Belmiro de Azevedo

Os negócios que Belmiro não conseguiu fazer e como culpou os governos

O maior empresário nacional orgulhava-se de ter construído o seu império sem ajudas do Estado. Belmiro queixava-se dos governos que lhe travaram alguns dos maiores negócios.

Com José Sócrates, quando este era primeiro-ministro, com Pedro Queiroz Pereira, o investidor que lhe ganhou a Portucel, atrás

A carreira de Belmiro de Azevedo faz-se de muitas guerras com os sucessivos governos e decisões que se atravessaram na sua estratégia empresarial. O caso da OPA (oferta pública de aquisição) falhada sobre a Portugal Telecom é o mais conhecido, mas está longe de ser o único, ou até o primeiro na história de um empresário que fez gala de construir o seu grupo não só sem a ajuda do Estado, mas até, em diversas situações, contra o poder político.

O núcleo duro que perdeu o BPA

Um dos maiores conflitos, que deu de origem a processos em tribunal, foi aquele que travou pelo controlo do Banco Português do Atlântico (BPA).

Conhecido como escola de ministros e o maior banco comercial português, excluindo a Caixa Geral de Depósitos, o BPA era uma instituição do norte a que um homem de negócios do norte não podia ser indiferente. Quando, em 1994, o BCP de Jorge Jardim Gonçalves lança uma oferta pública de aquisição (OPA) surpresa sobre o BPA, Belmiro era o maior acionista. Não tinha controlo e mantinha uma relação difícil com o então presidente do banco, João Oliveira, que teria recusado financiamento a um projeto simbólico para a Sonae, o Centro Comercial Colombo.

Acabado de chegar ao Ministério das Finanças como membro do último Governo de Cavaco Silva, Eduardo Catroga tinha a missão de resolver os problemas da banca. Precisava de reconquistar o Totta & Açores aos espanhóis do Banesto, então liderado por Mário Conde, e de concluir a privatização do BPA. Mas os acionistas privados deste banco, em grande parte empresários do norte, não estavam em sintonia, nem com o Governo, nem entre si, e faltava liquidez — contava-se que teria sido o próprio BPA a financiar estes acionistas na compra de ações do banco. Estas divisões criaram o terreno favorável à OPA do BCP.

Eduardo Catroga foi o ministro das Finanças que decidiu contra Belmiro de Azevedo no BPA

Numa primeira decisão, Catroga alinha com a posição dos privados do BPA, o famoso “núcleo duro” comandado por Belmiro de Azevedo, recusando vender a posição do Estado ao BCP. Mas Jardim Gonçalves aprende com a derrota na primeira batalha e realinha a estratégia, lançando uma segunda OPA sobre o BPA, agora sobre a totalidade do capital e apoiado pelo Grupo Mello. Com o Governo de Cavaco Silva a gastar os últimos cartuchos, estamos no final de 1994, Catroga precisava de fechar o dossiê e garantir as receitas para o Estado, e dá “luz verde” à OPA, passando por cima dos acionistas do norte e de Belmiro de Azevedo.

O empresário confronta o ministro das Finanças com a carta de compromisso que o Governo de Cavaco Silva tinha assinado com os acionistas privados a quem prometia vender o resto do BPA, mas Catroga responde que o contexto mudou. A única alternativa é a de lançar uma oferta concorrente ao BCP, mas Belmiro de Azevedo não tinha fôlego financeiro para o fazer sozinho, precisava de aliados internacionais e o controlo estrangeiro da banca ainda era um tabu para o poder político.

No decorrer desta guerra, Belmiro de Azevedo reúne-se com o então primeiro-ministro, Cavaco Silva, e com o líder da oposição, e futuro primeiro-ministro, António Guterres. Mas em vão. Esta seria uma das grandes queixas do empresário contra as decisões políticas.

O BPA foi o passo decisivo para o BCP criar o maior banco privado português. Apesar de ter perdido, Belmiro de Azevedo ganhou com a venda das suas ações na OPA, um resultado que voltou a acontecer em outros negócios falhados. Depois desta tentativa, o patrão da Sonae não voltaria a investir na banca. Mas o braço-de-ferro com o Governo por causa de uma empresa em privatização viria a repetir-se dez anos depois.

A tentativa de fusão com a Jerónimo Martins

Na segunda metade dos anos 1990, com a prosperidade económica e o acesso facilitado a crédito barato que antecipou o adesão ao euro, todas as grandes empresas tinham planos internacionais, mais ou menos ambiciosos. O Governo de António Guterres apontou o Brasil como mercado de eleição e as empresas seguiram com investimentos avultados. Primeiro as empresas públicas, depois os bancos e as privadas.

