Perfumes

Rosa & Teixeira: a alfaiataria centenária que agora também tem um perfume

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É o último bastião do luxo made in Portugal na avenida da Liberdade. Depois de 102 anos a fazer fatos apenas com a magia da mão humana eis que a marca cria "Sonho", um perfume à medida da sua história

Autor
  • Joana Emídio Marques

É uma das últimas alfaiatarias totalmente artesanais de Lisboa, uma das pouquíssimas que não substituiu a magia da mão humana por máquinas. Na artéria mais cara do país, a avenida da Liberdade, hoje quase totalmente tomada por marcas internacionais, a Rosa & Teixeira é o último bastião do luxo feito em Portugal. Depois de 102 anos a fazer fatos masculinos de alta costura, de ter construido uma reputação que já transpôs as fronteiras nacionais, de ter vestido homens de estado, embaixadores, empresários, homens conservadores, homens arrojados e até hipsters cofiando as barbas, eis que chegou o tempo de complementar a materialidade dos tecidos e a arquitetura dos fatos com a imaterialidade de um perfume. “Sonho” foi lançado no passado dia 11 e o desafio é que os clientes partilhem a memória de um Portugal telúrico, estival, de campos cobertos de marmeleiros, de céu e de Sul.

O perfume que nasceu da decantação das memórias de José João Castro, o proprietário da marca desde o início dos anos 80, memórias de tardes amenas, da infância à sombra de marmeleiros, quando todo o absoluto vinha da terra e dos seus mistérios. A fusão de memórias, sonhos, de passado e futuro deu origem a um perfume também ele ameno, que sendo destinado ao público masculino é igualmente perfeito para o público feminino, com as suas notas frutadas mas cheias de subtilezas sensoriais próprias de uma idade do outro quando os homens e os deuses viviam em harmonia.

Sonho é o primeiro eau de perfum da marca Rosa&Teixeira e custa entre 65 e 100 euros

De resto, a alfaiataria e loja Rosa & Teixeira é um repositório curioso de vários tempos e lugares e é um bom exemplo de como a história humana não é retilínea, mas uma constelação de possibilidades. Quando em 1915, em plena 1ª Guerra Mundial, Manuel Amieiro regressou dos seus anos de aprendizagem em Paris e decidiu abrir uma alfaiataria na Avenida da Liberdade, perto de vários concorrentes, como Lourenço & Santos (onde hoje fica a loja Louis Vuitton) e muitos outros que existiam entre o Rossio e as ruas da Baixa pombalina, não poderia imaginar que menos de 100 anos depois a profissão estaria em vias de extinção, que quase todos os outros haveriam de fechar portas, mudar para o ramo do pronto-a-vestir ou venderiam alfaiataria feita parcialmente por máquinas. Que alfaiataria seria um luxo que poucos poderiam pagar porque a mão humana deixou de se interessar por cortar e coser tecidos, por erguer um fato como quem ergue uma casa e que a sua casa seria uma das últimas resistentes a guardar os segredos deste trabalho ancestral.

Francisco Rosa tornou-se aprendiz naquela casa e mais tarde dono e parceria com o seu genro, António Teixeira. Nasce assim a Rosa & Teixeira, alfaiataria que depois juntou a vertente de pronto a vestir e camisaria. Durante décadas foi o ponto de referência da alfaiataria de luxo em Portugal, ao ponto de, em 1960, ter merecido o destaque de uma reportagem na revista de moda parisiense Adam. Até aos anos 80 a loja vendia também roupa feminina, só com a entrada de João Castro é que a marca se posiciona claramente no sector masculino e o pronto a vestir destinado a complementar a alfaiataria vai buscar marcas internacionais especialmente italianas e francesas.

Alfaiataria artesanal, entre o luxo e a nostalgia

O espaço clean, quase minimalista da renovada Rosa & Teixeira é um paradoxo: o espírito do século XXI que ali se respira contrasta absolutamente com a intemporalidade do piso inferior, onde uma equipa chefiada pelo alfaiate Eugénio Gomes, maneja tecidos, linhas, agulhas, tesouras em gestos tão remotos quanto a história humana. Não se ouve um só martelar mecânico, e um dos poucos objetos elétricos é o pesado ferro de engomar. É provável que o mundo de hoje fascinado com a tecnologia tenha perdido a capacidade de sentir o encantamento lento que se põe em cada alinhavo, ponto, casamento. Os mitos que tudo sabiam inventaram a figura das Parcas, três mulheres que fiavam o destino humano. Talvez muito não saibam que a palavra “texto” deriva da palavra “tecido” e que nenhuma modernidade se constrói se não houver sob ela a tradição.

