Crítica de Restaurantes

Jamie’s Italian. Não havia tiramisú, mas o resto foi tal e qual dá na TV

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O restaurante da estrela da teleculinária britânica abriu em Lisboa de surpresa. E Sebastião Carolino fez uma visita também sem anúncio. Não causa espanto, mas essa não é a ideia. E sai a ganhar.

– Boa tarde.
– Muito boa tarde.
– Olhe, eu e a minha amiga ligámos há umas duas horas para reservar, disseram-nos que o melhor seria passar por aqui e que depois tudo se resolveria…
– Hmmm… naturalmente, mas talvez tenha de esperar um pouco.
– Quanto?
– Uma hora e meia, mais ou menos.
– Isso é muito. Olhe, é que assim vamos ter que ir comer a outro lado…
– Claro, compreendo.
– (!)
– (!)
– Obrigado, até à próxima.
– Muito obrigado.

Juro que isto aconteceu assim entre duas migas forever, tal e qual, sou óptimo a lembrar-me de conversas que não interessam para nada. E aconteceu algo parecido a muito boa gente que pensou “vamos lá experimentar o restaurante do Jamie da TV”. Aparecer sem reserva é uma péssima ideia quando se trata de um dos mais populares franchises do mundo. Caramba, o restaurante tem o nome de Jamie Oliver, o inglês que faz programas de culinária e vende livros de receitas e ajuda os jovens em perigo. Estavam à espera do quê?

O problema é que o Jamie’s Italian, que abriu no sábado em Lisboa e ainda vai mais ou menos a meio gás (há um período durante a tarde, ali entre as 16h e as 19h, que fecha portas, em breve isso vai acabar), não tem lidado na perfeição com a procura, que é desenfreada. Vai daí, uns quantos desencontros têm acontecido.

Comigo correu tudo bem, obrigado pela preocupação. Mesa marcada, mesa posta, é assim que se trabalha bem. Aliás, essa é a grande conclusão a tirar de uma primeira visita ao Jamie’s Italian, provavelmente a inauguração mais esperada dos últimos tempos no campeonato da restauração a preços acessíveis em Lisboa. Esta malta trabalha bem. Bom acolhimento, excelente serviço, com direito a sugestões e explicações sobre os pratos, tempos de espera muito diplomáticos, boa comida e bom preço. Uma mistura explosiva, é o que é. Se o sítio já tinha tudo para correr bem, só à conta da marca, vai de certeza convencer os visitantes a regressar, uma e outra vez.

O espaço é bonito. Não é necessariamente italiano mas Jamie também não é, por isso estamos quites. As mesas? Sim senhor, aquilo é material que interessa, daquela madeira que dá vontade de ficar ali depois a bater uma sueca ou uma bisca. Respeitando todos os códigos da gentrificação — light bulbs no lugar de lâmpadas, claro — presuntos pendurados ao balcão e aquela zona com os produtos do dono: as tábuas feitas em Portugal e que depois levam o carimbo “Oliver”, os guardanapos com etiqueta a dizer que é tudo merchandise oficial, os livros de receitas, um espanto negocial. E o toque de génio: os sofás encostados às paredes têm almofadas. Ora esse é um detalhe que não se vê em toda a parte.

Fui encaminhado com apreço e simpatia para a mesa, recebi a carta, que é daquelas com letterings trabalhados num computador da moda e que está mesmo a pedi-las ao nível do Instagram. É extensa mas percorre-se bem, dividida por entradas, massas, pizzas e pratos em que a carne tem protagonismo (bifes, hambúrgueres, por aí). Sim, também tem sobremesas, calma, pessoal. Neste caso, a ideia foi tentar ser bastante italiano e foi isto que aconteceu:

Tábua de queijo e carnes frias. Boa dose para uma só pessoa, os vinagrados no ponto certo para esgalhar um bom equilíbrio. Mas malta, isto pede pão. Eu sei, seu sei, basta pedir e ele aparece, mas tenho para mim que é uma questão de princípio ter o pão na mesa. Queijo? Carnes frias? Azeite? Então pão. Estamos conversados? Vejam lá isso.

Lulas fritas. Sabem o que é um petisco? É uma palavra que se presta a ser desmontada nuns quantos parâmetros. Prato de confeção rápida, com tempero intenso e decidido, para motivar aquele drink extra a acompanhar, passível de ser partilhado com gosto e sem inveja e com alta probabilidade de chegar à boca transportado pela mão. Tudo para gerar prazer instantâneo. Ora bem, as lulas fritas do Jamie cumprem as regras à risca. Foi um ótimo momento.

