Altice

Dentro do mundo Altice. Podem as telecomunicações salvar os media?

Altice defende união das telecomunicações com grupos de media para combater os gigantes da Internet. Empresa quer comprar a Media Capital e trazer modelo que lançou em França com compra do Libération.

Patrick Drahi, é o maior acionista da Altice e o grande defensor da convergência entre os media e as telecomunicações

AFP/Getty Images

Uma operação que nunca aconteceu na Europa. Esta foi a primeira reação do maior concorrente da Altice em Portugal (a NOS) quando os investidores franceses anunciaram, este verão, um acordo para comprar a Média Capital, a dona da TVI O negócio, avaliado em 440 milhões de euros, ainda aguarda a autorização do regulador e tem sido muito atacado pelos principais concorrentes: a NOS e a Vodafone, entre as operadoras de telecomunicações, e a Impresa, nos media.

A Autoridade da Concorrência, a quem compete avaliar o negócio, tem na sua posse um parecer negativo, mas não vinculativo, do regulador das telecomunicações, bem como um parecer falhado (porque não reuniu consenso) do regulador da comunicação. Apesar de não existir formalmente, o documento dos serviços técnicos da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) é público e avisa para os vários riscos que esta concentração pode representar para a diversidade e pluralismo dos media.

A operação não é assim tão inédita para o fundo liderado por Patrick Drahi, o milionário francês que é o principal acionista da Altice. Pouco depois de investir em operadoras de telecomunicações, com grandes negócios como as compras da SFR, em França, e da PT Portugal, a Altice virou as atenções para um setor em crise, aguda no caso da imprensa, e anunciada, na rádio e televisão. E começou a testar no mercado francês a estratégia de convergência, em busca de respostas para a perda de receitas no negócio tradicional de telecomunicações e para enfrentar os gigantes americanos da internet.

Nesta batalha contra as GAFA (sigla formada a partir das iniciais de Google, Apple, Facebook e Amazon), os editores de notícias e as operadoras têm estado do lado dos perdedores e a Altice apostou num novo modelo de negócio a partir da integração acionista entre o produtor do conteúdo e o distribuidor do sinal.

É para nós essencial que a Europa facilite a emergência de campeões europeus, capazes de rivalizar com os GAFA americanos, que hoje ocupam uma posição dominante, o que pode colocar em risco a autonomia europeia no mundo digital”. O discurso foi feito por Michel Combes, o presidente executivo da Altice (que entretanto se demitiu), em 2016, perante os deputados franceses.

Um ano antes, e também perante a Assembleia Nacional, Patrick Drahi revelou o que o levou a comprar o Libération, o emblemático diário francês de esquerda. A aquisição nasceu de uma questão colocada por um jornalista do Libération. Tinha acabado de desembolsar 14 mil milhões de euros para comprar a SFR, então a segunda maior operadora móvel francesa, e o Libération precisava apenas de 14 milhões de de euros para ser salvo. Drahi avançou para a compra do título, por um milésimo do dinheiro investido na SFR. Mas ficou o aviso aos deputados franceses, “salvar a imprensa escrita é uma tarefa difícil. A única solução está em constituir um grupo sólido e de o consolidar, juntando outros títulos e expandindo para outros países”.

Ainda em 2015, a Altice comprou o de L’Express, uma news magazine francesa, por menos de 10 milhões de euros e desembolsou mais 40 milhões para adquirir os restantes títulos que pertenciam a um grupo belga.

O grande salto nos media foi dado com a aquisição de uma participação na NextRadio TV, fazendo uma parceria com o fundador, o empresário de media, Alain Weill. Este operador juntava a rádio, com uma das principais estações nacionais, a Rádio Monte Carlo, e o primeiro canal de notícias francês, o BFM TV, em sinal aberto. Este investimento ascendeu a mais de 600 milhões de euros e, um ano depois, a Altice Media Group France foi vendida à operadora SFR, também controlada pelo grupo francês. O grupo tem, atualmente, o portefolio mais completo no panorama dos media franceses, está na televisão, rádio, imprensa e internet.

Alain Weill, presidente executivo da Altice Media, explica porque vendeu o negócio que criou à Altice

Alain Weill não tinha grande vontade de vender, segundo contou o próprio a jornalistas portugueses convidados pela Altice para conhecer os negócios na comunicação social do grupo que quer comprar a Media Capital.

Porque vendeu o grupo que fundou? Weill diz que foi abordado há dois anos por Drahi. Depois de lhe explicar a estratégia de convergência entre as telecomunicações e os media, convidou-o para ser o presidente executivo das operações de media da Altice. Weill reconhece que, apesar do sucesso do seu grupo, existiam perigos que o levaram a aceitar a oferta. O regulador francês tinha concedido duas licenças para canais de notícias nacionais a dois dos seus maiores concorrentes. “Não queria vender, era um independente”, mas o “risco era muito forte para a empresa”, explicou Weill aos jornalistas portugueses em Paris na sede da BFM.

