Música

Os Franz Ferdinand nunca tinham dançado assim: e que bem que eles dançam

O rock dos escoceses sempre desfilou na pista, mas nunca havia sido composto em computador. Falámos com o baixista Bob Hardy sobre o primeiro álbum gravado sem o fundador Nick McCarthy. E sobre dança.

Um álbum em parceria (FFS, com os Sparks, em 2015) não esconde turbulências internas nem o facto de Always Ascending, o quinto disco de originais dos Franz Ferdinand que chega às lojas esta sexta-feira, 9, ser o primeiro do grupo a solo (esqueçamos a contradição) em quase cinco anos. O desgaste com os concertos e a saída em 2016 do guitarrista Nick McCarthy, membro fundador, chegou a pôr um ponto de interrogação no futuro da banda. “Houve um momento em que não existimos”, disse o baixista Bob Hardy ao jornal britânico iNews. “Mas acho que acabámos por ver isto como uma oportunidade para seguir numa direcção diferente.

Como os papéis de cada um na banda mudaram [com a saída de McCarthy], não havia um guia que nos dissesse como continuar. Estávamos todos livres para poder explorar um caminho até certo ponto novo, sem receio de testar coisas novas dentro do grupo”, explica Hardy, desta vez ao Observador, por telefone e a partir de Glasgow, Escócia.

[“Always Ascending”:]

Esse “caminho até certo ponto novo”, a que o baixista britânico se refere, traduz-se sobretudo no tom electrónico das canções. O rock dos Franz Ferdinand foi sempre dançável, virado tanto para o palco como para a pista — antes mesmo da edição do primeiro álbum, o vocalista Alex Kapranos já dizia ao The Guardian que o que queriam era “fazer música para as raparigas dançarem”, imagine-se porquê… –, mas só no terceiro disco, Tonight: Franz Ferdinand (de 2009), conseguiram tirar tanto protagonismo às guitarras em favor dos sintetizadores (com resultados, à época, pouco consensuais entre fãs e crítica).

Enquanto banda, a música de dança interessou-nos sempre muito. Quando começámos íamos juntos a muitas discotecas e queríamos ser uma banda a tocar música de dança ao vivo, queríamos ter nos concertos o mesmo ambiente que existe numa discoteca”, introduz Bob Hardy, para logo de seguida confirmar a impressão de que há mesmo uma alteração na estética: “Desta vez, penso que fizemos mesmo uma escolha consciente de levar isso mais longe do que no passado.”

O flirt com o género é antigo, só nunca tinha dado em namoro tão sério. Quando os quatro britânicos começaram a compor as primeiras canções, o vocalista e o baterista tiveram de tirar o pó aos instrumentos, porque vinham de vários anos a produzir música electrónica no computador. Os riffs desse primeiro álbum, um sucesso comercial e de crítica, com singles que ainda hoje incendeiam as pistas de dança de todo o mundo (quem nunca dançou ao som de “Take Me Out”?), eram devedores desse passado e puseram os Franz Ferdinand no pelotão da frente do indie e do revivalismo rock.

Coincidência ou não, Bob Hardy e o vocalista Alex Kapranos conheceram-se numa discoteca: “Só depois é que viemos a trabalhar juntos num restaurante. Falávamos muito de música na cozinha”, ri-se. “A primeira impressão foi boa, tínhamos as mesmas canções favoritas e um sentido de humor parecido. Acho que na altura gostávamos dos The Beatles, Simon e Garfunkel, Queen…”

“Always Ascending”, dos Franz Ferdinand (Domino)

A época era propícia ao rock mais jovial: três anos antes do primeiro álbum dos Franz Ferdinand saíra This Is It?, dos The Strokes, dois anos antes Up the Bracket, dos The Libertines e Turn on the Bright Lights, dos Interpol e um ano antes Fever to Tell, dos Yeah Yeah Yeahs (todos discos de estreia). Os Black Keys iniciavam a escalada nos tops com Rubber Factory (editado no mesmo ano), os Kings of Leon ainda dividiam a crítica (rapidamente a perderiam) e os Arctic Monkeys, The Kooks e Bloc Party (de Kele Okereke, também ele entretanto seduzido pelas possibilidades da produção electrónica) já preparavam terreno para a afirmação vindoura.

Talvez mais importante ainda para a música dos escoceses: já apareciam os Hot Chip e a editora americana DFA, que apresentava (através de compilações) grupos que misturavam rock e electrónica, bandas que faziam música de dança — exactamente o que os Franz Ferdinand queriam fazer. Já se ouviam canções dos The Rapture (na altura as “estrelas da companhia”, já com um disco muito bem recebido, Echoes), LCD Soundsystem, The Juan Maclean. Eis que, de repente, aparece “Take Me Out”.

Um disco “naturalista”

Um êxito tão grande logo na estreia (o disco venceu o prestigiado prémio Mercury e esteve nomeado para o Grammy de Melhor Álbum Alternativo) pôs as expectativas nos píncaros. Com os anos e o avolumar dos álbuns, a urgência foi diminuindo: depois de dois discos em dois anos, os Franz Ferninand demoraram 13 a fazer os três seguintes (quatro, se juntarmos o disco a meias com os Sparks). O culto não se perdeu, mas Tonight: Franz Ferdinand (2009) e Right Thoughts, Right Words, Right Actions (2013) não tiveram o mesmo impacto na crítica (foram menos unânimes) e indústria (nomeações para os grandes prémios? Nem vê-las). Always Ascending é uma guinada de estilo.

