Assédio Sexual

Salma Hayek: “Harvey Weinstein também é o meu monstro”

"Não era ninguém, mas um corpo". Salma Hayek junta-se às atrizes que acusam Weinstein de assédio sexual. Revela ameaças de morte e exigência de cenas de sexo no set de filmagens.

Rich Fury/Getty Images

“Não a tomar banho com ele. Não a deixá-lo ver-me a tomar banho. Não a deixá-lo fazer-me uma massagem. Não a deixar um amigo dele nu fazer-me uma massagem. Não a deixá-lo fazer-me sexo oral. Não a ficar nua ao lado de outra mulher. Não, não, não, não, não…”. A lista é da atriz Salma Hayek e inumera os pedidos feitos pelo produtor norte-americano Harvey Weinstein a que a atriz disse não. “Não acho que houvesse nada que ele odiasse mais do que a palavra «não»”, apontou Salma Hayek.

“Durante anos, ele foi o meu monstro. Nomeadamente, nos últimos 14”. A revelação de Salma Hayek surge num artigo de opinião escrito na primeira pessoa e publicado esta quarta-feira no jornal norte-americano The New York Times. Salma Hayek junta-se assim à lista de mais de duas dezenas de mulheres que acusam o produtor norte-americano Harvey Weinstein de as ter assediado sexualmente.

Salma Hayek recorda as ameaças que sofreu durante as filmagens do filme “Frida”, do qual é protagonista. Weinstein ameaçou tirá-la do filme caso a atriz não aceitasse fazer uma cena de sexo com outra mulher. “E exigiu total nudez”, explicou ainda, acrescentando que o produtor estava sempre a exigir “mais pele à vista, mais sexo” nas filmagens.

Nessa altura, estava claro que ele nunca ia deixar-me acabar o filme sem que tivesse uma fantasia concretizada de uma maneira ou de outra. Não havia espaço para negociar. Tive de dizer que sim“, revela Salma Hayek.

A atriz explica que chegou ao set de filmagens no dia seguinte onde iam “filmar a cena” que a atriz achava que “ia salvar o filme”. “E pela primeira vez e última na minha carreira, tive um esgotamento nervoso: o meu corpo começou a tremer incontrolavelmente”, recorda. Harvey voltou a ameaçar que o filme não ia sair mas tal acabou por acontecer.

A atriz conta ainda um episódio em que o produtor lhe ligou “a meio da noite” a pedir a Hayek para despedir o agente dela depois de Harvey Weinstein ter tido uma discussão com ele. “As táticas de persuasão passavam de falar de forma querida comigo a uma vez, num ataque de fúria, ter dito palavras terríveis, «Vou matar-te, não penses que não posso fazê-lo»”, conta.

Aos olhos dele, eu não era uma artista. Não era sequer uma pessoa. Era uma coisa: não era ninguém, mas um corpo”, escreve a atriz.

Hayek revela que quando a situação chegou ao ponto de receber ameaças de morte, contactou os advogados, embora não o tivesse acusado por assédio sexual, mas de “más intenções”. A atriz tentou sair da empresa de Harvey Weinstein mas o produtor avisou-a que o seu nome não era assim tão conhecido e que era “incompetente enquanto produtora”.

A atriz diz que nunca contou a história por “cobardia” e porque sentia que ninguém queria saber da sua dor: “Talvez tivesse sido um efeito de todas as vezes que me disseram, especialmente Harvey, que eu não era ninguém”. Refere ainda que tem sido contactada por vários jornalistas de diferentes meios a pedir-lhe para contar “um episódio” na sua vida que, “apesar de doloroso”, Hayek pensava que já tinha superado.

Fiz uma lavagem cerebral a mim própria para pensar que tinha acabado e que tinha sobrevivido. Escondi-me da responsabilidade de falar com a desculpa de que já havia pessoas suficientes envolvidas. Não considerei que a minha voz fosse importante, nem que faria a diferença”, escreveu.

O caso do produtor norte-americano Harvey Weinstein, revelado pelo The New York Times, foi o empurrão para as dezenas de outros casos que se tornaram públicos nos últimos meses. Começou por ser uma acusação feita pela atriz Ashley Judd. Num piscar de olhos, várias outras atrizes de Hollywood denunciaram casos semelhantes com o produtor: Angelina Jolie, Cara Delevingne, Rose McGowan e Gwyneth Paltrow são algumas das mais mediáticas das cerca de duas dezenas que dizem ter sido assediadas.

Outras atrizes e celebridades juntaram-se numa campanha contra Harvey Weinstein, como Meryl Streep ou Hillary Clinton. A mulher deixou-o. Weinstein foi demitido da sua própria empresa, a Weinstein Company, e expulso do sindicato de produtores de Hollywood.

Mas afinal, o caso de Weinstein seria o segredo mais mal guardado de Hollywood. Toda a gente conhecia as histórias do poderoso produtor que usava sempre o mesmo método: levava jovens atrizes para o quarto ou pedia-lhes que subissem e aparecia só de roupão, a exigir serviços sexuais a troco de uma carreira no cinema.

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