Crítica de Livros

O bom escritor nem sempre é aquele com quem queremos beber uns copos

Numa nova edição de "Os Contos", João Pedro Vala reforça duas convicções: é um erro ver amigos nos escritores que gostamos de ler; e Tomasi de Lampedusa não é um amigo mas é um grande escritor.

Autor
  • João Pedro Vala

Título: “Os Contos”
Autor: Giuseppe Tomasi di Lampedusa
Editora: Dom Quixote
Páginas: 256
Preço: 15,90€

Na introdução ao primeiro dos quatro textos incluídos no livro de contos de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Gioacchino Lanza Tomasi, filho adoptivo do escritor e responsável pela edição, prefácios e notas da obra deste, fala daquilo que, em “Recordações de Infância”, se revela ao “leitor e amigo” (p. 21). Daí para a frente, Lanza Tomasi irá sempre partir do princípio de que somos, efectivamente, velhos amigos do seu pai, aproveitando essa desculpa para nos arremessar sem qualquer piedade com um enorme arsenal de notas pedantes e morosas, sem grande pertinência para a compreensão do texto ou do autor, mas que, por outro lado, nos esclarecem acerca das inúmeras opiniões que o crítico tem acerca do mundo em geral e de alguns dos seus familiares próximos em particular.

O erro absoluto da convicção universalmente espalhada que insiste em apresentar os escritores como nossos amigos não poderia, no entanto, ter um melhor contra-exemplo do que o dado neste livro por Tomasi di Lampedusa. Ninguém no seu perfeito juízo, tanto quanto sei, escolhe um cirurgião por este operar fígados com uma t-shirt do Rick and Morty vestida, mas, por um qualquer insondável motivo, é comum ouvir pessoas justificarem a sua predilecção por Kerouac como se as suas viagens pelos Estados Unidos tivessem acabado junto ao palco da Vodafone no Paredes de Coura do ano passado. Ao contrário do que Lanza Tomasi diz, Giuseppe Tomasi, o príncipe de Lampedusa, não é (e provavelmente nunca será) nosso amigo: lembramo-nos, irritados, do preço de um T1 no Príncipe Real ao sabermos da sua pequena sala de almoço em que mal se sentavam vinte comensais e não sentimos grande mágoa quando se lamenta pelo fim da velha aristocracia europeia. Mas, depois, lemos o primeiro parágrafo de A Alegria e a Lei e percebemos que o valor da literatura tem muito pouco a ver com uma ideia de amizade. Percebemos que nem o nosso melhor amigo se vai despedir do seu emprego de contabilista para escrever o grande romance do nosso tempo, nem umas férias com Proust seriam particularmente agradáveis. Percebemos que um escritor bom não é necessariamente aquele que nos dá vontade de convidar para um copo.

O livro agora editado pela Dom Quixote é composto por quatro textos. No primeiro, “Recordações de Infância”, encontramos pouco mais do que descrições das inúmeras divisões das velhas casas da família de Tomasi di Lampedusa e de cinco ou seis episódios nelas ocorridos, alguns deles recuperados depois para O Leopardo, o grande romance do escritor. Se estas casas são descritas como “uma espécie de Pompeia do século dezoito onde tudo se tivesse milagrosamente conservado intacto” (p. 76), o esforço do escritor parece sempre o de pompeiizar as suas recordações de Pompeia, o de estabilizar as suas memórias do passado para as poder depois revisitar a seu bel-prazer, amenizando assim a sua mágoa pelo fim dessa infância dourada, desse “paraíso perdido [em que] todos eram bons comigo, eu era o rei da casa” (página 29).

Em dois dos três contos que se seguem, o foco parece ser novamente esta nostalgia por um tempo que já acabou. “A Sereia”, o mais famoso e aclamado dos três contos (não sendo contudo o mais interessante), narra a história de um velho sábio que, depois de na sua juventude ter vivido três semanas de intensa paixão com uma sereia, passa a vida a lamentar a podridão dos homens, e essencialmente das mulheres, por contraste com o seu amor perdido.

“Gatinhos Cegos” começou a ser escrito com a intenção de se vir a tornar no segundo romance de Tomasi, mas a descoberta da doença de que o escritor viria a morrer pouco depois encurtou significativamente a história. Nela, Tomasi coloca em oposição a burguesia e a aristocracia de Palermo no início do século XX, a partir do retrato que cada uma delas faz da sua classe oponente. A absoluta incomunicabilidade entre aristocracia e burguesia leva a que não consigam entrever uma na outra mais do que uma “figura desprezível recortada em cartão” (página 219). A burguesia é viril, rica, ambiciosa, sem escrúpulos e sovina. A aristocracia é sumptuosa, elegante, de gosto requintado e empobrecida. Uma come macarrões a nadar na gordura do molho, “sepultados sob avalanches de queijo” (página 220), na outra todos os pratos são insípidos. No entanto, todos os membros de uma classe não parecem desejar outra coisa que não seja a obtenção dos privilégios inerentes ao outro lado da barricada.

O talento de Tomasi revelar-se-á na introdução nesta história de um aristocrata romano de visita a Palermo que é incapaz de distinguir aristocratas de burgueses, uma vez que não encontra diferenças entre as atitudes da mais alta nobreza de sangue siciliana e “as conversas que ouvia em Fondi ou em Palestrina, quando tinha de lá ir para cuidar das suas terras” (página 226). Assim, Tomasi di Lampedusa reduz os problemas da aristocracia (a que, na condição de orgulhoso detentor do título de príncipe de Lampedusa, inegavelmente pertencia) a uma comédia pastoril, problemas esses que, se lermos com um mínimo de atenção quer “Recordações de Infância” quer “A Sereia”, percebemos que o afligiam de forma muito concreta.

No entanto, perto do fim do texto, Tomasi di Lampedusa não se coíbe de advertir tanto o seu “leitor e amigo”, que ri do que Tomasi chora, como o próprio aristocrata romano de que aquilo que lhes parece ser uma “humorística exibição de provincianismo nada tinha de cómico: eram os trágicos sobressaltos de uma classe que via fugir a sua própria supremacia latifundiária, ou seja, a sua própria razão de ser e a própria continuidade social” (página 226). No fundo, Tomasi pede ao seu camarada leitor que não se ria em demasia do fim do seu mundo.

Finalmente, em “A Alegria e a Lei”, Tomasi, aproveita a história de um homem que recebe no trabalho, pelo Natal, um enorme panetone para manifestar um profundo desprezo pela pobreza, o que, como Ettore Scola nos ensinou em “Feios, Porcos e Maus”, talvez seja a única maneira de amar os pobres. Porque só quando acharmos a pobreza abjecta e não honrada é que estaremos em condições de unir esforços para que nela ninguém viva.

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