Ginástica

Randall quis agredir Nassar mas recusa ser herói: “Falhei na proteção das minhas filhas mas vamos superar isto”

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Randall Margraves tornou-se herói após ter tentado agredir Larry Nassar em tribunal. Foi intercetado, detido e libertado. "Não sou herói, as minhas filhas e as outras vítimas é que são heroínas", diz.

Randall Margraves tentou agredir Larry Nassar em tribunal, foi detido, presente à juíza e saiu em liberdade

A certa altura, até Dwayne Johnson, o ator e produtor americano conhecido por The Rock que foi campeão de wrestling e esteve recentemente na ribalta por ser a personagem principal da nova versão do filme Jumanji, quis expressar a sua opinião sobre o que se estava a passar. E em 24 horas, conseguiu quase 320 mil likes no seu tweet, que originou cerca de dois mil comentários e mais de 80 mil partilhas. “Todos percebemos a ação deste pai. O castigo de Nassar vai muito para lá da sentença. Atrás das grades, vai perceber em breve o que significa inferno. Ele vai ser bem tratado por lá”, escreveu. Não se falava de outra coisa um pouco por todo o lado.

Randall Margraves, um eletricista de Lansing que foi quase 30 anos secretário e vice-presidente da R.M. Electric mas surgiu agora com uma camisola da International Brotherhood of Electrical Workers, tinha acordado esta sexta-feira como se fosse mais um dia de trabalho mas passando pelo tribunal para apoiar duas de três filhas, Lauren e Madison, que iriam prestar o seu testemunho no julgamento de Larry Nassar, o médico americano da seleção olímpica de ginástica e da Universidade de Michigan State (Morgan, a mais velha, já tinha deixado o seu depoimento e não estava presente na sala). Não aguentou o que ouviu e tentou agredir o arguido, que já foi condenado em dois outros casos por posse de pornografia infantil e abusos sexuais de menores.

“Como parte da sentença, gostaria que me desse cinco minutos numa sala fechada com este demónio. Sim ou não?”, atirou. “Não senhor, sabe que não posso conceder isso…”, respondeu Janice Cunningham. “E um minuto?”, insistiu o pai. “Não, sabe que não é assim…”, ouviu. Enquanto a juíza falava, saiu disparado para Larry Nassar enquanto Madison chamava “pai, pai”. Antes de chegar ao médico, que um dos oficiais retirou do local, foi intercetado pelos polícias presentes, algemado e levado para uma cela no tribunal do condado de Eaton, em Michigan.

O episódio não demorou a correr mundo e criou-se uma onda de solidariedade com Randall. Uma onda que contou com o apoio também do irmão, Robert. “O meu irmão fez o que estava certo. Sim, protegeste as tuas filhas! Este é o meu irmão, o meu herói”, escreveu na sua página das redes sociais. Billie, o irmão mais novo, também partilhou de forma orgulhosa o vídeo. Mas houve centenas e centenas de comentários num curto lapso de tempo.

Mais tarde, regressou à sala. Ainda de algemas, entretanto retiradas pelos polícias.“Podia acusá-lo de desobediência, prendê-lo ou multá-lo em 7.500 dólares mas não o vou fazer”, referiu a juíza Janice Cunningham. “Eu percebo o porquê da sua reação. Aliás, não percebo porque ninguém que não esteja a passar por esta situação consegue perceber. Mas tem de prometer e jurar aqui que nunca mais voltará a ter uma reação assim porque não posso tolerar um sistema de vigilantes que funcione ‘olho por olho, dente por dente’”, acrescentou. Randall Margraves mostrou-se arrependido, pediu desculpas à juíza e aos oficiais, garantiu que não voltaria a perder o controlo numa situação do género e saiu da sala, em liberdade.

Apesar de ter sido libertado, a imprensa local e nacional que tem acompanhado mais este julgamento de Larry Nassar quis saber mais sobre Randall e a família Margraves. Afinal, além do epíteto de herói que tinha ganho, a conta de apoio aberta por alguém que vira a cena no GoFundMe já ia nos 18 mil dólares. Randall, com as filhas (Morgan já se tinha entretanto juntado a Lauren e Madison) e a mulher, juntou os presentes numa sala para falar, pela primeira e última vez, à imprensa. E recusou por completo ser tratado de forma diferenciada, da mesma forma como o seu advogado garantiu que as verbas angariadas deveriam ser devolvidas a todos os doadores.

Deixem-me esclarecer e que fique bem claro: eu não sou herói. As minhas filhas são heroínas, todas as sobreviventes são heroínas, eu não sou. Mas deixem-me ler uma declaração, que vai ser a última que vou fazer sobre tudo isto”, começou por dizer.

“Esta manhã acordei com a intenção de ir trabalhar mas passando pelo tribunal para apoiar as minhas filhas. Sabia que iam fazer um testemunho chocante, mas não sabia o que iam dizer. Quando ouvi o que disseram e vi Larry Nassar a abanar a cabeça, perdi o controlo. Não costumo fazer isso, sinto remorsos pelo que aconteceu, peço desculpa a toda a gente e agradeço o que a juíza Cunningham fez por mim”, reforçou.

“Quando as minhas crianças eram pequenas, foram ensinadas a ser obedientes e a confiarem nas pessoas. Nos professores, nos médicos, nos adultos. Os adultos iriam ensinar o melhor para elas. Quando eram pequenas, eu e a minha mulher trabalhámos para terem as melhores oportunidades e encontraram essas oportunidades no desporto. Participaram em campos desportivos, jogaram todas basquetebol, softbol, voleibol e estiveram no atletismo e na ginástica. Com tudo isso, as lesões começaram a aparecer e procurámos a melhor ajuda possível. Era Larry Nassar. E até me senti privilegiado, porque tratava dos atletas da Universidade de Michigan State e da seleção olímpica. Aceitei esse conselho e entreguei as minhas filhas a alguém que tinha a sua agenda retorcida e doente. Falhei na proteção das minhas filhas, mas somos uma família forte e vamos superar isto”, lamentou Randall Margraves.

“Às vezes, a relação com as minhas filhas era um pouco pior, com mais stress. Tentei perceber o que se passava, o que falhava. Tentei sempre ser um bom pai e agora sei qual era a principal razão: Larry Nassar. Agora tenho de me preocupar com o facto de perceber que as minhas filhas não voltarão a confiar num homem para o resto das vidas. Mas o mais importante são elas e as restantes sobreviventes. Só agora percebo a dimensão de tudo e por isso agradeço também às outras vítimas e às suas famílias por terem sido tão corajosas. Não tenho dúvidas de que haverá mais vítimas e a elas desejo o melhor e que consigam encontrar o melhor caminho para recuperar”, completou, antes de falar sobre o médico que está no centro do caso que tem abalado o país.

“Tal como disse, as vítimas são quem mais importa mas eu represento os pais, os avós, os familiares, os amigos, as comunidades destas vítimas e todos aqueles que sempre gostaram não só das minhas filhas mas também de todas as vítimas. A todos eles, agradeço o apoio. Acredito em Deus todo Poderoso, acredito no Céu e no Inferno e só espero que, quando chegar o dia, Larry Nassar seja conduzido à parte mais escura, profunda e ardente do Inferno. Ele e pessoas como ele, esperando que lhe cause muita dor porque ele deixou muita, muita dor neste mundo. Foi a primeira vez que entrei num tribunal e nunca mais voltarei, tal como prometi à juíza. Estou embaraçado com o que aconteceu, não queria perturbar as minhas filhas mas aconteceu…”, concluiu.

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