Moda

Moda e feminismo. O que é feito do espartilho?

Cristina L. Duarte lançou o livro "Moda e Feminismos em Portugal. O género como espartilho". O Observador conversou com a socióloga sobre o papel da roupa na luta pelos direitos das mulheres.

O espartilho, a peça que serviu de metáfora a Cristina L. Duarte no estudo da moda feminina do século XX.

Getty Images/iStockphoto

Para analisar aquele que foi o papel da moda na evolução da luta pela igualdade de género em Portugal, durante o século XX, a socióloga Cristina L. Duarte encontrou a metáfora perfeita: o espartilho. Pode ter caído em desuso, mas a autora do livro Moda e feminismos em Portugal. O género como espartilho não hesita em afirmar que a mesma lógica por detrás da peça que, durante séculos, limitou e moldou o corpo da mulher persiste na sociedade.

Para dar substância ao estudo, realizou um inquérito a 41 mulheres portuguesas de três gerações diferentes. Conclusões? Diz que o interesse pela moda salta sempre uma geração e que nem sempre as mais velhas são as mais conservadoras. Mais de um século depois do aparecimento da saia-calção, a primeira grande afronta do guarda-roupa feminino a uma sociedade dominada por homens, outras vieram. As calças, a minissaia, o biquíni — esta guerra tem batalhas e estas, por sua vez, têm capítulos. O português voltou a primar pelo timing peculiar. Por cá, a resistência ao fascismo tirou força ao movimento feminista, retomado em 1974, até hoje.

O que é que veio primeiro, a vontade de escrever este livro ou o fascínio pelo espartilho?
Digamos que foi mais o espartilho. Gosto muito de moda e de história do traje. Quando me licenciei em Sociologia, em 1986, a primeira coisa importante que fiz foi dar aulas de Sociologia da Moda. O espartilho, pelo seu aspeto e pela sua estrutura, pode ser estudado a muitos níveis e achei que podia criar uma metáfora a partir da peça. Através do espartilho, pode-se falar da sociedade, da forma como se organiza e da desigualdade e da descriminação que nela existem.

No livro, ao contextualizar historicamente esta peça, utiliza a expressão “cultura de violência de género”. Depois do espartilho ter caído em desuso, o conceito continua a fazer sentido quando falamos de moda feminina?
Já não se usa o espartilho, mas no que é a imagem pública de uma mulher continua a existir muito do que está na origem dessa estrutura rígida. É exercida violência, violência simbólica. As mulheres não saem para rua sem estarem impecáveis ou, pelo menos, sem considerarem que estão impecáveis do ponto de vista estético e visual. Sabem que o seu corpo é sempre alvo do olhar dos outros, um olhar que não é só de admiração ou de elogio, é um olhar que, em última instância, é recriminatório. Essa é uma carga que as mulheres têm e que é histórica. Já não usam espartilho, mas tudo o que nos rodeia — as imagens e o audiovisual nas suas várias expressões — vai nesse mesmo sentido. Há uma imagem ideal de mulher e depois há a necessidade de todas irem atrás e copiarem o modelo e é isso que se espera delas. Elas já se revoltaram contra isso e já atingiram um outro nível de expressão própria e de representação de si, de apresentação de si. Mas ainda são muito controladas pelo resto da sociedade. E não falo só da portuguesa, falo da sociedade ocidental.

Cristina L. Duarte é socióloga especializada em moda e investigadora na Universidade Nova de Lisboa.

Fala-se cada vez mais na procura de um estilo próprio, precisamente. Algo que se sobrepõem às próprias tendências. Isso quer dizer que a moda enquanto forma de pertença a um grupo, de conseguir um status, ficou para trás?
Ficou. Na realidade, foi esse o caminho percorrido através da democratização do gosto e da moda, com as grandes cadeias de lojas e com as marcas de difusão comercial. Toda a gente pode vestir tudo e eu posso confundir toda a gente com a minha forma de vestir. Lembro-me, por exemplo, de Martin Margiela e da forma como algumas das suas criações faziam lembrar as roupas dos sem-abrigo. Esse tipo de aproximação acaba por misturar os vários grupos sociais. Mas as pessoas continuam a precisar de se sentirem seguras e o ser igual também é um bocadinho isso. Na realidade, estamos sempre a falar do mesmo: estar num grupo. As pessoas precisam de se sentir seguras e utilizam a moda nesse sentido. Agora, não quer dizer que no meio dessa igualdade, não necessitem também de se distinguir.

Qualquer mulher podia fazer esta tese se recorresse às metodologias da Sociologia, porque todas elas têm uma noção muito clara, muito evidente, muito própria, mas ao mesmo tempo muito coletiva, do que é estar no espaço público e de como são observadas. Simmel, um filósofo e sociólogo da moda, fala na imitação como base de qualquer fenómeno social, mas no caso da moda fala de uma imitação que também gera diferenciação. Quem imita quer-se diferenciar, o que é um exercício muito difícil. Quero diferenciar-me dentro da minha cópia e isso é muito interessante. A princípio, parece uma contradição.