Vendeu 49% do capital e fechou um acordo para ceder o controlo até 2019. À frente do negócio dos media da Altice, Weill também participou na decisão de avançar para a compra da Media Capital em Portugal, numa operação que replica a estratégia para França, até certo ponto. Weill diz que acreditou na visão de Drahi e garante que o patrão da Altice “não investe para ganhar influência, mas sim para oferecer aos clientes os melhores programas” e com isso ganhar mais receitas. E em Portugal será o mesmo, acrescenta.

Diz que a mudança de acionista tem sido positiva e adianta que, tal como aconteceu na BFM TV, a intenção é a de acelerar o crescimento da Media Capital e manter a equipa executiva liderada por Rosa Cullell. “Se somos uma equipa de sucesso porquê mudar a equipa?”. Apesar de a MEO/PT ser a pivot do negócio em Portugal, as duas empresas vão permanecer autónomas com equipas diretivas próprias. Mas, se existem alguns paralelos entre o que a Altice fez em França e o que pretende fazer em Portugal, há também diferenças.

O poder das empresas envolvidas é muito maior em Portugal, onde a PT/Meo e a Media Capital são os principais operadores nas suas áreas com quotas de mercado muito relevantes, que chegam a mais de 30% em alguns segmentos, num mercado que é muito mais pequeno. Outra diferença está no facto de o alvo português não ter qualquer exposição à imprensa escrita, que é o segmento mais fragilizado. Weill confirma que houve contactos com outras empresas de media portuguesas, sem dar detalhes, e mostra-se confiante na aprovação do negócio, ainda que com “remédios”, isto é, ajustamentos negociados com o regulador para defender a concorrência.

Não abre muito jogo, mas realça que a Altice já esclareceu que não pretende fechar os conteúdos da TVI aos concorrentes. Se bem que a exclusividade é também descrita como uma das vantagens da convergência que permite segurar os clientes e aumentar a receita por subscritor. Outro trunfo que o grupo quer explorar é a publicidade dirigida em função dos interesses e preferências de cada cliente.

A contestação dos rivais não é uma novidade. “Estamos habituados à pressão e à discussão dos concorrentes quando queremos fazer um negócio“. Também em França houve alertas para os perigos da junção. Mas volta a lembrar as ameaças dos gigantes da internet, aos quais acrescenta a Netflix, para concluir: É importante ter grupos europeus de telecomunicações fortes. São as únicas empresas que têm capacidade para responder aos gigantes americanos da net.

O presidente executivo da Altice voltou a reafirmar a intenção de manter a independência da TVI, quando participou na web summit em Lisboa

A garantia de independência editorial da TVI foi reafirmada esta quarta-feira pelo presidente executivo da Altice, Michel Combes, que falou aos jornalistas, à margem da sua intervenção na Web Summit e dois dias antes de abanonar o cargo. A mesma salvaguarda foi transmitida pelos responsáveis das empresas de comunicação detidas pela Altice que falaram em Paris com os jornalistas vindos de Portugal para mostrar o “laboratório” que da solução que se pretende levar para Portugal.

Mas, se a independência editorial tem sido respeitada, a estratégia está a funcionar do ponto de vista económico e financeiro?

Para o grupo que junta a televisão e a rádio, a respostas dadas por Alain Weill parecem apontar para o “sim”. O acionista vendedor e atual presidente executivo, destacou os sucessos da operação da BFM desde a entrada de um novo acionista com os bolsos mais recheados.

Foram lançados mais sete canais — cinco de desporto (BFM Sports), um de não ficção (BFM Découvert) e um canal regional de Paris, o BMF Paris — foram contratadas mais 200 pessoas e há projetos para lançar no próximo ano, mais canais regionais nas principais cidades francesas. A BFM TV mantém a liderança no segmento de notícias, com 66% de quota no mercado em que opera (cerca de 3% no share total), e 10 milhões de espetadores por dia. No desporto, a estação marcou pontos face aos concorrentes mais fortes, ao conquistar os direitos de transmissão da Premier Ligue (liga inglesa) a partir de 2018. E duplicou os resultados.

O grupo conta, ainda, com um canal de rádio e TV de negócios (BFM Business) e tem vários programas que são exibidos em simultâneo na televisão e na radio, a RMC que é a terceira rádio generalista mais importante de França. Notícias, comentadores que dão nas vistas, talk shows, muito desporto e nenhuma música é a receita.

Mas quando se chega à imprensa, a resposta não é tão entusiástica.

A convergência entre a imprensa escrita e um operador telecomunicações não é tão evidente, uma vez que os conteúdos televisivos valem mais na oferta. Mas a nível físico, essa convergência até é maior, na medida em que o Libération e a revista L’Express já mudaram de instalações para a sede do grupo, o Campus Altice, em Paris.