Os fatos masculinos tendem a resistir às modas. As suas transformações são lentas e subtis. Fato Rosa & Teixeira Outono 2017

Sobre os destinos incertos deste negócio o Observador falou com Jean Patrick Leblois, francês, há 18 anos a gerir o rosto da Rosa & Teixeira — “desde a escolha das coleções e dos tecidos à arrumação das montras”, afirma com um sorriso. É o único que não usa um irrepreensível fato daqueles com que hoje sonham os os novos dandy: “Essa juventude que veio transformar o olhar sobre a alfaiataria, que mostrou que não é uma coisa de velhos e gente conservadora. É lamentável que, neste momento, seja tão difícil arranjar bons alfaiates que nós não podemos aproveitar esse novo público”, afirma o gestor da marca.

Patrick, que veste uns jeans curtos como um hipster, esteve durante anos à frente do marketing da francesa Façonnable até ao dia em que João Castro o convenceu a mudar-se. É ele que gere a loja de Lisboa e a do Porto e se o novo cosmopolitismo das cidades e o incremento do mercado de luxo foi bom para o negócio, tudo fica mais cinzento quando o assunto é a alfaiataria artesanal, que afinal é a alma da marca.

Leblois confirma que há alfaiatarias a vender gato por lebre, ou seja, que vendem fatos feitos à máquina como se fossem feitos à mão. Ora ao contrário de tudo o que nos foi ensinado sobre as virtudes da tecnologia, na confeção de roupas nada bate a mão humana, o tirar as medidas, o fazer três ou quatro provas, o desenhar o fato de acordo com o corpo de cada um. “Vestir um fato feito manualmente é como vestir uma segunda pele. Só depois de se experimentar é que se percebe a diferença entre isso e o pronto-a-vestir”, conta o mestre alfaiate Eugénio Gomes há várias décadas a riscar tecidos a giz, a cortar, a montar um fato. “Há famílias que já vêm cá há quatro gerações”, diz.

Apesar de ser um luxo (cada fato custa cerca de 1700 euros), “a alfaiataria é cada vez mais procurada por uma nova geração que quer ter um smoking ou um fraque, administradores, empresários, advogados para quem o fato clássico com ou sem colete é a roupa de todos os dias. O problema é que não há jovens a aprender alfaiataria, as escolas de moda não lhes dão essa formação, os mestres alfaiates estão todos a chegar à idade da reforma e não há quem os substitua” explica Patrick. “Noutros países a solução foi abrir escolas nas alfaiatarias, mas cá isso também não existe. É urgente captar jovens para este trabalho ou ele vai desaparecer totalmente”.

Mestre Eugénio Gomes, um dos últimos alfaiates lisboetas

“Os fatos são uma afirmação social mas há nos clientes mais jovens um nova descoberta da elegância clássica que só um fato feito por medida pode dar. Patrick admite que um fato é um objecto caro mas apresenta um argumento irrefutável: “Quem compra um fato compra um outra relação com o tempo, um fato pode durar toda a vida. Hoje a tecnologia faz tecidos incríveis a partir de matéria primas clássicas como as flanelas, lãs, peles levíssimas, tecidos que não amarrotam, que não perdem os pigmentos de cor originais e que podem ser comprados em modelos mais clássicos de blazer e calças direitas ou casacos assertoados, com golas mais ou menos afirmativas, com calças mais justas e curtas”, esclarece Patrick.

Se por um lado os novos dandy prometem devolver aos homens o gosto pela ida ao alfaiate, pelo culto da elegância em detrimento do conforto ou da preguiça, que terá sempre um sabor a romance do século XIX, por outro as alfaiatarias não podem diversificar os clientes porque não há mão de obra. “Um fato artesanal demora cerca de um mês a fazer e deve ser encomendado pelo menos com três meses de antecedência”, explica Eugénio Gomes, que não deixa também de lamentar já quase não poderem apostar na camisaria (algo que era comum aos alfaiates) precisamente por não haver quem faça as camisas. “É um saber que se vai perdendo, um dia já ninguém saberá fazer um fato à mão”, diz o mestre.

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