Enfermeiros

Macas até na receção do hospital de Guimarães, denunciam enfermeiros

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Enfermeiros de Guimarães queixam-se da falta de capacidade para atender os doentes em pleno pico da gripe e denunciam que até na receção do hospital já estão a ser colocadas macas.

Depois da denúncia pública de enfermeiros da Urgência do Hospital de Faro sobre o caos vivido naquele hospital, enfermeiros de vários hospitais do Serviço Nacional de Saúde estão a denunciar situações semelhantes em todo o país.

Um dos casos aconteceu no Hospital da Senhora da Oliveira, em Guimarães. Numa denúncia a que o Observador teve acesso, enfermeiros daquele hospital queixam-se da falta de capacidade — humana e material — para atender os doentes em pleno pico da gripe e denunciam que até na receção do hospital já estão a ser colocadas macas.

Fotografias tiradas por enfermeiros do hospital, a que o Observador também teve acesso, mostram várias macas aglomeradas numa zona de receção e triagem. As imagens, sabe o Observador, foram tiradas na semana passada, na altura do Ano Novo.

Contactado pelo Observador, o gabinete de comunicação do Hospital de Guimarães disse ter “dificuldade em identificar o local das imagens”, que “estão com ângulos muito apertados e não é possível constatar, de forma fiável, o local em causa”. A mesma fonte sublinha, contudo, que “presume-se que seja uma sala de espera (triagem) médica do Serviço de Urgência”.

“Naturalmente os doentes que entram na Urgência vêm, a maior parte, em macas e têm de ser observados nas mesmas, até serem encaminhados para Observações, internamento ou alta. Nessas imagens, além dos doentes, é possível ver vários profissionais e acompanhantes de doentes, o que faz parecer que o aglomerado de pessoas é grande, o próprio ângulo das mesmas induz em tal. Não é possível perceber também se estamos numa sala grande ou pequena, os ângulos são muito fechados”, justifica ainda o gabinete de comunicação daquela unidade de saúde.

Sobre a capacidade do hospital de fazer face ao aumento da procura nesta época do ano, devido ao pico da gripe, o hospital confirma “um ligeiro aumento do acesso ao Serviço de Urgência quando comparado com o ano passado”, detalhando que no mês de dezembro se registou um aumento de cerca de 7% na afluência às urgências relativamente ao ano passado.

“O que podemos garantir é que o Hospital e os seus profissionais fazem o maior esforço para dar a resposta mais adequada aos cidadãos que acorrem aos nossos serviços, dentro de tempos clinicamente aceitáveis e que correspondam à expectativa da população”, afirma o hospital, detalhando que a unidade tem este ano “o maior número de sempre de camas disponíveis”, incluindo 484 camas no hospital e 77 camas contratadas no exterior, a privados. O hospital explica ainda que foram contratados mais dois médicos para o Serviço de Urgência, para maior rotatividade e que os tempos de espera têm estado “perfeitamente dentro do adequado”.

Ordem apela a denúncias por parte de enfermeiros

Na sequência da denúncia dos enfermeiros de Faro sobre a situação vivida nas urgências daquele hospital, a Ordem dos Enfermeiros apelou aos enfermeiros de todo o país que denunciassem também as situações de caos noutros hospitais do SNS. “A Ordem dos Enfermeiros quer sublinhar a coragem e manifestar o seu apoio aos enfermeiros do Algarve que denunciaram publicamente, com a divulgação de fotografias, o caos na Urgência do Hospital de Faro”, lê-se num comunicado enviado pela Ordem aos meios de comunicação.

“Da mesma forma, a Ordem repudia a posição do Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve, ao afirmar que se tratam de fotografias de outra altura do ano. Mesmo que assim fosse, não são condições dignas de um hospital do SNS seja em que altura do ano for”, acrescenta a nota da Ordem, sublinhando que está “em condições de confirmar a autenticidade das fotografias divulgadas pelos enfermeiros do Algarve, pois, desde o final de Dezembro, que o presidente da secção Regional Sul da OE tem marcado presença, regularmente, naquele hospital, onde pôde assistir ao mesmo cenário”.

A Ordem dos Enfermeiros diz ainda que “o ministro da Saúde tem de assumir as responsabilidades, bem como explicar a quem interessa o envio de doentes para o privado em situações de pico de atendimentos, ao invés de investir no SNS e divulgar quanto é que já gastou nestes envios”, e lamenta que a agora anunciada contratação de enfermeiros só vá ter “efeitos em Março, pelo que não fará frente ao pico gripal, apesar dos sucessivos alertas da Ordem desde Outubro”.

“Face a toda esta situação, a Ordem apela aos enfermeiros de todo o País para que sigam o exemplo dos colegas de Faro na denúncia das situações que põem em causa a dignidade humana e reforça o apelo aos Enfermeiros que recusem as falsas horas extraordinárias como forma de evitar o risco de erros”, lê-se no comunicado.

Numa outra nota enviada às redações, a Ordem dos Enfermeiros diz que continua a receber denúncias vindas de várias partes do país. “Penafiel, Braga, Guimarães, Vila Nova de Gaia, Porto são alguns dos exemplos. Em Leiria, os Enfermeiros dos cuidados intensivos foram transferidos para as Urgências, face à afluência de doentes, deixando em insegurança os doentes internados nesse serviço”, detalha a Ordem.

“Em Faro, pacientes com pulseira laranja, a segunda mais grave do sistema de triagem, chegam a esperar seis horas para serem atendidos e os tempos de espera atingiram as 22 horas. Foi também neste hospital que um enfermeiro da triagem foi ameaçado com uma faca. Com esta situação caótica, os tempos de espera que aparecem no portal público do SNS não correspondem à realidade”, afirma ainda o comunicado da Ordem dos Enfermeiros.

Esta segunda-feira, em entrevista ao jornal i, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros falou sobre estas denúncias recentes, denunciando que os doentes são escondidos sempre que um membro do Governo visita um hospital. “Escondem-se os doentes em qualquer sítio, até debaixo de escadas”, disse Ana Rita Cavaco. “Não é a esconder a verdade que vamos resolver o problema. É muito triste que isto aconteça.”

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