Crítica de Música

O meu nome é Colter Wall e quero ser o maior cowboy vivo

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Um canadiano de 22 anos que respeita todos os clichés da escola folk-country da América do Norte. Parece coisa de concurso de talentos mas ouçam uma canção, nem que seja só uma.

Chris Graham

Há várias razões que levam uma boa voz da folk ou da country norte-americanas a mexer com os ouvidos que lhe dão atenção. Seguem aqui alguns exemplos:

Aquela vontade de um dia andar a cavalo como fazem as pessoas que de facto andam a cavalo. Nem que seja uma vez na vida, nem que seja por causa daqueles últimos três copos a mais, chegará o momento em que vamos desejar saber e poder fazê-lo rumo a um horizonte danado de cinematográfico. Tem a ver com liberdade, sonho e nenhum traço de destino pela frente. E esta música é a banda sonora perfeita para imaginarmos essa maravilha.

Os tais copos: virar um após o outro e aguentar a destilação sem deixar o orgulho ficar ferido. Ultrapassar a situação e sobreviver para contar, ser o rei da noite mesmo que de manhã não nos lembremos de nada, quem me dera, quem nos dera ter uma história para contar.

Usar ganga de acordo com o propósito que lhe deu origem. Tecido para gente que trabalha e que dá o corpo à terra e ao ferro. Fora a pinta que tudo isto junto dá.

“Colter Wall”, disco homónimo do músico canadiano (Essential – Young Mary’s/Popstock)

Uma guitarra bem tocada e uma voz bem bebida levam qualquer um a pensar em coisas destas, nem que seja por causa de filmes a mais (se é pecado, é um dos que vale a pena). Mas com Colter Wall, a coisa pia de outra maneira. E sobretudo porque se há coisa que este canadiano não faz é piar, não senhor. Voz grossa aos 22 anos, mas com uma roquidão que parece ser prima direita de Johnny Cash, daquelas que fumam e bebem à séria desde que foi possível chegar à garrafa.

Ainda assim, e apesar deste vozeirão que surpreende qualquer um, não é só a laringe forrada a gravilha que amplifica o efeito deste disco. Não é só a simbologia, a coolness do cigarro que não apaga. O pacote completo é uma enorme mais valia para o senhor que ora toca com banda ora se apresenta em modo one man band, com um bombo nos pés. Mas é só mais um elemento. Colter Wall faz mais duas coisas de forma extraordinária. “Duas” parece coisa pouca, mas não é.

A primeira é tocar guitarra como fazem os que — quase que juro aqui — nasceram numa manjedoura de seis cordas. Não importa o solo mais arrojado nem o som pioneiro. Importa sim o virtuosismo elegante de quem faz melodia, harmonia e ritmo, tudo ao mesmo tempo, tudo no mesmo dedilhar convicto e nervoso.

A segunda é a maneira como Colter conta as histórias. Porque é isto que o senhor Wall gosta de fazer: contar histórias. Foi assim que a folk e a country nasceram, para acompanhar musicalmente quem narrava contos de amor e desamor, de pobreza e conquista, de luta e resignação ou de crime, morte e sangue, com as chamadas murder ballads.

Colter Wall fez um álbum homónimo em que junta tudo isto e em que a primeira audição descobre todo o eixo que vai de Johnny Cash a Bob Dylan, de Townes Van Zandt até à melancolia solitária de um Tom Waits a vaguear pelos primeiros bares que lhe deram guarida, enquanto nas colunas passam velharias de Merle Haggard e Waylon Jennings, dois dos maiores fora-da-lei que já pegaram numa guitarra.

“Thirteen Silver Dollars” e “Trascendent Ramblin’ Railroad Blues” mais aquela ideia romântica de que um comboio pode salvar uma vida, sobretudo quando não se sabe o destino; “Codeine Dream”, “You Look To Yours” e “Bald Butte”, sempre em baixa rotação, num alpendre qualquer de uma terra onde as noites parecem mais quentes que os dias e as memórias são mais suadas que aquilo que os olhos veem a horas certas; “Me and Big Dave” fala da amizade entre cercas que rodeiam o gado, saloons com más companhias e outras coisas boas do género, mas também fala de vidas em risco, de gente que precisa ser salva; “Fraulein” presta vassalagem à tradição, a do romance e a da country; e “Kate McCannon”, com versos que relatam um assassinato apaixonado mas cruel, é perfeita. Simplesmente perfeita.

Mesmo quando parece meio sonhador, Colter Wall canta sobre abuso, perda, sofrimento e solidão. Mesmo quando parece um conjunto de clichés com o chapéu certo, não há nada no artista que não seja verdadeiro e autêntico (incluindo o nome, que é mesmo o dele). É uma alma velha mas isso é um privilégio. Não inventa nada mas seguir as regras também pode ser arriscado, sobretudo em dois mundos onde o preconceito é gigantesco — a juventude e a música country-folk.

Facto: é demasiado fácil ficar preso a gente talentosa e bastante nova que replica de forma perfeita os estereótipos que acumulam décadas de história. É uma coisa meio exótica, é demasiado atraente para não nos roubar a atenção. Mas também isto é um facto: muitos tentam mas poucos são os que fazem a diferença. E se à primeira nota há qualquer coisa em nós que fica preso, é rara a vez em que esse encanto se arrasta ao longo de um álbum inteiro. E com Colter Wall, o músico e o disco, é isso que acontece. Isso e a velha-sempre-nova questão: “Este gajo faz tudo isto só com uma guitarra. E eu, que raio ando eu aqui a fazer?”.

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