Pedro Santana Lopes

“Agora é mais por aqui”, disse depois de assumir a derrota. “Continuo a ser o Pedro Santana Lopes”

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Santana diz que "agora é mais por aqui" que vai andar. O que quer isso dizer? Não disse, mas garantiu o de sempre: que vai continuar por aí. Candidatura venceu em Lisboa, não chegou para travar Rio.

Rafael G. Antunes

Cinco vezes candidato à liderança do partido e nunca uma verdadeira vitória (só ganhou quando sucedeu de forma dinástica a Durão Barroso em 2004). Nem por isso Pedro Santana Lopes desceu o elevador do hotel Júpiter, em Lisboa, menos abatido, às 22h27, para se dirigir à sala onde faria mais um discurso de derrota. Nem por isso deixou de se comover, a dada altura, quando disse que a responsabilidade era sua, mas que estava “de consciência tranquila”, fazendo a sala romper num aplauso. Nem por isso fecha a porta a um capítulo futuro de combate político a este nível. “Nunca. Enquanto viver, lutarei pelos ideias em que acredito”, disse de volta ao elevador, já depois do discurso.

Vai andar por aí? A pergunta aproveitava a frase que Santana Lopes deixou no congresso do PSD de 2005, depois do desaire governativo e também eleitoral, nas legislativas desse ano (de onde o PS saiu com a sua maioria absoluta). “Não me despeço, vou andar por aí”, disse então. “Não, não, agora é mais por aqui”, disse este sábado à noite em resposta à pergunta, depois de perder as diretas contra Rui Rio. O advérbio mudou, mas na prática parece que não vai mudar nada.

Desde que prometeu ” andar por aí”, candidatou-se à liderança duas vezes (2008 e 2018), candidatou-se à Câmara de Lisboa (2009), foi provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (de 2011 a 2017) e fez comentário político, como comentador residente, em mais do que uma televisão. Agora muda para “por aqui” e não explica o que isso quer dizer, mas no discurso sobre o combate que se segue, não parece mudar grande coisa.

Na sala cheia de apoiantes (que se encheu só mesmo em cima do momento em que Santana Lopes estava para descer para falar no púlpito), tinha prometido que vai “continuar a combater politicamente. Só é derrotado quem desiste de lutar” — numa citação que vem da resistência ao fascismo por Salgado Zenha e, mais tarde, também usada por Mário Soares. À porta do elevador, aos jornalistas, disse que queria avaliar os resultados “com serenidade” e que se lhe “dissessem que o resultado ia ser pior, faria este combate na mesma”.

Eu tinha de fazer este combate, tinha de fazer esta clarificação”

O candidato que saiu derrotado nestas diretas do PSD — ou “PPD/PSD”, como insiste e insistiu mal subiu ao púlpito e ouviu a sala ficar apenas pelo “PSD, PSD, PSD) — disse ainda que não ficaria bem com a sua “consciência se não tivesse feito este caminho, se não tivesse provocado este esclarecimento, mostrado estas diferenças e ter a consciência plena” que fez “tudo para os militantes do PSD poderem escolher”.

Com Rui Rio, o vencedor da noite, falou mal percebeu que tinha havido uma reviravolta em distritos que a sua candidatura julgava ter mais ou menos controlados, como Aveiro e Braga. Ligou-lhe, deu-lhe os parabéns e desejou-lhe felicidades, disse mal subiu ao palco para assumir a derrota. E agora, como “politólogo humilde”, diz estar “interessado em fazer a análise detalhada” dos resultados.

Resistência em Lisboa

No hotel eram poucos os vieram acompanhar Santana nas últimas horas da corrida. O candidato chegou ao hotel onde passaria a noite eleitoral a minutos de fecharem as urnas de voto nas secções do “PPD/PSD”, mas com ele não estavam os apoiantes de sempre nesta candidatura. Rui Gomes da Silva chegou só ao final da noite, também Pedro Pinto (que estava na sede a acompanhar os resultados), depois Teresa Morais, Rui Machete, Helena Lopes da Costa e alguns deputados. Pouco antes de se saber que Santana ia descer para assumir a derrota, começaram a chegar vários amigos de Santana e também os filhos (o mais velho, Gonçalo, estava desde o início da noite). Já não subiram ao piso superior do hotel, onde Santana Lopes esteve acompanhado pela namorada, alguns familiares, Telmo Faria e Almeida Henriques.

O ambiente foi pesado, só aligeirado por um dado eleitoral que era repetido no corredor do hotel que levava à sala do discurso: “Ganhámos Lisboa, grande vitória”. “Ali não mudam nada”, dizia um dirigente social-democrata agarrado à separação de votos na concelhia entre a candidatura de Rio e a de Santana: o antigo autarca do Porto conseguiu 1.017 e Santana arrecadou 1.124. Além disso, também foi o candidato que apoiava Santana, Paulo Ribeiro, a vencer as eleições na concelhia e a candidatura também venceu na lista de delegados ao congresso. Resultados que fazem de Lisboa uma espécie de reduto, num PSD agora tomado por Rui Rio.

Na candidatura de Pedro Santana Lopes, as duas grandes surpresas foram Aveiro e Braga. Em Aveiro, a expectativa era que Santana pudesse vencer por 600 votos, mas a realidade levou a uma derrota por 1.100. Em Braga, o staff de Santana contava também vencer, mas perderam uma das distritais de peso por cerca de 70 votos. Restava Lisboa, onde realmente venceu, mas não por uma margem que permitisse virar o que já tinha alastrado pelo país laranja.

Quanto ao seu futuro próximo — e depois de ter deixado a Santa Casa para se candidatar à liderança do partido –, Santana diz que está “sereno”. “Sou advogado, graças a Deus, docente universitário humilde. Continuarei a trabalhar na vida privada, não desistindo dos combates políticos, confesso que é o que me apetece mais agora”. E num resumo dos último tempos e de como eles pesam na perceção política que tem de si mesmo: “Continuo a ser o Pedro Santana Lopes e assumi tudo o que fiz, a que agora se junta mais esta campanha”.

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