Cerveja

Lisbon Beer District. No Dia de Reis a rainha é a cerveja

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Três produtores de cerveja artesanal em Marvila -- Musa, Dois Corvos e Lince -- juntaram-se para promover a "sua" zona da cidade de Lisboa. Este sábado, 6 de janeiro, celebram o Dia de Reis em grande.

António Carriço da Lince (à esq.), Bruno Carrilho da MUSA (ao centro) e Tiago Lopes da Dois Corvos (à dir.). Os responsáveis pelo Lisbon Beer District.

Diogo Lopes/ Observador

“Coragem líquida” ou “lubrificante social” são apenas algumas das metáforas utilizadas para descrever o efeito do álcool na convivência entre seres humanos. Todas elas são muito diferentes umas das outras, mas o seu fundo, esse é sempre o mesmo: beber — sempre com moderação — faz de nós pessoas mais sociais, abertas e dispostas a comunicar. Ora é esta mesma ideia que está na base ideológica do Lisbon Beer District (LBD), conceito recente criado por três produtores de cerveja artesanal (MUSA, Dois Corvos e Lince) de Marvila, em Lisboa, que este sábado, 6 de janeiro, organizam a Festa de Reis | Ouro, Incenso e Birra. Antes de passarmos à festa, porém, falemos do início, de como tudo começou.

A coincidência é um fator preponderante na vida. Ao olhar para o exemplo destas três empresa poderia se achar que o facto de se terem estabelecido a poucos metros umas das outras, no antigo bairro fabril de Lisboa, foi obra do acaso. A realidade é que há uma explicação simples e lógica para isto ter acontecido. “Não acho que tenha sido bem coincidência. Simplesmente chegámos os três à mesma conclusão: não existiam muitos sítios em Lisboa que tivessem estruturas deste tamanho, a um preço em conta e relativamente perto do centro”, explica Bruno Carrilho, um dos responsáveis da cerveja MUSA, a terceira empresa cervejeira a mudar-se para estes lados.

Tiago Lopes, da Dois Corvos (os que estrearam esta zona há cerca de três anos), concorda e até destaca outra particularidade deste “cantinho” da capital: “Marvila tem sido um polo cultural bastante interessante. Há quem já diga que é um bairro da moda. As pessoas que vêm cá procuram cultura, diversidade, coisas novas…”. António Carriço, da Lince — a segunda marca a escolher este bairro — explica que “no fundo, pegámos em espaços que tinham sido libertos pelas industrias que viveram cá e foram desaparecendo. Havia aqui muitas fábricas de borracha, armas, fósforos, armazéns de vinho…”

O bar da cerveja MUSA fica associado à própria fábrica. ©João Porfírio/ Observador

Mercado imobiliário à parte, a verdade é que no espaço de três anos, todas estas cervejeiras se estabeleceram naquela zona e ganharam fama, sendo que duas delas, a MUSA e a Dois Corvos, até já apostaram em bares próprios, ligados às suas fábricas, onde servem aquilo que melhor conhecem. As suas cervejas, lá está. Ao contrário de outras áreas, o mundo da cerveja artesanal assenta num ideal de partilha, tanto de instalações e equipamentos como do próprio saber e experiência. “A cerveja é lubrificante social, sem dúvida, e isso faz com que a colaboração entre cervejeiros também seja muito natural. Eu tenho um tipo de conhecimento, de estilo, o António tem outro, tal como o Bruno também terá. Ao conseguirmos juntar tudo isso, evoluímos muito mais e fazemo-lo de uma forma muito fácil e natural. É comum visitarmo-nos uns aos outros e pedir isto ou aquilo”, conta-nos Tiago, da Dois Corvos. Os seus dois colegas concordam com assertividade.

Dada esta proximidade física e “intelectual”, o passo seguinte seria apostar no trabalho de equipa virado para a promoção da zona onde se tinham instalado. Foi assim que nasceu o Lisbon Beer District, conceito inspirado no londrino “Bermondsey Beer Mile”, rua de um quilómetro e meio onde se concentram 10 cervejeiras britânicas.

“O primeiro evento Lisbon Beer District aconteceu no final de 2017, foi o Oktober Festa”, explica Bruno. Este conceito, que tentou trazer um bocadinho do famoso Oktoberfest alemão a Portugal, consistiu numa espécie de festa de bairro com concertos, cerveja, street food, visitas às fábricas e a outros negócios da redondeza como galerias de arte e restaurantes. O evento foi um sucesso, conseguiram contabilizar cerca de 2500 participantes, e a propósito disto António Carriço recorda aquilo que o proprietário de uma pequena mercearia do bairro lhe disse: “‘Não via movimento deste no bairro há mais de 50 anos’, disse-me o senhor muito contente. É isto mesmo que procuramos, esta revitalização.”

António Carriço, um dos fundadores da Lince, a mais recente cerveja artesanal lisboeta. © Divulgação

A Festa de Reis | Ouro, Insenso e Birra é, portanto, o segundo evento desta espécie de coletivo e vai assentar em moldes semelhantes. Vão acontecer vários concertos da uma da tarde à uma da manhã (programa completo aqui), comida e provas de cervejas. Porém, há uma diferença: Enquanto no Oktober Festa estes três mosqueteiros da cevada fizeram três néctares especiais só para o evento, desta vez vai haver uma única cerveja especial (também ela feita por todos), uma forte e acobreada scotch ale, e outras três que cada um fez em parceria com cervejeiras fora deste LBD. A Dois Corvos trabalhou com a 8.ª Colina, a Lince com a Chimera e a MUSA com a Letra.

Mas então então o Lisbon Beer District é só festa? Bruno Carrilho diz que não, esta ideia vai mais além. “Queremos que isto seja mais do que festas, claro, mas esta é a forma mais óbvia de mostrar o projeto às pessoas, de trazê-las cá para que percebam que há coisas a acontecer aqui.”, explica. O mesmo Bruno adianta ainda que o LBD pretende ser uma coisa orgânica, “uma pequena parte da cidade que tem como epicentro a cerveja artesanal e tudo o que ela representa em termos de revitalização urbana”, uma força que faça com que “esta zona regresse às suas raízes industriais”, mas com “um certo cosmopolitismo muito típico de outras cidades”. “Queremos envolver as outras forças vivas desta zona, sejam elas as que nunca de cá saíram ou as que se mudaram para cá recentemente.”, concluí.

O bar da Dois Corvos… que também fica dentro da respetiva fábrica ©Tiago Pais / Observador

As várias galerias de arte, start ups, restaurantes, lojas e muitos outros negócios ligados às industrias criativas são então inseridos neste círculo gaseificado e com espuma que, assumem os cervejeiros, representam “uma nova forma de fazer industria.” António resume a mensagem dizendo que “no fundo, queremos que as pessoas descubram Marvila… Há quem nem saiba onde isto fica [risos]!”.

Os moradores que sempre aqui estiveram também não são esquecidos. O trabalho que começaram a fazer com a Junta de Freguesia de Marvila permitiu que se aproximassem, por exemplo, de associações de apoio social da zona como a Casa São Vicente, IPSS que trabalha com pessoas com deficiências do tipo intelectual e que vão receber parte do dinheiro angariado nesta Festa de Reis.

Qual será o futuro deste LBD? A resposta só o tempo trará, contudo, “já há outros cervejeiros a procurarem espaços por aqui”, conta Tiago. Esta é uma notícia feliz para estes três cervejeiros que assumem que “seria fantástico” terem mais vizinhos da mesma área. Enquanto isso não acontece, é aproveitar a bebida, a música e, claro, o bairro.

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