Web Summit

Nigel Farage: “Sem o Youtube e sem as redes sociais não existiria Brexit”

Não existiria nem Brexit, nem Presidente Donald Trump. Durante um debate sobre como as redes sociais estão a mudar a política, Farage foi claro: "Sem redes sociais não teríamos chegado até aqui".

Getty Images

Era uma das mesas redondas mais aguardadas da Web Summit e não se pode dizer que tenha desiludido. Nigel Farage, eurodeputado britânico, ex-líder do UKIP e um dos rostos mais influentes da campanha pelo Brexit, juntou-se a Brad Parscale, diretor de campanha digital de Donald Trump a quem a CBS colou o rótulo “arma secreta”, Katie Walsh, ex-subchefe do gabinete do Presidente e agora líder de uma organização pro-Trump, Mark Penn, antigo conselheiro estratégico das campanhas de Bill e Hillary Clinton, e Rosario Dawson atriz e ativista norte-americana. Painel ambicioso, para um tema igualmente ambicioso: como a internet e as redes sociais estão a mudar as campanhas políticas.

Num debate muito centrado na política norte-americana e em como Donald Trump tomou de assalto o establishment republicano e chegou à Casa Branca, seria, ainda assim, Nigel Farage a resumir a ideia fundamental: o UKIP, mas também o Brexit, existiriam sem as redes sociais? “Não. Nem pensar. Os media tradicionais não nos ligavam nenhuma, mas as pessoas começaram a ver-me no Youtube… Chegámos aqui graças ao Youtube e aos social media“.

Como? As explicações são várias e foram sendo avançadas pelos cinco convidados. Em primeiro lugar, porque a audiência da televisão está a transferir-se para as redes sociais — mais abrangentes, mais interativas e aparentemente mais democráticas. Em muitos casos, chegou a explicar Mark Penn, estas plataformas transformaram-se em amplificadores dos conteúdos transmitidos pela televisão, invertendo, em parte, a lógica que tem dominado a comunicação: antes, algo que não fosse transmitido pela televisão não existia enquanto acontecimento — era essa, pelo menos, a perceção que existia; hoje, o conteúdo televisivo que não ganhe repercussão nas redes sociais arrisca-se a ter um alcance muito limitado.

Além disso, é nas redes sociais, e não nos media tradicionais, que se refugiam as franjas até agora ignoradas — o que tem um especial impacto em sociedades cada vez mais bipolarizadas, como é a norte-americana.

“As audiências televisivas estão a cair e a televisão chega a cada vez menos gente. As pessoas estão no Facebook. No início da campanha presidencial, tínhamos uma enorme desvantagem em relação a Hillary Clinton. A solução foi o Facebook. Foi através dele que chegámos às pessoas a quem nunca chegaríamos com a televisão. Ganhámos as eleições com o Facebook. O Twitter foi a forma encontrada para falar com as pessoas”, explicou Brad Parscale.

“Na Europa, estamos a anos luz dos Estados Unidos [na estratégia política adaptada às redes sociais]. Os nossos políticos continuam presos a uma ideia fixa: ‘ganhámos as eleições passadas assim e vamos ganhá-las da mesma forma’. Estão obcecados com os mainstream media. E isso já não resulta, o que para mim é fácil dizer porque todos os media tradicionais me odeiam”, afirmou Nigel Farage.

Mas se é nas redes sociais que está parte do sucesso de uma campanha eleitoral, como lidar com fenómenos de manipulação? A forma como a Rússia terá investido em anúncios publicitários pro-Trump e anti-Hillary no Facebook no sentido de influenciar as eleições norte-americanas foi, naturalmente, um dos temas da discussão, com Brad Parscale a demarcar-se completamente dessa ofensiva.

“A ideia de que nós [equipa de Trump] estaríamos de alguma forma a tentar fazer lavagens cerebrais no Facebook é irreal. Já disse isto uma vez e repito: sou contra qualquer tentativa de um governo estrangeiro de influenciar resultados eleitorais noutro país”, rematou Parscale, o diretor de campanha digital de Trump.