A Sonae e a Jerónimo Martins investiram fortemente no mercado de distribuição brasileiro. Os dois projetos correram mal, mas, no caso de Belmiro de Azevedo, as perdas foram amortecidas por um conveniente parceiro público. O investimento foi feito em associação com a IPE, uma holding do Estado, numa parceria muito polémica, atacada pelo líder da oposição, Marcelo Rebelo de Sousa, então presidente do PSD. A alegada ajuda pública à Sonae motivou uma comissão parlamentar de inquérito que ficou conhecida sobretudo pela imposição de Belmiro de Azevedo aos deputados. Só aceitaria ser questionado numa audição se fosse às oito da manhã e assim foi.

O rescaldo dos maus negócios feitos no Brasil ajudou a empurrar os dois maiores grupos de distribuição para um cenário de fusão das operações em Portugal na viragem do milénio. A operação nunca chegou a ser anunciada formalmente, mas terá sido discutida entre os dois líderes. O Governo socialista na época, com Joaquim Pina Moura no cargo de “super-ministro” da Economia e das Finanças, terá avisado que o preço a pagar pela concentração seria elevado. O novo grupo teria de vender muitas das lojas para evitar um chumbo por razões de concorrência. A fusão não chega a ir para a frente.

Em meados da década de 1990, os bancos já estavam quase todos privatizados, mas ainda faltavam as grandes empresas industriais e de infraestruturas. E a chegada do PS ao poder em 1995 não travou o processo iniciado com Cavaco Silva. Até o acelerou. O dono da Sonae não deixou de olhar para as grandes empresas que iam para o mercado, mas a estratégia escolhida de venda por dispersão do capital em bolsa — um modelo que usou nos anos 1980 para captar capital sem perder o controlo — não combinada com um empresário que gostava de mandar nos investimentos que fazia.

Belmiro de Azevedo conseguiu fazer algumas operações com o Estado, como a compra e recuperação da Torralta, mas os negócios que correram mal deram mais nas vistas.

A Portucel e a OPA que Belmiro não quis lançar

A Portucel/Soporcel (hoje Navigator) foi uma das poucas empresas privatizadas pelo Estado que interessou à Sonae, talvez porque Belmiro sempre valorizou a origem industrial do grupo. A Sonal entra na Soporcel ainda na década de 1990 e depois assume uma posição de 25% na Portucel. As duas empresas seriam fundidas num único grupo cuja privatização foi concluída pelo Governo de Durão Barroso. Mas também neste caso o plano do Executivo não viria a encaixar-se na estratégia da Sonae que mantinha divergências com o Ministério da Economia sobre o modelo da operação.

Carlos Tavares foi o ministro da Economia que conduziu a privatização da Portucel, ganha por Pedro Queiroz Pereira

Belmiro de Azevedo disse ao ministro Carlos Tavares que não tinha disponibilidade para lançar uma OPA sobre a empresa de papel, o que teria de fazer caso comprasse a participação do Estado porque a Portucel tinha capital na bolsa. A Sonae queria uma solução que lhe desse o controlo, mas não que custasse uma OPA, ou seja, o que implicava comprar todas as ações que não controlava. Quando ouviu um “não”, afastou-se do processo. A Portucel foi disputada por dois grupos nacionais, a Cofina e a Semapa, de Pedro Queiroz Pereira. Este grupo ganhou a corrida e, como mandam as regras do mercado, lançou uma oferta pública de aquisição (OPA).

A Sonae vendeu a sua participação em 2004, saindo sem chegar a ir a jogo, mas encaixou uma mais valia de quase 90 milhões de euros. Pouco depois, anuncia um processo contra o Estado e a Portucel por violação das regras de privatização de uma empresa menor no universo do papel, a Gescartão. Numa entrevista dada ao Semanário Económico, acusou os ministros de gostarem mais de mandar nas empresas do que “participar na boa gestão do pais”. E sobre Carlos Tavares, revelou: “já lhe disse que não voltava a falar com ele”.

O lançamento do jornal Público em 1990 foi o primeiro passo naquele que seria um projeto para criar um grupo de media, a pensar na abertura da televisão a investidores privados. Mas a Sonae acabou por não concorrer e a comunicação social viria a ter um sabor agridoce para Belmiro de Azevedo. Ao longo dos anos, foram muitas as frases menos simpáticas que disse sobre o seu jornal, queixando-se dos prejuízos constantes. Certo é que a Sonae nunca deixou cair o Público que escolheu para dar várias entrevistas. E se o jornal perdeu dinheiro, houve outros negócios que perderam muito mais, como a área industrial que o grupo mantém hoje, embora sujeita a várias reestruturações.

Apesar de não ter insistido na comunicação social, a Sonae nunca perdeu de vista as telecomunicações e, em 1998, em plena euforia do mercado, cria o terceiro operador de telemóveis em Portugal, em parceria com a France Télécom.

