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Eurogrupo. A eleição que Centeno tem pela frente

Mário Centeno tem fortes apoios e é favorito, mas a história já demonstrou que, no que ao Eurogrupo diz respeito, é melhor não deitar os foguetes antes da festa, como o governo espanhol se lembrará.

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ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Ter o apoio da Alemanha, França, Itália e Espanha pode fazer de Mário Centeno o grande favorito na eleição para a presidência do Eurogrupo, que se realiza esta segunda-feira, mas as negociatas de bastidores e as reviravoltas inesperadas nunca podem ser descartadas na política europeia, em especial no discreto grupo de ministros das Finanças da zona euro.

Portugal soube esperar e atacar os apoios que precisava para que o ministro das Finanças português avançasse com confiança para tentar a liderança do mais poderoso – e menos claro – grupo da política europeia. Mas nem a ‘não-campanha’ foi fácil, nem a eleição o deverá ser.

Mário Centeno deverá mesmo ser o candidato oficial dos socialistas europeus, mas isso não impediu o ministro das Finanças eslovaco, Peter Kazimir de avançar com uma candidatura. Kazimir está longe de ser querido pela sua ala política, mesmo depois de liderar o Ecofin recentemente, durante a presidência eslovaca.

Conhecido como precipitado, pouco diplomata e mais socialista apenas no cartão partidário – tem se colocado do lado da Alemanha e da ala mais conservadora nos debates mais importantes -, Peter Kazimir não tem apoio entre os socialistas, mas pode provocar alguma dispersão de votos, especialmente dos países mais a leste.

A Eslováquia tem tentado usar o argumento da igualdade, já que nunca houve um responsável de um país de um país de leste que tivesse sido escolhido para liderar qualquer uma das mais importantes instituições em Bruxelas e, muito recentemente, a sua candidatura para receber na sua capital a Agência Europeia do Medicamento nem sequer passou a primeira ronda, apesar de ser vista como uma das favoritas.

Mas não é só a Eslováquia que tenta este argumento. Dana Reizniece-Ozola, ministro das Finanças da Letónia há cerca de dois anos, e anteriormente ministra da Economia, também se candidatou ao cargo, apesar de não se lhe conhecer apoio de algum partido ou país com mais peso.

A antiga campeã de xadrez é uma relativa desconhecida na política europeia e o seu país pode nunca ter liderado nenhuma instituição importante, mas tem uma das vice-presidências mais importantes da atual Comissão Europeia: Valdis Dombrovskis, que acumula a pasta do Euro, do Semestre Europeu e dos Serviços Financeiros (desde o referendo do Brexit).

Ainda assim, Dana Reizniece-Ozola também tenta usar a seu favor ser oriunda de um país de leste. Além disso, é uma das poucas mulheres numa Europa que tarda em responder à questão da paridade, como se viu quando Jean-Claude Juncker tentou montar a sua equipa na Comissão.

Mas o maior perigo virá sempre do Luxemburgo. Pierre Gramegna avançou com a sua candidatura, mesmo sem apoios à direita – o PPE não apontou um candidato – e prontamente houve acusações de jogatanas política e manipulação da corrida da parte do Luxemburgo e dos liberais.

Os liberais queixam-se de serem preteridos mais uma vez de um alto cargo quando estão na frente de um largo número de governos na Europa, já que todos os lugares de todo estão entregues ao centro-direita, e acham que é chegada a vez de ser um liberal a liderar o Eurogrupo – antes estiveram o centro-direita (Jean-Claude Juncker) e os socialistas (Jeroen Dijsselbloem).

No entanto, Gramegna tem contra si não só a falta de uma estrutura de apoio forte, com a que terá Centeno, mas também o facto de ter sido um luxemburguês quem esteve mais tempo no cargo, o mesmo que é atualmente presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.

Rasteiras, jogos de bastidores e o fator desconhecido

Outra questão é que, além das virtudes naturais dos candidatos, muita da eleição do presidente do Eurogrupo passa por acordos políticos. Acordos entre partidos, acordos entre países, acordos entre blocos regionais e acordos para determinados cargos.

Que o diga a Espanha. Na última eleição para a presidente do Eurogrupo, Angela Merkel deu o seu apoio público a Luis De Guindos para suceder a Jeroen Dijsselbloem, depois de ter chegado a um acordo com o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, muito semelhante ao que terá com o primeiro-ministro português.

No entanto, à última hora a Alemanha retirou o seu apoio, por uma decisão do então ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble, e decidiu apoiar o holandês na sua reeleição. Luis De Guindos forçou uma votação no Eurogrupo, algo pouco comum, e acabou mesmo por perder contra o holandês.

Este ano, há mais em jogo. Pela primeira vez foi aberto um procedimento público para os candidatos se apresentarem, com critérios definidos e um procedimento de votação formal para algo que é normalmente decidido antes da reunião e em conversa para se chegar a um consenso.

Ainda assim, depois das queixas dos liberais, a Alemanha já veio dizer que não garantiu o seu apoio a nenhum candidato, apesar das palavras do primeiro-ministro português este fim-de-semana em Lisboa.

Mas mais importante na decisão do escolhido para este cargo pode ser quem vai ocupar os restantes cargos abertos. A vice-presidência do Banco Central Europeu – Vítor Constâncio sai em maio e Luis De Guindos está de olho no cargo desde março, pelo menos – e a presidência do Grupo de Trabalho do Eurogrupo – o grupo onde as decisões são trabalhadas e fechadas, antes de ratificadas pelo Eurogrupo – serão decididas também agora em dezembro.

Há quem esteja a pensar ainda mais longe, caso dos alemães, que já estão a preparar Jens Weidman, governador do Bundesbank, para a presidência do BCE, depois de frustrada a entrada de Alex Weber, que saiu para a banca privada e abriu a porta a que Mario Draghi se tornasse presidente.

Mário Centeno é favorito, tem uma grande base de apoio, mas a história tem mostrado que, especialmente na Europa, o melhor mesmo é não deitar os foguetes antes da festa.