Espanha

O caso de violação La Manada. “Está claro que dor não sentiu”

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Cinco homens são acusados de terem violado uma jovem de 18 anos nas Festas de São Firmino, em Espanha. O Ministério Público pede 22 anos de prisão. O juiz parece estar do lado dos acusados.

A violação terá acontecido nas Festas de São Firmino, na cidade espanhola de Pamplona

Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

Advogado de um dos acusados: Naquele momento, em que as relações começaram, estava — permita-me a pergunta — excitada?

Vítima: Bem, não me lembro. Não, não sei. Tinha acabado de beijar um rapaz, mas não tanto para ficar excitada

Advogado: Em todos os relacionamentos que manteve ao longo daqueles minutos, sentiu dor?

Vítima: Não me lembro. Não me lembro de nada sobre os relacionamentos, então não posso dizer se houve penetração anal ou vaginal ou quantos relacionamentos eu fiz.

O advogado já tinha avisado, logo no início do julgamento:

As perguntas que vou fazer são, provavelmente, desagradáveis e difíceis de aceitar à primeira.”

Na madrugada de 7 de julho de 2016, durante as Festas de São Firmino — que acontecem todos os anos entre 6 e 14 de julho na cidade espanhola de Pamplona — uma jovem de 18 anos terá sido violada por cinco rapazes.

Há quem defenda que o juiz está do lado dos acusados e estava a julgar a vítima. O Ministério Público pede 22 anos de prisão. A vítima pede 24. Os advogados de defesa pedem absolvição.

O caso ficou conhecido por “La Manada” por ser o nome do grupo no WhatsApp que os rapazes usavam para comunicar e onde elaboravam os planos para violar jovens.

“Disse que poderia fazer sexo com os dois que se sentaram no banco? Ou com os cinco?”

Tinha chegado a Pamplona no tarde do dia anterior. Veio de carro, acompanhada de um amigo e de álcool. Dirigiram-se à Plaza del Castillo.

Havia música e tal. Levámos o álcool que trouxemos, fomos até à praça e ficámos lá a noite toda”, contou a jovem, durante o julgamento.

Lá conheceram dois grupos de pessoas — um tinha vindo de Palencia e outro de Castellón — e por lá ficaram. Às 1h30 da madrugada, o amigo que veio com ela “decidiu ir ao carro porque estava muito cansado por ter conduzido o dia todo”. A jovem ficou com o grupo mas, entretanto, perdeu-os de vista. Sentou-se num banco porque “também estava cansada e esperou “para ver se os via ou se eles respondiam no Whatsapp“. A jovem tinha ficado com o contacto de um membro do grupo de Palencia.

Enquanto esperava, apareceu um rapaz que se sentou a seu lado e a convidou para ir a uma festa. Conversaram. O rapaz contou-lhe que era de Sevilha. “Falámos sobre futebol, sobre a tatuagem que eu tenho”, recordou a jovem. A jovem disse-lhe que estava acompanhada mas o amigo estava a dormir no carro e tinha-se perdido dos outros. O rapaz informou-a de que também estava acompanhado. “Bem, eu também vim com alguns amigos e também temos que ir dormir para o carro”, terá dito o jovem. Esses amigos acabaram por aparecer.

O jovem acusado disse, no entanto, que “a conversa tinha um conteúdo sexual mais explícito”. “Bem, vens de Sevilha. Nunca conheci um sevilhano. Nunca estive com um sevilhano”, terá dito a jovem — embora tenha negado — de acordo com os acusados.

Vítima: Não, não, não, não, em nenhum momento falámos sobre isso.

Advogado: Eles não falaram sobre sexo ou fizeram piadas sobre isso?

Vítima: Não, nada.

Advogado: Nem disseram o que gostavam de fazer a cada um, nem… Não falaram sobre isso?

Vítima: Não, não. Não me lembro dessa conversa, não.

Advogado: Pode ser que em certo momento, mesmo a brincar, tenha dito que nunca esteve com um sevilhano e que gostaria de estar com alguém.

Vítima: Nunca estive com um sevilhano, mas não me lembro desse comentário.

Advogado: Quando já estava naquela conversa e o resto dos jovens [do grupo] se aproximaram, disse que poderia fazer sexo com os dois que se sentaram no banco? Ou com os cinco?

Vítima: Não, não, não, não.

Advogado: O que poderia fazer com todos?

Vítima: Não, não me lembro desse comentário.

Advogado: Nem a brincar?

Vítima: Não.

Advogado: Há momentos em que se pode entrar numa conversa que é mais picante, na brincadeira. Isso não significa que quisesse, mas nem se lembra disso?

Vítima: Não, não me lembro de nenhuma conversa que mencionou algo sobre sexo.

Sozinha, a jovem decidiu ir até ao carro para descansar. O grupo de rapazes ia seguir a mesma direção e quis acompanhá-la. “Oh, está bem, nós vamos contigo”, terão dito, de acordo com relatos da jovem.