Guillaume Dubois veio do BMF Business, o canal de negócios do grupo BFM para a direção do L’Express, uma publicação com um grande passado e um futuro incerto. Foi a primeira revista de notícias francesa — como a Visão e a Sábado em Portugal — lançada ainda nos anos 1950, mas tem vindo a perder leitores, receitas, dinheiro e também jornalistas — uma das medidas adotadas já na era Altice foi a reestruturação que levou à saída de 50 a 100 pessoas da redação. Dubois está há um ano no cargo e tem a difícil missão de reinventar no digital uma publicação que está em terceiro lugar num mercado disputado por quatro news magazines.

As redações do L’Express e do Libération partilham o mesmo piso

O site do L’Express até tem bastante tráfego, mas isso não equivale a receitas que permitam cobrir o défice do papel. O projeto passa por fechar conteúdos diferenciados e de valor acrescentado e começar a cobrar, a partir de um número determinado de consultas. A ideia é a de manter algumas coisas grátis. Dubois acredita que as pessoas estarão dispostas a pagar quando os conteúdos são interessantes e fornecidos por uma marca de referência. Ainda que sejam um pequena percentagem dos atuais visitantes do site, num mercado com a dimensão do francês podem ser suficientes para travar as perdas. O diretor diz que os seus principais concorrentes têm sites abertos. “Vamos ser os primeiros, mas não temos nada a perder”.

O plano passa por fundir as redações — online e escrita, um projeto que está a deixar alguns dos jornalistas da casa ansiosos (mas também há aqueles que se mostram confiantes). Dubois afasta um novo corte na redação onde trabalham 120 pessoas até admite que pode precisar de mais. O diretor do L’Express não arrisca, para já, uma meta para o break-even e espera começar a ver algum retorno da nova solução até ao final do ano. Quanto tempo mais pode resistir a edição em papel? A resposta é prudente. No máximo, dez anos.

A capacidade financeira do acionista faz diferença. Também há margens para explorar sinergias com outros meios do grupo. E a convergência com as telecomunicações é a solução? “Não sabemos qual vai ser o futuro, mas estou convencido que uma parte da solução passa por uma parceria nas telecomunicações”. Mas Dubois aponta diferenças entre o que está a acontecer nos Estados Unidos e a estratégia da Altice. É o único operador de telecomunicações que investiu na imprensa escrita. Além de que as operadoras do outro lado do Atlântico estão mais interessadas em produtores de conteúdos do em editores de informação.

E pressões ou pedidos do poderoso acionista? “Está-se mais sujeito a pressão quando se está fraco financeiramente, quando não se tem a certeza de o dinheiro chegar até ao fim do mês”.

A redação do Libération fica no mesmo piso dentro do Campus Altice. O jornal, que tem sido sinónimo da defesa de valores de esquerda, já não é o abrigo para a redação do Charlie Hebdo que acolheu após o ataque terrorista que matou 17 pessoas em 2015. Ficou apenas a mesa de edição do jornal satírico. Mas o Libération continua a ser um jornal que luta por causas, “pequeno, mas forte”, sublinha o seu diretor. Laurent Joffrin conta a história muito resumida de uma publicação que foi de extrema esquerda nos anos 1970 do século passado, mas que evoluiu para uma corrente mais mainstream, mantendo sempre a independência. E conclui que a melhor síntese para plataforma editorial é o título, “libertação” em português.

Originalmente detido pelos jornalistas que o fundaram, não faltaram donos capitalistas ao Libération. Entre os investidores contam-se o empresário francês Jêrome Seydoux, dono dos cinemas Pathé (e avô da atriz Léa Seydoux), a família de banqueiros Rothchild, o dono do italiano do La Repubblica, e o milionário francês Bruno Ledoux que cedeu o controlo no início de 2015 a Patrick Drahi que assumiu a dívida do jornal francês.

O diretor quase sorri quando lhe perguntam sobre a existência de pressões deste ou de outros acionistas. Não acontece, nem sequer tentam, diz Laurent Joffrin que já tinha sido diretor do Libération durante o consulado de Édouard Rotschild. O jornal tem um pacto de não intervenção editorial que os acionistas têm de aceitar. Existe, até, um órgão composto por jornalistas para fiscalizar o seu cumprimento.

O Libération foi pioneiro na cobertura de temas como o ambiente ou os media e viveu os seus melhores anos na década de 1980, quando era visto como um jornal trendy e chegou a vender 300 mil exemplares. As coisas começaram a correr mal na viragem do milénio. Nessa altura, lembra Joffrin, pensava-se que a publicidade online ia crescer muito, mas a Google ficou com o tesouro. Agora, o jornal vende 80 mil exemplares por dia e não disputa a primeira liga dos grandes diários franceses como o Le Monde, o Figaro ou o Parisien.

Tal como o L’Express, também o Libération foi alvo de uma reestruturação na transição entre acionistas que levou à saída de mais de 100 pessoas. Atualmente, tem 185 jornalistas numa redação única que trabalha para a edição impressa e para o online. A aposta no digital está mais avançada, o site tem uma audiência de 2,5 milhões de utilizadores únicos e o número dos que pagam para ler conteúdos premium tem vindo a crescer. Mas ainda não chega.

A jornalista viajou a convite da Altice.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: asuspiro@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site