Comer/Ver/Fazer

Nogueira’s Porto. Esta carne é uma riqueza, imaginem com o sal certo

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Sebastião Carolino queria abastecer-se de proteína no Nogueira's Porto, na baixa portuense. Pelo caminho percebeu que ainda é possível comer num sítio "moderno" sem ser preciso vender um rim.

A zona de bar no Nogueira's Porto. Os clientes são convidados a visitá-la antes da refeição.

D.R.

Nunca me vou esquecer da história que um conhecido me contou há uns anos: uma vez, quando ainda era criança, fizeram-lhe uma daquelas perguntas parvas que tantas vezes fazem aos meninos pequeninos. “Gostas mais do pai ou da mãe?”, questionou uma tia qualquer. A resposta não podia ter sido melhor: “De carne”.

Desde essa altura que secretamente desejo ter sido esse espirituoso jovem carnívoro que, com duas palavras apenas, conseguiu não só dizer a verdade mas também pôr uma família inteira a rir. Gostava de ter sido eu a dizer isso porque sou um confesso aficionado de tudo o que seja bifes, entrecosto, plumas, carrés e afins.

Atenção, não se deixe enganar: gosto muito de outras coisas, claro — a máxima “eat food, not too much, mostly plants” do senhor Michael Pollan podia aparecer tatuada no fundo das minhas costas, tipo “tramp stamp” –, contudo, há toda uma atração inexplicável por uma boa posta mirandesa ainda em sangue ou umas belas costeletas de borrego bem temperadas. Se a carne for boa (nada de frangos vitaminados ou picanhas da Polónia) e estiver bem cozinhada, estarei lá para a deglutir. Foi por causa de tudo isto que olhei com grande entusiasmo para a abertura do Nogueira’s Porto, irmão mais novo de um mesmo restaurante homónimo em Lisboa, cuja especialidade é, precisamente, a carne.

A sala de refeições principal do Nogueira’s Porto fica num andar inferior. ©Andre Lavadinho

Ainda não fui ao Nogueira’s original. Nunca calhou, quando procuro sítios onde tomar a minha refeição estou sempre fora das suas coordenadas. Não sei qual é o aspeto da “casa mãe”, mas este mano portista é extraordinariamente imponente.

Logo ao chegar ao espaço — fica na Rua de Ceuta, do lado oposto da histórica Sincelo — somos esmagados pelas letras gigantes que dizem “NOGUEIRA’S”. Ao atravessar as portas douradas, nova sensação de pequenez ao perceber que este é um espaço de dois andares, onde o primeiro piso funciona como bar (que não visitámos, contrariando assim a simpática sugestão da rececionista) e o segundo andar é a enorme sala de refeições que estava à pinha. Assim que nos sentámos à mesa, já com o menu na mão, começou a discutir-se o que haveria de ser o jantar.

A ementa é dividida de forma simples e dá um maior destaque às peças de carne, apesar de existirem três referências na secção “Peixe” (polvo à lagareiro, camarões tigre grelhados com manteiga e alho e os mesmos camarões mas em pasta negra). No total há 15 propostas, três delas em formato “pijaminha”, para picar, mas nenhuma vem com acompanhamento, esses são escolhidos à parte.

Tudo parece básico até tentarmos perceber o que são as infinitas bolinhas que aparecem junto ao nome dos pratos. Segundo o empregado que nos serviu durante a noite toda, “elas dão informações extra”: “se o prato é picante”, “se tem possíveis alergéneos” ou “se dá para mais que uma pessoa”. A ideia é boa, é pena é não ter uma leitura mais simples, já que os bonequinhos são muitos e muito pequeninos. Apesar disso, a escolha lá se fez:

Pulled Pork Bao. Portugal vive muito de modas e isso reflete-se até nas comidas. Depois do sushi, dos hambúrgueres artesanais e do gin, toda a gente se virou — e muito bem — para a cozinha asiática. É daí que vem este Bao, um tipo de pão chinês cozinhado ao vapor. No Nogueira’s, cada dose vem com dois e, pelo que se provou desta vez, eles não são nada maus. A massa é fofa e saborosa, já o recheio podia ser um bocadinho melhor regado com o molho agridoce com que é servido. Os sabores são agradáveis, mas a mistura fica um pouco seca. Também trocaria a cebola frita com que é servido: percebe-se que é para dar textura, mas o sabor da cebola sobrepõe-se ao da confeção da carne e é uma pena. Tudo podia ser evitado se a trocassem por um qualquer vegetal cozinhado a vapor.

