Seleção Nacional

A equipa que joga por um país brilhou para um país (a crónica do Portugal-A. Saudita)

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Pela solidariedade, pela festa, pelas homenagens e pelos atos, Viseu recebeu mais do que um jogo de futebol. Mas, mesmo sem Ronaldo, a Seleção arrancou com a Arábia Saudita uma noite de gala (3-0).

Getty Images

Este foi o dia em que o futebol, essa indústria que as palavras tantas vezes tratam ao pontapé, se chegou à frente e deu o exemplo. Deu o exemplo em coisas maiores, ao conseguir juntar os três canais generalistas numa mega operação que tinha como principal objetivo ajudar as vítimas dos incêndios do último mês. Deu o exemplo em gestos mais pequenos, como chamar três crianças das zonas mais afetadas para darem o passeio matinal com os jogadores. Por tudo isto e muito mais, este foi mais do que um jogo de futebol (particular, de preparação para o Campeonato do Mundo); este foi o jogo em que uma equipa que joga por um país brilhou para um país.

O ranking da Arábia Saudita (que, convém não esquecer, pode ser adversária de Portugal na Rússia), o histórico nacional contra formações asiáticas (uma única derrota em 12 encontros, naquele desaire com a Coreia do Sul de má memória no Mundial de 2002) e o próprio resultado (apesar de tudo escasso, 3-0) podiam levar a crer que se tratou de um jogo chato, de mero “picar de ponto”. Mas não, não foi mesmo nada disso. E quem mais ganhou dentro de campo foi mesmo Fernando Santos, que tem um leque de escolhas alargado para estudar nos próximos meses (Portugal jogará agora com os Estados Unidos e tem mais particulares em março).

E tudo sem Ronaldo. Pois é, esta noite não houve Cristiano Ronaldo. Mas o mesmo desmultiplicou-se um pouco por todo o lado: em Gonçalo Guedes, no número da camisola e no golo da ordem; em Bernardo Silva, no número de adeptos que se manifestavam quando tocava na bola; em toda a equipa, que teve um compromisso com o jogo e com o grupo como se estivesse a jogar a final do Campeonato da Europa. Até por aí, foi um bom ensaio.

Ficha de jogo

Portugal-Arábia Saudita, 3-0

Jogo particular

Estádio do Fontelo, em Viseu

Árbitro: Sebastian Coltescu (Roménia)

Portugal: Anthony Lopes; João Cancelo (Ricardo Pereira, 46′), Pepe (Edgar Ié, 55′), Luís Neto, Kévin Rodrigues; Danilo Pereira (Rúben Neves, 75′), Manuel Fernandes (Bruno Fernandes, 56′); João Mário, Bernardo Silva (Gelson Martins, 56′), Gonçalo Guedes (Bruma, 75′) e André Silva

Suplentes não utilizados: José Sá, Beto, Nelson Semedo, Antunes, Ricardo Ferreira, Rony Lopes e Gonçalo Paciência

Treinador: Fernando Santos

Arábia Saudita: Alowais; Osama Hawsawi, Othman, Al-Burayk (Al-Harbi, 72′), Al-Shehri (Al-Jassim, 53′), Hazaa (Aseri, 73′), Al-Khaibri (Al-Mousa, 82′), Al-Shahrani, Otayf (Rashid, 82′), Al-Dawsari (Al-Moasher, 66′) e Motaz Hawsawi

Suplentes não utilizados: Waleed Ali, Almuaiouf, Al Fatil, Al Muwallad, Khubrani, Al Sulayhim, Fallath e Muwashar

Treinador: Edgardo Bauza

Golos: Manuel Fernandes (32′), Gonçalo Guedes (52′) e João Mário (90′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Pepe (24′) e Al Dawsari (42′)

Com Kévin Rodrigues, uma espécie de Raphäel Guerreiro versão 2.0 mais novo e com potencial para evoluir, a fazer a estreia no lado esquerdo da defesa, Manuel Fernandes a regressar à Seleção Nacional cinco anos depois e Gonçalo Guedes a mostrar-se a Fernando Santos num dos melhores momentos da carreira, Portugal teve desde o primeiro minuto um jogo fluido, com variações de flanco, combinações ofensivas e transições que nunca permitiram aos sauditas criar perigo para a baliza de Anthony Lopes. Com isso, deu para tudo.

Deu para Danilo, logo aos dois minutos, fazer uma assistência de calcanhar na área à CR7; para João Mário acertar no poste num remate de meia-distância (9′); para Gonçalo Guedes cair sozinho quando ia isolado para a área com a ânsia de corrigir um falhanço incrível ao segundo poste após canto (15′). Mas quem mais brilhou foi mesmo Manuel Fernandes, que voltou a ser aquele “Manelele” que saiu do Benfica para a Premier League como uma certeza no Verão de 2006, andou pelo Valencia e pelo Besiktas e conseguiu agora, aos 31 anos, ganhar uma segunda vida no Lokomotiv Moscovo.

Seria mesmo o médio, entre tantas oportunidades falhadas, a marcar o único golo até ao intervalo, numa jogada que mostrou bem a qualidade exibicional e, em paralelo, a confiança com que a equipa jogou: variação de flanco fantástica de Danilo com o pé esquerdo para a direita, jogada de Gonçalo Guedes até à linha de fundo, assistência para a entrada de Manuel Fernandes e tiro na passada a deixar o guarda-redes saudita pregado ao chão (32′).

Logo a abrir o segundo tempo, Ricardo Pereira, que rendera João Cancelo ao intervalo, candidatou-se também a um lugar no Mundial numa posição que tem ainda Cédric Soares e Nélson Semedo como o principal destaque em mais um grande lance coletivo que passou ainda pelos pés de Bernardo Silva, teve o cruzamento atrasado do lateral e o remate certeiro de primeira de Gonçalo Guedes, que fez o 2-0 e manteve a veia goleadora do Valencia (52′).

Aproveitando a vantagem mais confortável, Fernando Santos promoveu uma série de estreias na Seleção A como Edgar Ié, Bruno Fernandes ou Bruma, mas foi Gelson Martins que deu show a jogar e André Silva que manteve a malapata na hora de marcar. João Mário, que entretanto passou a envergar a braçadeira de capitão, viria a aumentar a vantagem para 3-0, fixando o resultado final com um remate colocado de fora da área (90′).

A intensidade e a qualidade da Seleção Nacional acabou por retirar história ao jogo (a Arábia Saudita pouco ou nada fez do meio-campo para a frente). Mas este vai ficar como um jogo para a história. A todos os níveis.

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