“Começou a agarrar o meu ombro, a minha anca e eu comecei a ficar desconfortável”

A meio do caminho até ao carro, a jovem lembra-se de ver alguns dos rapazes do grupo, que iam a caminhar mais à frente, a falar com alguém num hotel. “Não sei se era segurança se era rececionista”, disse a jovem durante o julgamento. Quando chegou perto deles ouvi um deles — não se lembra qual — a dizer “um número e um nome” e depois a pessoa do hotel com quem estava a falar disse que não tinham nenhum quarto. “Eles não me disseram que estavam à procura de um quarto mas não me surpreendeu: afinal, dormir num carro é muito desconfortável. Era normal que eles estivessem à procura de um quarto. Não achei estranho”, disse a jovem de 18 anos durante o julgamento.

Advogado: Eles disseram, em algum momento, que estavam à procura de um quarto para fazer sexo consigo?

Vítima: Não.

Advogado: Você, em algum momento, lhes disse para procurar um quarto para fazerem sexo?

Vítima: Não, não disse isso.

Sem hotel, o grupo voltou para trás, percorrendo o caminho que já tinha feito. Foi nesse momento em que o rapaz que se tinha sentado ao lado da jovem no banco começou a agarrá-la. “Começou a agarrar o meu ombro, a minha anca e eu comecei a ficar desconfortável”, disse a jovem durante o julgamento, acrescentando que, nesse momento, decidiu mudar de direção e ir para o carro.

Fiquei chateada mas não pensei que acontecesse o que aconteceu. Não pensei em pedir ajuda até porque não havia ninguém na rua a quem eu pudesse recorrer. A Plaza del Castillo estava lotada. Nos arredores… estavam três pessoas”, disse a jovem.

O grupo de rapazes continuou a seguir a jovem de 18 anos. Um deles aproximou-se dela e beijou-a. “Eu não recuei porque não o considerei. Ele ia dar-me um beijo e era só isso”, explicou. Enquanto o rapaz a estava a beijar, um outro — o rapaz que se sentou a seu lado no banco na Plaza del Castillo — disse-lhe: “Anda, Anda”. Nesse momento, o rapaz que a estava a beijar agarrou-lhe no pulso e puxou-a para uma entrada de uma garagem. “Repito o mesmo novamente: nunca pensei no que aconteceria a seguir”, disse a jovem.

“A única coisa que ouvi eram risos e «vá, vá, é a minha vez»”

Taparam-lhe a boca com a mão para não fazer barulho. A jovem não se lembra do local onde aconteceu. Lembra-se que lhe desabotoaram a camisola e tiraram o soutien enquanto outro rapaz lhe agarrava na anca e baixou as calças e as calças. Recorda-se de lhe terem puxado o cabelo.

E já naquele momento eu estava totalmente chocada. Não sabia o que fazer. Só queria que passasse e fechei os olhos para não ver nada e tudo aconteceu rapidamente”, disse a jovem.

Durante o julgamento, a jovem explicou que nem sequer pensou numa maneira de sair dali: “Simplesmente, submeti-me e queria que tudo terminasse e depois saísse. Não importava o que aconteceu”.

Os 5 alegados violadores

  • Jesús Escudero Domínguez, 27 anos – em prisão preventiva em Pamplona. Partilha a cela e o advogado com outros dois acusados: José e Ángel.
  • José Ángel Prenda Martínez, 27 anos – em prisão preventiva em Pamplona.
  • Ángel Boza Florido, 26 anos – em prisão preventiva em Pamplona.
  • Alfonso Jesús Cabezuelo Entrena, 28 anos – na prisão militar de Alcalá Meco. Representado pelo advogado Jesús Pérez.
  • A.M.G. – foi pedido que não se divulgasse o nome. Representado pelo advogado Juan Canales. Está na prisão militar de Alcalá Meco.

Advogado: Não é verdade que concordou com eles para fazer sexo?

Vítima: Não não é verdade.

Advogado: Não é verdade que você foi quem ajudou a encontrar um lugar?

Vítima: Não não não.

Durante o abuso sexual, foram tiradas fotografias e gravados seis vídeos da violação: cinco deles por um dos rapazes e o restante por um outro. No julgamento, a jovem disse que não sabia que os rapazes estavam a gravar o momento nem os ouviu a dizer que o iam fazer. “A única coisa que ouvi eram risos e ‘vá, vá, é a minha vez’“, recordou a jovem. A jovem voltou a repetir que não gritou nem fez nada. Apenas fechou os olhos e esperou que a violação chegasse ao fim.

Advogado: Em qualquer caso, dano, dor durante este episódio ficou claro que não sentiu.

Vítima: É que eu não lembro se naquele momento… A única coisa que me lembro é que estava com os olhos fechados e esperar que acabasse.

A jovem acabou por sair do local e sentou-se num banco para tentar perceber onde estava. Depois disso foi levada para o hospital onde fez exames. Está a ser acompanhada por um psicólogo desde setembro de 2016.

Advogado: E quando eles foram embora, como ficou?

Vítima: Estava nua, com as calças para baixo mas… vesti-me e pus a camisola e o soutien e procurei o meu telemóvel para ligar para o amigo com quem tinha vindo e não encontrei isso. Foi quando percebi que o meu telemóvel tinha sido roubado.

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