Thor. E o ridículo tirano Grandmaster de Jeff Goldblum, que tem um sentido de estilo semelhante ao de Manuel Luís Goucha, podia muito bem ter sido interpretado por um actor do “clube” de Apatow, como Steve Carell ou Paul Rudd.

[Veja a entrevista com o realizador Taika Waititi]

Não é propriamente o ambiente em que deveria rebentar o apocalipse regenerador da mitologia nórdica, o Ragnarok do título. Mas é o que acontece no filme, por culpa de Cate Blanchett, que interpreta a pérfida Hela, a Deusa da Morte, irmã primogénita de Loki e Thor, toda ela poder, ressentimento, destruição e humor cínico, revestida a couro negro como uma dominadora sadomasoquista e exibindo na cabeça uma armação de fazer inveja a um alce do Alasca. Com Odin (Anthony Hopkins) reformado e Thor, Loki e Hulk fora de combate nos confins da galáxia, Hela toma conta de uma Asgard etnicamente correcta até mais não e começa a fazer estragos.

[Veja a entrevista com Chris Hemsworth]

Mesmo com toda esta irreverência, com rajadas de piadas e “gags” e um tom de gozo interno, quando toca a reunir, “Thor: Ragnarok” acaba por ser mais do mesmo dos filmes de super-heróis e fornecer ao espectador o que ele está à espera. Uma história de um absurdo indescritível que entra por território de “Guerra das Estrelas” e “O Senhor dos Anéis”, ribombantes e atarefadíssimas sequências de ultraviolência e destruição, encharcadas em efeitos especiais e que parecem um megajogo de vídeo em IMAX e 3D, metendo ao barulho lobos tamanho XXL, mercenários extraterrestres ou uma valquíria prima de Barack Obama. Mais do que Ragnarok, isto é Ragnarok n’ Roll.

[Veja a entrevista com Cate Blanchett]

O final, em aberto, está claro, e que podia ser de uma fita da série “Star Trek”, anuncia um quarto capítulo das aventuras do Deus do Trovão para um futuro próximo. Tudo considerado e citando o imortal Nelson Rodrigues, “Thor: Ragnarok” é reservado aos fãs de babar na gravata e com carteirinha de sócios dos filmes de super-heróis.

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