Arquitetura

Manuel Aires Mateus: “Vou distribuir os 60 mil euros por quem trabalha comigo”

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Vencedor do Prémio Pessoa 2017 encara a distinção como resultado de um trabalho coletivo. "Temos de ter uma arquitetura que se afirme e que substitua o que não tem qualidade", disse ao Observador.

Edifício-sede da EDP em Lisboa é considerado primeiro grande projeto público de Aires Mateus

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  • Bruno Horta
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O que vai fazer com os 60 mil euros do Prémio Pessoa? “Não vou fazer nada”, respondeu o arquiteto Aires Mateus ao Observador. “Os meus colaboradores é que sabem o que vão fazer. Vou distribuir o valor do prémio por quem trabalha comigo. São 55 colaboradores, este prémio também é deles.”

Em conversa telefónica ao início da tarde desta sexta-feira, dia em que o júri do Prémio Pessoa anunciou publicamente que Manuel Aires Mateus é o vencedor deste ano, o arquiteto disse encarar a distinção como “resultado de um trabalho coletivo”.

Em primeiro lugar, destaco que o júri é constituído por pessoas pelas quais tenho o maior respeito. Em segundo, o prémio já foi ganho por dois arquitetos que muito admiro, Souto Moura [1998] e Carrilho da Graça [2008]. Em terceiro lugar, encaro-o como resultado de um trabalho coletivo, por isso, quero dividi-lo como o meu irmão Francisco [também arquiteto] e com todas as pessoas que trabalham connosco.”

Criado há 31 anos, o Prémio Pessoa é uma iniciativa do jornal Expresso e da Caixa Geral de Depósitos. O júri integra 14 pessoas: Francisco Pinto Balsemão, Emídio Rui Vilar, Ana Pinho, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Maria de Sousa, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho-Marques.

O objetivo do prémio é o de “distinguir uma personalidade portuguesa que tenha alcançado destaque nas áreas da cultura, ciências ou qualquer forma de expressão artística”. Será que o laureado deste ano vê a arquitetura como arte?

É uma arte, claro, mas sempre inacabada”, respondeu. “A arquitetura só está acabada quando é utilizada: uma casa precisa de vida, uma igreja precisa da fé no seu interior. Obviamente, se não a entendêssemos como facto artístico, seria absurda.”

Aires Mateus tem 53 anos, é filho de alentejanos (pai de Grândola e mãe de Estremoz) e formou-se na Faculdade de Arquitetura de Lisboa. Tornou-se ainda mais reconhecido nos últimos anos ao desenhar o edifício-sede da EDP, na Avenida 24 de Julho, em Lisboa. A obra foi inaugurada em 2015 e é considerada a primeira grande obra pública de Aires Mateus, o que representará uma nova fase na carreira do arquiteto.

Não vejo a sede da EDP como o trabalho mais importante que fiz, porque não faço distinção entre trabalhos. Todos têm a sua importância. Há um aspeto muito relevante em que nos focamos: o trabalho com casas pequenas, particulares, que normalmente não são faladas, mas que nos pedem um grande trabalho de investigação”, comentou. “O nosso trabalho gravita em torno de vários temas e a casa individual é um dos temas de eleição.”

Neste momento, afirma-se em termos internacionais, desde logo com o Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, em Tours. Mas também o Museu de Design e Arte Contemporânea em Lausanne, que entra em obra dentro de poucas semanas. Espanha, Itália, Grécia, França e Bélgica são os países em que está a trabalhar cada vez mais. “Mas seremos sempre arquitetos daqui, da nossa cidade, da costa alentejana, de Portugal”, resumiu.

Contrariamente ao que acontece nos EUA e em países asiáticos – onde a preocupação fundamental da arquitetura é a de criar imagens e novas identidades para o espaço público –, a arquitetura europeia deve preocupar-se com a herança do passado, segundo Aires Mateus.

“Quando olhamos para uma cidade europeia, vemos que é feita de muitas camadas, com muito tempo. É muito importante que a cidade some camadas, mas que elas não se sobreponham de forma demolidora sobre as outras. Temos de ter uma arquitetura que se afirme e que substitua o que não tem qualidade, mas que que ponha em evidência os traços de qualidade que nos vêm do passado”, afirmou.

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