A OPA gigante que caiu sem ir ao mercado

A Otimus chega tarde a um mercado disputado por dois fortes concorrentes, a Telecel (hoje Vodafone) e a TMN (atual Meo). Pouco tempo depois, o Governo promove um novo operador de telecomunicações, a ONI, que resultou de uma parceria entre a EDP, o BCP e a Brisa. Por esta altura, o mercado sofre os efeitos do rebentamento da bolha das TMT (tecnologias, media e telecomunicações). O maravilhoso mundo novo da Internet e da convergência com as telecomunicações ainda ia demorar alguns anos a ganhar expressão.

O terceiro operador móvel não tinha muitas hipóteses de se impor num mercado muito competitivo, precisava de ganhar músculo e escala. Para a Sonae, a escolha era simples: ou dava um salto de gigante ou saía do negócio. Depois de perder a Portucel, ficou com margem para apostar a sério noutra operação. Belmiro lança-se naquele que seria não apenas o seu maior negócio. Se tivesse ido para a frente.

Em 2006, a opinião dos empresários sobre o novo primeiro-ministro socialista é positiva. José Sócrates chega ao poder com vontade de tomar decisões, de as executar e enfrentando alguns lobbies económicos. No discurso, o primeiro-ministro é favorável à concorrência, defende que a Galp e a EDP devem disputar o mercado da energia, e manifesta-se aberto ao investimento privado. São anos de grandes negócios que vão durar até à crise financeira de 2008. Em fevereiro de 2006, a Sonae lança uma oferta pública de aquisição sobre a Portugal Telecom, uma operação de mais de dez mil milhões de euros, a maior de sempre em Portugal.

Zeinal Bava fez parte da comissão executiva da PT que lutou contra a OPA de Belmiro de Azevedo

Belmiro de Azevedo falou com José Sócrates, avisando-o da operação em termos que explicou em entrevista, três anos depois.

Foi a única vez que, com o meu filho Paulo, e pela dimensão do projeto, decidi ir falar com o primeiro-ministro e por uma razão simples: era uma OPA hostil e um dos acionistas era o Estado com uma golden-share. Se o governo nos tivesse dito nessa altura que ‘não’, que seria contra a venda da PT, nós não teríamos lançado a operação. [Sócrates] Ficou muito espantado e elogiou imenso a ousadia da Sonae. Por isso, avançamos. Só que, quando mandou votar, deu ordens contra a proposta da Sonae”, afirmou.

Belmiro de Azevedo contou, ainda, que José Sócrates terá colocado três condições:

  • “Não queria ter problemas com a comunicação social, teria de ser a Sonae a convencer os jornalistas da bondade da operação. Essa condição foi cumprida, pois a opinião pública era favorável à nossa operação”.
  • “A Autoridade da Concorrência teria de se pronunciar, o que fez, recomendando remédios que foram aceites e acordados”.
  • “Teríamos de convencer os acionistas [da PT], o que já sabíamos. Não esperávamos é que o Estado votasse contra”.

Um ano depois, e apesar da revisão em alta do preço e do “sim”, ainda que condicionado, da Autoridade da Concorrência, a OPA da Sonae cai na assembleia-geral da Portugal Telecom, Os votos dos acionistas liderados pelo grupo de Ricardo Salgado chumbaram a operação. A Caixa, então liderada por Carlos Santos Ferreira e com Armando Vara na administração, votou ao lado do BES e contra a Sonae. A OPA não chegou a fazer o teste do mercado.

Intervenção do Governo ou o sucesso das fabulosas compensações que a PT, gerida por Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, ofereceu aos acionistas? Talvez uma combinação das duas. Mas ainda não se conhecia a história toda.

Nos anos que se seguiram, Belmiro de Azevedo sempre defendeu que foi o Governo de Sócrates a chumbar a OPA. Uma leitura que os críticos acusavam de teoria da conspiração, mas que ganhou credibilidade com a investigação da Operação Marquês. Alguns dos alegados crimes imputados ao ex-primeiro-ministro estão sustentados no dinheiro que terá recebido de Ricardo Salgado para travar esta operação, segundo a acusação do Ministério Público.

A Sonae não deixou cair as telecomunicações, reforçou o investimento e conseguiu fazer a fusão entre a Optimus e a ZON. Esta operação só foi possível porque a PT, para se defender da OPA da Sonae, ofereceu aos seus acionistas a PT Multimedia, antecessora da ZON. Com uma Portugal Telecom enfraquecida, que resultou na sua venda aos franceses da Altice, a NOS ganhou força e é agora a grande concorrente da operadora que Belmiro quis comprar há mais de dez anos.

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