Linguini de camarão. Tinha de ser. Um prato de pasta para ver até que ponto Jamie consegue ser de facto italiano. E digo-vos o que achei da forma mais imediata, direta e óbvia de sempre: estava bem boa. Massa fresca, no ponto, tempero que vai um pouco além do óbvio mas não muito, bastante camarão, bom picante e satisfatórias doses de prazer ao enrolar o garfo na massa. Confort food com a tal almofada ali a apoiar a lombar. Nunca ninguém vai pensar em estrelas Michelin ao provar aquilo mas é provável que não pense em mais nada a não ser em comer e isso é bom sinal.

Pizza de salsicha picante à maneira do Gennaro. A recomendação de quem nos serviu demonstrou atitude e isso é sempre de agradecer. Tal como diz no menu, a pizza é picante. Por isso, não vale fazer aquela cara de admiração ao estilo “epá, que sensação desagradável neste palato que é o meu”. Sim, pica, mas não mata ninguém, deixem-se de tretas. E só custa na primeira fatia, é como fazer um escalda pés. De resto, boa massa num forno com categoria. Não é a melhor pizza do mundo nem da cidade, mas não envergonha ninguém e é capaz de fazer uns quantos amigos.

Cheesecake com merengue de limão de Amalfi. O nome engana que se farta, por isso vai daqui uma explicação que pode ajudar muitos a não cair no engodo. Isto é mais uma tarte de limão merengada que outra coisa. Para quem gosta do género, é tudo o que se espera e numa dose realmente grande. Para gente que gosta de dividir sobremesas (um ato que nunca vou compreender), é a #escolhacerta.

Brownie com gelado de caramelo salgado. Coisa simples, combinação vencedora, parece a receita mais preguiçosa do mundo. Bom, até pode ser, mas a preguiça, quando pode ser vivida, é das melhores coisas do mundo. Aliás, é melhor ainda quando é considerada crime. Isto para dizer que o raio do brownie é bom. É mesmo bom. Caramba, é tão bom.

– Desculpe, vendem disto para fora?
– Acho que pode levar, se quiser, claro que sim.
– Não está a perceber. Um tabuleiro disto, vendem.
– Hmmm… acho que isso não…
– Pronto, OK…

Éramos dois, bebemos umas quantas imperiais cada um porque iam bem com os pratos na mesa e porque tínhamos uns assuntos para tratar e assim sendo a cerveja ajuda a manter a conversa. Dois cafés para rematar e não ficou nada por comer. Absolutamente nada, gente de boca santa. Contas feitas: 66,70€. Não é caro, sobretudo tendo em conta a inflação que assombra o meio e a localização geográfica (sim, é mais um restaurante novo no Príncipe Real). E com um detalhe de enorme importância: juntar uma marca conhecida como é a de Jamie Oliver à cozinha italiana gera uma expectativa em particular: a do conforto.

Atenção, isto é um franchise. Como tal, tem um modelo, é seguro, não inventa, não quer ser um local de criatividade gastronómica nem de arrojo. É o que é, tranquilo e favorável. E nessa guerra não perde. Tem os prós e os contras bem estudados e chega a Lisboa com quilómetros de currículo. O Jamie’s Italian não quer ser uma “experiência” nem tem um “conceito”, a não ser o da comida italiana. E mais vale ir com essa ideia em mente, caso contrário pode haver desilusão no caminho. Enfim, como em tudo na vida, baixar expectativas para elevar conclusões, a ignorância é uma bênção e outras orações filosóficas do género.

O que não é filosófico é o maior problema desta visita: não havia tiramisú. Plamordedeus, resolvam isso, onde é que já se viu não haver tiramisú num italiano? Ao menos havia CRF na parte dos digestivos.

+Info:
Jamie’s Italian: Praça do Príncipe Real 28A, 1250-093 Lisboa; aberto todos os dias, mas o horário não está estabelecido em definitivo; telefone: 925 301 411.
Preço médio: 25 euros por pessoa.
Ambiente: cool (pouco) chic, portugueses, estrangeiros, adultos, crianças e até uns recatados senhores com ar de quem gere empresas duvidosas. Há de tudo.
Banda sonora: não faço ideia, é que não me lembro, mas lembro-me que não tinha nenhum cliché italiano, o que pode ser bom ou mau, dependendo da hora e do álcool.
Serviço: muito bom. Rápido, simpático, com resposta para as perguntas e sugestões para momentos de escolha difícil.

#dicacerta: não podia ser outra. Tenha cuidado com as reservas. O Jamie’s Italian está sempre cheio, não vá armado de confiança com aquele frase “a esta hora ainda não está lá ninguém”. De certeza que vai estar.

Praça do Príncipe Real 28a, Lisboa, Portugal

Sebastião Carolino é mais ou menos adepto da Roma. Tem uns quantos amigos que para sempre vão torcer pelo Milan, mas cada um sabe de si.

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