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Web Summit. Como o futebol português está a liderar a revolução tecnológica no desporto

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A liga portuguesa de futebol está na Web Summit a mostrar os resultados de mais de um ano de implementação da E-liga, a plataforma digital inovadora que lidera a revolução tecnológica no desporto.

O E-liga watch, relógio usado pelos árbitros portugueses, é um dos principais elementos tecnológicos da plataforma, mas não é o único

No primeiro pavilhão da Feira Internacional de Lisboa (FIL), entre vários stands de startups, da blockchain à inteligência artificial, há um pequeno expositor que parece destoar. O troféu de campeão nacional de futebol português, ornado com fitas das cores de todos os clubes nacionais, é uma das principais atrações do pavilhão, servindo de cenário a fotografias de muitos dos que passam pelo quiosque da Liga Portugal.

É a taça verdadeira, não é uma réplica”, comenta com o Observador o diretor de tecnologia da Liga, Miguel Faria, que se desdobra em conversas em português e em inglês com representantes desportivos de todo o mundo.

A instituição que organiza o principal campeonato de futebol profissional português não está ali apenas para as selfies. A liga portuguesa está a revolucionar tecnologicamente o futebol europeu e mundial, depois de ter introduzido — no início da época 2016-2017 –, a E-liga, uma plataforma integrada que gere todos os detalhes do campeonato. Juntando numa mesma plataforma – uma grande rede profissional – clubes, árbitros, delegados desportivos e responsáveis pelos estádios de futebol, é na E-liga que é gerida toda a liga nacional de futebol.

“É um projeto tão grande, que envolve tanta gente e tanto esforço. O jogo está totalmente dependente disto”, garante Miguel Faria. Pelas suas contas, cerca de um ano e meio de implementação da plataforma (o que equivale a mais de mil jogos de futebol) já permitiu poupar à volta de uma tonelada de papel.

Antes disto, estávamos a falar de dezenas de papéis que tinham de ser preenchidos. Um relatório de um delegado tinha 20 folhas diferentes, o árbitro tinha mais oito ou nove, as equipas enviavam mais umas quantas. Neste momento não há papel envolvido”, destaca.

A plataforma permite também poupar tempo. “Os árbitros preencherem os relatórios, os delegados preencherem os deles, mais os delegados dos clubes… Estávamos a falar de um processo que, quando chegava à Liga, chegava três ou quatro horas depois, na melhor das hipóteses. Porque podia demorar mais de doze horas, quando o fax não funcionava e os relatórios tinham de vir por correio”, lembra o responsável pelo desenvolvimento tecnológico da Liga. Isto era assim até há bem pouco tempo, assegura.

Miguel Faria é o diretor de tecnologia da Liga Portugal (JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR)

A E-liga, desenvolvida num tempo recorde de oito meses, acabou com toda a burocracia em papel e simplificou o funcionamento da competição. O sucesso da plataforma é tal que a FIFA, a UEFA e o International Board, responsável pelas regras de jogo do futebol, a reconhecem como um exemplo a seguir.

Todos ficaram chocados com a rapidez com que fizemos isto. Oito meses, incluindo testes. Em situação normal, uma plataforma destas demoraria cinco a dez anos a elaborar”, sublinha Miguel Faria.

Mas, afinal, o que é a E-liga? “Nem é uma plataforma. São umas dez plataformas, todas integradas”, explica o responsável. Clubes, delegados desportivos, árbitros e responsáveis de recintos desportivos têm uma conta no sistema e cada um insere lá as informações pelas quais é responsável, e isso é que é um dos grandes pontos positivos da plataforma. Não há intermediários”, sublinha.

Tudo começa no início da época, com o sorteio do calendário. “Os jogos são logo inseridos no sistema. A partir daquele momento, as equipas, no período de transferências, fazem as inscrições de forma desmaterializada na plataforma. Depois, fica o plantel inscrito e é através da plataforma que os clubes indicam o onze inicial para cada jogo, que chega diretamente ao tablet do árbitro respetivo”, explica ainda o responsável.

Esta funcionalidade aumenta a segurança em torno destes momentos fundamentais, uma vez que “só o árbitro é que tem acesso à informação e só o árbitro pode aprovar as equipas. Assim que o onze é aprovado pelo árbitro no tablet, a informação é disponibilizada de forma automática no site da Liga e é essa a informação que é divulgada para o exterior. Não há intermediários”. Isto, defende Miguel Faria, veio “colocar regras e alguma sanidade neste processo todo”.

A E-liga está também presente em cada momento das partidas de futebol, nos famosos relógios eletrónicos dos árbitros, desenvolvidos pela Samsung. Minutos antes do jogo, o árbitro faz upload de todas as informações respeitantes ao encontro (jogadores convocados, situação de cada jogador, etc.) e, a partir dali, o relógio “substitui a cartolina” que os árbitros habitualmente tinham no bolso para anotar cada situação de jogo.

Os cartões amarelos e vermelhos (com respetiva justificação), as expulsões, os golos, as interrupções, as substituições, os golos. Tudo é registado pelos árbitros a partir do relógio. “No fim do jogo, a única coisa que têm de fazer é despejar o relógio para o tablet. Na reunião que têm depois, verificam se bate tudo certo e o relatório que eles entregam é 100% digital. Um processo que demorava várias horas fica pronto em cinco minutos”. Toda a informação é oficial e disponibilizada no imediato.

Na Web Summit, a Liga quer mostrar o que fez e evidenciar “o apoio e envolvimento das empresas que o fizeram”. Startups portuguesas como a Brandit ou a Bitmaker estiveram envolvidas no desenvolvimento do software da E-liga. Mas, sobretudo, a Liga Portugal quer dar pistas para o futuro tecnológico do desporto. Miguel Faria reconhece que tem falado com muitos representantes de ligas estrangeiras que vêm em busca de conhecimentos sobre o projeto português.

Existe muita coisa dispersa implementada nas várias ligas, em termos de tecnologia, mas não há uma que englobe todas as dimensões da competição, que agilize todo o processo”, sublinha.

“Ainda agora estava a falar com um representante de uma liga estrangeira”, comenta Miguel Faria, que se diz “disponível para ajudar no que for possível, com base neste percurso que já fizemos”. “É claro que o que funciona aqui pode não funcionar noutro país, mas temos ajudado em tudo o que podemos”, garante.

Para Miguel Faria, o mais importante era conseguir passar do papel à ação, conseguir implementar efetivamente este projeto: “A partir daqui a evolução é mais natural. O jogo vai adaptar-se à plataforma e a plataforma vai adaptar-se ao jogo”.

No futebol português é raro encontrar momentos de consenso entre todos os clubes e entre todos os interessados. Este, movido pela inevitabilidade da revolução tecnológica, foi um deles. “Posso dizer que este é o único projeto, de que me lembre, que foi completamente unânime no futebol português. Todos aderiram. Todos os clubes, todos os árbitros, todos os delegados, se empenharam muito neste projeto.”

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