Ópera

Durante duas noites, um cantor de ópera português será rei no Reino Unido

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Aos 33 anos, Ricardo Panela será o centro das atenções da sala mais contemporânea da English National Opera. "Temos canto de grande qualidade em Portugal", diz, em entrevista ao Observador.

"Temos em Portugal muitos teatros mas não se faz muita ópera", diz o barítono.

© D.R.

Ricardo Panela foi convidado a assumir o papel de rei Suibhne (pronuncia-se Sweeney) na ópera “Mad King Suibhne”. Aos 33 anos, o barítono vai estar, nas noites de 16 e 17 de novembro, na Lilian Baylis House, a sala da prestigiada English National Opera, em Londres, dedicada à ópera contemporânea. “É uma conquista da qual me orgulho bastante, especialmente pelo facto de ser português”, diz, em entrevista ao Observador.

“Apesar de ser uma obra musicalmente contemporânea, utiliza uma linguagem melódica bastante acessível, que ilustra a demência do personagem e o seu impacto sobre os que o rodeiam de uma forma extremamente humana e comovente”, explica Ricardo Panela, por e-mail, após o primeiro ensaio em Londres. O personagem “tem o seu quê” de Otelo ou Macbeth e será “um grande desafio”, tanto do ponto de vista dramático, como vocal. “É, possivelmente, o personagem com a psicologia mais complexa que alguma vez interpretei.

A ópera é da companhia Helios Collective e foi escrita este ano pelo compositor britânico Noah Mosley, com libreto de Ivo Mosley, para o 10.º aniversário da Bury Court Opera. “Mad King Suibhne” baseia-se num poema irlandês do século XII intitulado “Buile Suibhne” e conta a história do Rei Suibhne que, durante uma batalha, assassina um amigo de infância. A responsabilidade pela morte do amigo faz com que Suibhne enlouqueça e abandone o reino e a família, vivendo em isolamento na floresta durante um ano.

Como é que um cantor nascido em Aveiro é escolhido para ser rei durante duas noites, na capital do Reino Unido? “Através de uma série de coincidências bastante felizes“, começa por contar. Há dois anos, Ricardo fez uma audição naquela cidade para uma série de seis récitas da ópera “Maria de Buenos Aires”, organizadas por Noah Mosley e a diretora de “Mad King Suibhne”, Ella Marchment. Na altura, o compositor britânico já estava a trabalhar em “Suibhne”, mas o elenco já estava escolhido. A ópera esteve em cena no verão, as críticas foram boas e houve vontade de a fazer regressar ao palco. “Mas o elenco inicial não estava disponível e, como o ambiente de trabalho durante “Maria de Buenos Aires” foi excelente, fui convidado a assumir o papel.”

Este ano, o português conquistou um papel na ópera “Don Giovanni”, também em Londres. © Alex Brenner / Opera Holland Park

Ricardo Panela estudou no Conservatório de Música de Aveiro — onde voltará no início de dezembro para dar um workshop de canto — com a professora Juracyara Baptista. Ao mesmo tempo, frequentava a licenciatura em Biologia e Geologia na Universidade de Aveiro. “Depois de três anos a tentar conciliar as coisas, apercebi-me que nunca conseguiria dar o máximo em nenhuma delas enquanto continuasse a tentar fazer ambas.” Abandonou a biologia e a geologia e candidatou-se à licenciatura em Música da mesma Universidade.

Foi durante o curso que se estreou em cima do palco numa ópera completa com a Orquestra Filarmonia das Beiras: aos 22 anos, fez de Papageno em “Flauta Mágica’”, de Mozart. Uma década depois, ei-lo no primeiro papel de protagonista numa ópera completa contemporânea, em Londres. Precisamente a cidade para onde se mudaria mais tarde, com o objetivo de tirar um mestrado em Performance na Guildhall School of Music & Drama.

Terminado o mestrado, era chegada a hora de se atirar às audições. Escolheu concorrer a papéis principais em espetáculos de companhias mais pequenas, assim como para pequenos papéis e coro com companhias principais. “Como as coisas não correram mal, acabei por ficar pelo Reino Unido a trabalhar como freelancer, não só nesse país, mas também na Irlanda, França, Portugal e, futuramente, em Espanha.”

Em dezembro, regressa a Portugal, para participar na ópera “L’Enfant et les Sortilèges“, de Maurice Ravel (1875-1937), que estreia no Teatro Nacional de São Carlos a 28 de dezembro. Sensivelmente um ano depois de ali se ter estreado com “Les Dialogues des Carmelites”, uma ópera de Francis Poulenc, dirigida pelo maestro João Paulo Santos e encenada por Luís Miguel Cintra. “Foi uma das experiências artisticamente mais gratificantes da minha carreira. O amor à música e ao teatro que se gerou naquela sala de ensaio foi incrível.”

Voltar de vez será mais difícil. “Temos em Portugal muitos teatros mas não se faz muita ópera“, diz o barítono, que aproveita para elogiar o facto de o Teatro São Carlos “ter saído de ‘casa’ e levado produções ao Porto, uma vez que isso cria público e oportunidades para os artistas se apresentarem mais vezes”.

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O menor número e frequência de espetáculos é, na sua opinião, a maior diferença entre o mercado nacional e aquele onde trabalha. “Temos canto de grande qualidade em Portugal e creio que posso falar por todos os meus colegas que trabalham maioritariamente fora do país quando digo que todos gostaríamos de poder exercer esta profissão full time num clima mais amigável que o da Europa do Norte“, sublinha.

Não é só público que falta. A cultura do mecenato “é muito mais forte noutros países e cria independência das instituições culturais em relação a dinheiro público”, aponta. Atento ao que se passa no país onde nasceu e cresceu, o barítono elogia as mudanças feitas pelo atual Governo, que permitiram que, este ano, os contribuintes pudessem dar 0,5% do seu IRS a instituições culturais. Algo que não era possível. “Nós temos todos um bocadinho o hábito de dizer que estas coisas não são suficientes, mas a verdade é que tem que se começar por algum lado e estes são definitivamente passos na direção certa.”

Para a vida profissional de Ricardo, a conquista deste papel principal é mais um passo na direção certa. “É uma conquista da qual me orgulho bastante, especialmente pelo facto de ser português.” Assume que o espetáculo lhe vai enriquecer o currículo e, espera, abrir mais portas para o futuro.

Com uma agenda já cheia de óperas, concertos e workshops, em cidades como Valladolid, Lisboa e, sobretudo, Londres, o barítono de 33 anos quer, nos tempos livres, continuar a apostar na formação. “É essencial para um cantor lírico, porque a voz está sempre em mudança e a acompanhar o processo de maturação de todo o corpo.” Atualmente estuda com Sherman Lowe. “Um professor americano que tem sido fundamental a guiar os próximos passos do meu desenvolvimento.” Porque sem “trabalho, competência e profissionalismo”, as “coincidências felizes”, como chama ao momento em que conheceu os criadores de “Mad King Suibhne”, não chegam para conquistar papéis.

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