Mark Penn ajudaria a desmontar essa tese: “A Rússia terá investido 100 mil dólares em anúncios de carácter político no Facebook. Existiram três debates televisivos de 90 minutos, duas convenções partidárias transmitidas pelas televisões e foram gastos 2.4 mil milhões de dólares na última corrida eleitoral. As fake news sobre fake news estão a tornar-se inesgotáveis”, começou por criticar o especialista em marketing. “Ainda assim, o que aconteceu com a Rússia deve ser visto como um alerta para as próximas eleições”, concederia.

Mais do que qualquer interferência russa nas eleições, o que virou decididamente o tabuleiro a favor de Trump foi a forma como comunicou com o eleitorado, como conquistou pessoas que geralmente não votam e como soube seduzir outro tipo de eleitorado que passou a ser dominante e decisivo: o eleitorado mais velho, aquele que tendencialmente tem uma visão mais conservadora, mais identificada com um estilo de vida de que não quer abrir mão, mais receoso e mais hostil à mudança e ao que lhe é estranho.

A esse propósito, Mark Penn adiantaria outro dado importante para explicar a vitória de Trump: nos Estados Unidos, assim como na Europa, o “eleitorado nunca foi tão velho”. Se em 1960, durante a eleição de John F. Kennedy, existiam “dois jovens eleitores por cada eleitor mais velho”, hoje essa diferença não existe, “está empatada”. E a tendência é para que esta ordem se inverta. “É a geração mais velha que decide as eleições [foi assim com Trump e com o Brexit, por exemplo] e essa geração está no Facebook”.

A chave do sucesso de uma campanha política está em adaptar a mensagem a esta nova realidade. Para Katie Walsh, ex-subchefe do gabinete do Presidente, a vitória de Trump justifica-se, precisamente, porque o agora Presidente norte-americano apostou numa mensagem única e soube chegar às pessoas a quem devia chegar.

“As promessas de esperança e de mudança de Obama não se concretizaram. Trump conseguiu chegar a um eleitorado que estava pronto para ouvir o que tinha para dizer. Quando as pessoas têm dinheiro para pagar o leite, a gasolina e a faculdade dos filhos, votam na continuidade. Não era isso que estava acontecer e Donald Trump soube falar a essas pessoas”, argumentou Walsh, naturalmente mais próxima do Presidente dos Estados Unidos.

Uma posição contestada pela atriz e ativista Rosario Dawson. “Trump apostou tudo em explorar as emoções e os medos das pessoas, com o discurso adaptado ao clickbait. O ‘Lock her up’ ou ‘You’re fire’ fazia parte da mesma estratégia. E os media tradicionais têm responsabilidade. As televisões chegaram a interromper discursos de Bernie Sanders para anunciar simplesmente que Trump estava prestes a falar. Sabiam que ia dizer alguma coisa incendiária. Deram-lhe publicidade gratuita”, defendeu.

Um discurso negativo que colheu os frutos de uma sociedade já de si fraturada. “Hoje, 65% dos norte-americanos odeiam e desconfiam do Presidente, da anterior candidato presidencial, dos media tradicionais e dos juízes. Foi o ponto a que chegámos”, insistiu Mark Penn.

Olhando para a eleição norte-americana, torna-se evidente que Donald Trump chegou ao eleitorado certo através do meio de comunicação mais eficaz. Mas foi a mensagem única — única no sentido de romper com o politicamente correto — que lhe garantiu a vitória. Nessa eleição, como nas próximas corridas eleitorais, nos Estados Unidos como na Europa, apesar da importância do meio, a mensagem continuará a ser fundamental, concordariam os cinco convidados. Mas seria mais uma vez Nigel Farage a resumir a ideia da melhor forma: “Transmitam uma mensagem interessante e séria, mas façam rir as pessoas. As pessoas adoram entretenimento”.

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