Livros

Livro de Humberto Delgado continua fechado a sete chaves

Disputas judiciais que só em 2018 terão andamento impedem a publicação de um romance inédito atribuído ao "general sem medo". É incerto certo se, e quando, poderá a editora avançar.

Humberto Delgado em Beja durante a campanha eleitoral de 1958

DR

Autor
  • Bruno Horta

Um romance inédito do general Humberto Delgado, que deveria ter saído em fevereiro deste ano pela editora Guerra & Paz, vai continuar fechado a sete chaves pelo menos até meados de 2018.

Um dos quatro herdeiros de Delgado recorreu à justiça para impedir a publicação do livro, tendo obtido acórdão favorável do Tribunal da Relação de Lisboa. Entretanto, acionou outros dois procedimentos: um de âmbito mais vasto, relacionado com a herança do general, e outro em que exige da editora uma indemnização por danos morais. Só a partir de maio de 2018 esses procedimentos terão andamento na justiça, de acordo com informações parcelares recolhidas pelo Observador.

Em causa está um conjunto de 185 páginas dactilografadas, sob o título Elsa – Romance de Costumes Políticos Portugueses, com data de 1962 e autoria atribuída a Humberto Delgado. A edição em livro foi anunciada pela Guerra & Paz em setembro do ano passado, tendo a ideia partido da Sociedade Portuguesa de Autores, com o acordo da filha do general, a historiadora Iva Delgado, há décadas empenhada na divulgação pública da vida e obra do pai.

No entanto, após o anúncio, Humberto Iva Delgado, filho mais velho do general, interpôs uma providência cautelar junto do Tribunal da Propriedade Intelectual para que a editora não pudesse avançar, alegando não ter sido previamente consultado sobre a iniciativa.

Aquela instância não lhe deu razão, mas o herdeiro recorreu para a Relação de Lisboa e em maio último os juízes decidiram que a publicação do romance está vedada “enquanto se mantiver a falta de autorização” do queixoso, noticiou o jornal Expresso.

Frederico Delgado Rosa, filho de Iva Delgado e biógrafo do general, acredita que o avô começou a escrever o romance em 1959, quando se refugiou na embaixada do Brasil em Lisboa, e que o terminou em 1962, durante o exílio no Rio de Janeiro – depois de ter concorrido às eleições presidenciais de 1958, em cuja campanha proferiu a célebre frase “obviamente, demito-o”, quando questionado sobre o que faria com Oliveira Salazar caso chegasse a Presidente da República. O “general sem medo”, como ficou conhecido, viria a ser assassinado em 1965 numa emboscada da PIDE, a polícia política do Estado Novo.

Cópias de "Elsa – Romance de Costumes Políticos Portugueses”, com data de 1962 e autoria atribuída a Humberto Delgado.

Editora Guerra & Paz divulgou no ano passado imagens do romance atribuído a Humberto Delgado

Segundo o neto, o texto em causa foi descoberto por volta de 2005, quando a entretanto extinta Fundação Humberto Delgado (por intermédio da professora brasileira Luísa Moura) o obteve junto de familiares da secretária de Delgado no Brasil, Arajaryr Campos. O documento foi depois doado ao Arquivo Histórico da Força Aérea portuguesa, onde se encontra em depósito, e chegou ao conhecimento da Guerra & Paz em 2016.

Nos últimos meses, fora do âmbito judicial, a editora dirigida por Manuel S. Fonseca tentou obter consentimento do filho mais velho do general, mas sem êxito. Caso o acordo ainda venha a verificar-se, a Guerra & Paz já fez saber que precisa apenas de dois meses para pôr o livro nas lojas.

Elsa – Romance de Costumes Políticos Portugueses narra a relação entre um militar e uma jovem de origem humilde. “É quase um romance feminista”, referiu no ano passado o neto de Delgado. “Está escrito sob o prisma das mulheres e de como elas são maltratadas, mas é também um romance político, porque a história pessoal da protagonista se cruza com a de um militar que participa num golpe contra Salazar.”

O Observador voltou a contactar esta semana Frederico Delgado Rosa, que não quis fazer comentários. Não foi possível falar com Humberto Iva Delgado.

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