Rib Eye. Pedaço de carne de vaca generoso, com bom marmoreado (os veios brancos de gordura que percorrem a peça, quantos mais tiver, mais sabor há). Vinha cozinhado tal e qual o pedimos e como se quer: mal passado. A carne foi seguramente descansada depois de cozinhada, vinha ainda bastante suculenta e desapareceu num instante. Teria ganho pontos extra com mais alguns toques de alho, manteiga ou tomilho. Também devia ter vindo com de flôr de sal, não lhe fazia mal nenhum.

O suculento rib eye, 300 gramas de carne de vaca. ©Andre Lavadinho

Entraña. O nome pode remeter-nos para miudezas, mas não, este é um pedaço de carne de vaca que vem da parte inferior do animal, a chamada “aba da costela”. É uma opção mais “leve”, já que o pedaço é menos grosso. A peça que nos foi servida era mais espessa numa das extremidades, o que dificultou o cozinhar. A parte mais fina ficou ligeiramente para lá do ponto. Avisámos o empregado, que prontamente se ofereceu para nos servir outra. Feitas as contas, estava muito saboroso.

Gratin Dauphinois com Bacon. De origem francesa, este prato é a razão pela qual se inventou a palavra “gulodice”. Queijo derretido, batata e bacon formam um trio diabólico para qualquer análise aos triglicéridos, mas vitorioso para os adeptos da confort food. Só lhe faltavam duas coisas: estar escrito corretamente na ementa (não leva “e” no final, malta) e um toque de sal.

Puré de Brócolos. Miúdos: não gostam de brócolos? Então venham ao Nogueira’s experimentar este puré. Vão ver que vos passa logo isso. Saboroso e aveludado como se quer, este é um verdadeiro acompanhamento de encher o olho (e a barriga).

Pastel de Leite Creme. Tão guloso como soa. À mesa chegou-nos uma espécie de folhado de leite creme que vinha acompanhado com morangos laminados e uma bola de gelado de baunilha. A porção é bastante generosa, facilmente se divide por duas pessoas e, ao contrário do que achei inicialmente, não é minimamente enjoativo.

No total, a refeição deve ter durado umas boas duas horas e meia, mas só se sentiu o passar do tempo quando chegou a hora de ir embora. O espaço é bonito, muito confortável (espetaculares, as cadeiras almofadadas) e tudo isso faz com que nem se dê pelos ponteiros a correr. O serviço não é o mais rápido do mundo, mas acaba por compensar no cuidado e atenção com que trata os clientes, mostrando sempre que sabem o que estão a fazer — nunca deixaram uma dúvida por responder. O mais surpreendente de toda esta experiência aconteceu no final, depois do habitual “era a conta, por favor.”

Espaços deste género, em Lisboa, cobrariam perto dos 70 ou 80 euros por duas pessoas, mas tudo isto (mais um copo de vinho e uma cerveja) ficou na casa dos 50€. É já famosa a ideia de que no Norte se come muito bem e por muito menos, mas ver que isto também se aplica em restaurantes mais modernos dá uma sensação gostosa na carteira. A ver se com o aumento do turismo as coisas se mantêm assim.

+Info:
Nogueira’s Porto: Rua de Ceuta, 23, Porto; aberto todos os dias, das 12h às 15h e das 20h às 23h (sexta e sábado fecham às 24h; domingo das 13h às 15h); telefone: 308 801 339
Preço médio: 25 euros por pessoa
Ambiente: Dourados, verdes e cores neutras juntam-se para criar um espaço moderno que podia aparecer em qualquer revista de arquitetura e decoração
Banda sonora: Tão subtil que nem a notei
Serviço: Staff atencioso, sorridente, muito bem informado e pronto para lhe sugerir tudo e mais alguma coisa. O que mais se pode pedir?

#dicacerta: Está cheio de coragem e tem alguns euros a mais que quer gastar? Atire-se a um Legendary Tomahawk, pedaço de carne com 1 quilo que o vai fazer sentir como um Flintstone. Como se o tamanho impressionante não bastasse, a peça vem com um gigante osso no ar.

Sebastião Carolino é adepto das coisas do futebol, mas se houver um frango assado com batatas caseiras num tasco sem TV, talvez ele prefira a segunda opção.

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