“Desta vez, compusemos muito no computador, usando sequenciadores e métodos de composição electrónica”, conta Bob Hardy. São tempos “estimulantes”, sintetiza o baixista, a que a entrada de Dino Bardot (guitarrista) e sobretudo de Julian Corrie (teclista e guitarrista) não são alheias.

[“Feel The Love”:]

“Já estávamos a usar mais sintetizadores e electrónica quando o Julian entrou. Ele foi-nos recomendado por amigos que tocam nos Mogwai e em outras bandas. Quando o conhecemos e conversámos com ele, apercebemo-nos do quão benéfica é a experiência dele em sintetizadores e música electrónica. Ele vem da música de dança, do techno, tem um conhecimento considerável nesses géneros, e como andávamos a trabalhar nesse universo achámos que iria encaixar muito facilmente”, aponta Bob Hardy. A escolha do francês Philippe Zdar, DJ e ex-colaborador dos The Rapture e Phoenix , para produzir o disco — gravado entre Londres (nos estúdios RAK) e Paris (nos estúdios Motorbass) — também não foi ocasional.

Apesar da composição ter sido, numa fase inicial, feita em computador, os Franz Ferdinand não queriam abdicar do “naturalismo” e decidiram pegar nos instrumentos para gravar os temas. “Sermos humanos a tocar estes arranjos electrónicos, termos um baterista humano a acelerar e desacelerar o ritmo no momento em que gravamos, em vez de o substituirmos por uma caixa de ritmos, traz uma humanidade no processo que queríamos manter. Isso foi sempre um ponto assente na nossa música”, explica o baixista.

Entre canções mais mexidas e catchy (como “Paper Cages” e aquela que a revista online The Quietus descreve como “possivelmente a canção mais bem conseguida dos Franz Ferdinand dos últimos anos”, “Lazy Boy”) há ainda espaço para canções mais solenes, como a final “Slow Don’ Kill Me Slow” e a balada “Academy Award”. Será para a estrutura clássica da última que Hardy (37 anos), Kapranos (45 anos), Thomson (41 anos) e companhia caminharão no futuro? “Quem sabe… acho que neste disco ter um par de canções mais lentas faz sentido. Não queria fazer um disco inteiramente de batidas rápidas. Essa canção também faz parte do que somos enquanto banda e gostamos do tipo de energia que canções dessas trazem quando misturadas com as outras. Mas o futuro ainda está por descobrir”, aponta o baixista, sem revelar planos de longo prazo.

[“Lazy Boy”:]

Não falta, em Always Ascending, uma canção dirigida à América, “Huck and Jim”, inspirada em Huckleberry Finn e Jim, protagonistas do romance de Mark Twain, As Aventuras de Huckleberry Finn. É um tema muito diferente de “Demagogue”, canção anti-Trump que o grupo escocês lançou quando este ainda era candidato à presidente dos Estados Unidos da América e que continha versos como “Fatalmente famoso, ele é um demagogo, brinca com os meus medos (…) sabe tão bem ser burro”. Perguntamos a Bob Hardy — que já lançou uma compilação de fotografias suas a ler em quartos de hotéis e que nos diz ter como autores favoritos “Paul Auster, Julian Barnes e um escritor escocês chamado Graeme Macrae Burnet, que escreveu um livro muito bom, His Bloody Project” — se evitam escrever canções com referências óbvias  por recearem que soem demasiado datadas:

Essa canção foi o tipo de coisa que não se repete, que acontece uma vez. Não costumamos escrever directamente sobre o que se passa na política, não somos esse tipo de banda. Foi uma ocasião especial.”

Com o disco gravado e prestes a chegar às lojas (digitais e físicas), os Franz Ferdinand vão agora regressar à estrada e começam uma digressão pelo Reino Unido já na próxima terça-feira, dia 13. Seguem-se concertos por toda a Europa, chegando em Julho a Portugal para apresentar o disco no festival NOS Alive (dia 14 de Julho, o mesmo dia em que actuam os Pearl Jam, Alice in Chains, Jack White, MGMT, Mallu Magalhães, Real Estate e Perfume Genius — e já esgotado).

“O público em Portugal é fantástico, estamos sempre desejosos de ir aí, sabes? É um grande país, as pessoas são muito amigáveis, estou entusiasmado. Penso que o Alex [Kapranos] já esteve aí de férias e eu gostava de fazer o mesmo no futuro”, diz o baixista da banda, que se tem mantido fiel à Domino, editora independente britânica (assim como acontece, por exemplo, com os Spoon nos EUA, também eles ‘quase major‘ e autores de um disco recente virado para os sintetizadores, Hot Thoughts). Antes de vir de férias, contudo, virá para mais um concerto. Na bagagem traz rock electrónico para abanar o esqueleto… e os fantasmas.

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