Olhando para a moda do século XX, ela reflete realmente os avanços e retrocessos que houve na conquista de direitos das mulheres?
Reflete. A começar nas reformas de vestuário, no fim do século XIX, quando as mulheres ligadas às republicanas e às sufragistas vão buscar uma coisa chamada saia-calção. E é assim, pode ser só uma pessoa a pegar naquilo que as outras, se estiverem na mesma onda, vão atrás, não interessa se estamos no século XIX, no XX ou no XIX. A categoria inabalável das mulheres tem determinadas características que parecem imutáveis, quer elas se vistam como extraterrestres ou como terrenas puras. Aquela saia-calção, muito inspirada numa saia turca, veio colocar em cheque certas posições de poder dentro da sociedade, nomeadamente dos homens. Isso não deu em nada. As mulheres não começaram a usar calças no final do século XIX nem no princípio do século XX.

Já não se usa o espartilho, mas no que é a imagem pública de uma mulher continua a existir muito do que está na origem dessa estrutura rígida.

Dando um salto enorme, quando, em Portugal, chegámos a 1974, depois do 25 de abril, muitas mulheres não podiam usar calças nas empresas e nas instituições do Estado. Para assumirem o seu corpo e para se expressarem através do vestuário também há uma luta associada. Ora, porque é que que as mulheres têm sempre que lutar para afirmar qualquer coisa relativamente ao seu corpo? Seja um modo de vestir, seja uma interrupção voluntária da gravidez. Falei das calças, mas também posso falar da minissaia. Não foi fácil para as mulheres assumirem a minissaia só porque era moda. Não era só a questão de usarem menos pano, era mostrarem mais corpo. Por isso é que esta questão das mulheres serem donas do seu corpo é alvo de muito estudo. A afirmação de um corpo e a sua apresentação é alvo de um olhar em que a crítica está subjacente, por estar sempre ligado a um estereótipo, a um preconceito ou pura e simplesmente aos valores do que é ser mulher e usar da sua feminilidade e do que é ser homem e usar da sua masculinidade.

Acha que o uso da saia por homens seria uma luta semelhante?
Não é uma coisa nova. A maioria acha que vestir saia não é próprio à natureza dos homens, como se isso não fosse um comentário de cultura e não de natureza. É como a saia-calção, que no fundo foi a primeira peça transgénero da história da moda.

Tal como noutras áreas, também na moda e no feminismo tudo tardou mais em Portugal?
Sim. Nós tivemos uma segunda vaga tardia relativamente àquilo que foi o movimento feminista em França, que aconteceu numa época em que estávamos mergulhados no Estado Novo. A luta era contra o fascismo, uma luta de resistências várias onde o movimento feminista não teve grande protagonismo. Então, saltou tudo para o pós 25 de abril. Mas há uma altura na história dos feminismos que é muito a par aqui no mundo ocidental. As feministas americanas da segunda metade do século XIX tinham congéneres portuguesas. Mesmo no início do século XX, correspondiam-se entre elas. As feministas espanholas escreviam às portuguesas, as portuguesas escreviam às espanholas, as francesas escreviam às portuguesas, as portuguesas escreviam às francesas. Existia comunicação, mas houve ali uma quebra com o golpe militar de 1926. A partir daí, foi todo um outro sufoco de vida em sociedade e isso diluiu um bocadinho aquilo que podia ter sido a evolução dos feminismos em Portugal.

Ora, porque é que que as mulheres têm sempre que lutar para afirmar qualquer coisa relativamente ao seu corpo? Seja um modo de vestir, seja uma interrupção voluntária da gravidez.

Isso quer dizer que o guarda-roupa das mulheres portuguesas parou no tempo durante a ditadura?
Não porque as mulheres nunca andam de olhos fechados, seguem sempre. Não interessa se era na crónica feminina, se na rádio. E lá está, não era um discurso que fosse alvo do lápis azul no mesmo sentido em que uns textos escritos eram. Era um discurso não dito, a não ser que fosse muito agressivo ou entrasse em rutura com tudo o resto. Mas é claro que não era possível às mulheres usar calças, portanto imagino como não foi, nos anos 40, quando chegaram as refugiadas da segunda guerra. Elas trouxeram certos modos de estar e de vestir que contaminaram as locais. Usavam calças, fumavam em público. Há certos usos e costumes que, quando chegam de fora, podem criar algum choque, mas também dar origem a uma observação e a uma contaminação. Isso pode ter acontecido com as calças, mas também com a condução de automóveis.

“Moda e feminismos em Portugal. O género como espartilho” já chegou às livrarias. Custa 19,90€.

Mas o século XX não foi só avanços. Também houve retrocessos.
São ciclos. A seguir a um ciclo em que se destrói, alguém volta a construir. E quando há estruturas sociais pelo meio não é diferente. Alguns criadores de moda libertaram o corpo das mulheres, mas depois veio sempre alguém com novas ideias para as encerrar. O poder da moda também não é uma coisa abstrata. Na realidade, há gente por trás desse poder, existe indústria, industriais, administrações, homens.

Continua a fazer sentido falar na moda como ferramenta ao serviço do feminismo?
Uma questão transversal aos feminismos é esta questão da afirmação de um corpo e da soberania desse mesmo corpo. Mas os feminismos tiveram várias histórias. No século XIX, a luta era pela educação, pelo direito de acesso à universidade. Depois, as lutas afirmaram-se em várias frentes. Hoje, a luta é poder usar um decote ou uma minissaia e não ser assobiada. Continuo a ouvir histórias que me deixam verdadeiramente aterrorizada. Não acredito que isto acontece e que ainda causa distúrbio pensar que deve ser posto em causa. É um problema de todos, não é um problema das mulheres. As coisas que se ouvem são violência pura, violência verbal que depois transporta violência psicológica sobre uma vítima. É um dos lados mais perturbadores do espartilho de hoje.

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