Primeira Liga NOS

Está a ver a crise em Alvalade? Agora junte 22 jogadores, um árbitro e o VAR (a crónica do Sporting-Feirense)

177

Houve golos (um bem, um mal) e penáltis anulados, houve dezenas de oportunidades (e uma bola ao poste) e houve nervos. Muitos nervos. Mas, no final, o Sporting ganhou ao Feirense por 2-0.

William Carvalho celebra o primeiro golo da temporada com Rafael Leão, que fez a estreia na Liga pelo Sporting

EPA

O Sporting é provavelmente o clube em Portugal que mais relevo dá aos feitos das modalidades extra futebol. E hoje, no regresso a Alvalade, tinha muito com que congratular-se: a presença de quatro atletas do clube na Seleção que se sagrou campeã europeia de futsal; o triunfo do andebol durante a semana no Porto que não acontecia há 18 anos e permitiu o regresso à liderança; a vitória do voleibol com o Castêlo da Maia, que confirmou o primeiro lugar; o histórico triunfo do ténis de mesa em França que valeu a passagem à meia-final da Liga dos Campeões; o título europeu do goalball na Suécia. E se recuarmos até domingo, quando os leões sofreram a única derrota na Primeira Liga, ainda houve os triunfos no setor masculino e feminino na Taça dos Clubes Campeões Europeus de corta-mato. Mas não, o que se falava não era isso mas sim uma reunião numa unidade hoteleira ali ao pé.

O clube verde e branco vive um período de crise diretiva (e apenas diretiva) que só será solucionado, ou não, no próximo sábado, quando se realizar a assembleia geral que definirá o futuro de Bruno de Carvallho. Até lá, o presidente leonino desdobra-se em contactos e sessões de esclarecimentos, como aquela que aconteceu esta tarde: dos 46 “sportingados” (o neologismo nasce da mistura entre “sportinguistas” e “aziados”) que nomeou no último domingo através do seu Facebook, houve cinco que aceitaram o convite/desafio para uma reunião.

“Tivemos uma conversa infelizmente com menos pessoas do que gostaria mas foi uma conversa franca. O que gostamos é de dar a cara, debater aquilo que são as nossas ideias. Hoje também se falou sobre algo que começou e terminou aqui, que foi a famosa lista. Falámos e agora quero ir ver uma vitória do Sporting”, comentou o líder leonino à saída do encontro. No entanto, e se esperava uma tarde/noite tranquila, Bruno de Carvalho teve tudo menos isso (sobrando a vitória no final) e a meio da primeira parte já tinha saído do seu lugar na tribuna para andar de um lado para o outro fumando de quando em vez o seu cigarro eletrónico.

Ficha de jogo

Sporting-Feirense, 2-0

22.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Luís Ferreira (AF Braga)

Sporting: Rui Patrício; Piccini, Coates, Mathieu, Bruno César (Lumor, 72′); William Carvalho, Bruno Fernandes; Gelson Martins, Bryan Ruíz (Rafael Leão, 68′), Montero e Doumbia (Battaglia, 81′)

Suplentes não utilizados: Salin, André Pinto, Misic e Rúben Ribeiro

Treinador: Jorge Jesus

Feirense: Caio Secco; Jean Sony, Flávio Ramos, Luís Rocha, Kakuba; Luís Aurélio, Babanco (Karamanos, 84′); Luís Machado (Zé Manel, 74′), Tiago Silva, Edson Farias (Valencia, 84′) e João Silva

Suplentes não utilizados: Miskiewicz, Briseño, Kiki e João Graça

Treinador: Nuno Manta Santos

Golos: William Carvalho (78′) e Montero (90+1′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Babanco (10′), Jean Sony (34′), Caio Secco (35′), Piccini (49′), Tiago Silva (57′), William Carvalho (63′), Luís Machado (66′), Edson Farias (75′), Luís Aurélio (76′), Bruno Fernandes (80′) e Rui Patrício (87′)

Não se pode dizer, assim de uma forma taxativa, que foi um grande jogo de futebol. Que não foi. Mas a verdade é que teve um pouco de tudo e muito mais do que é normal: golos (no último quarto de hora), bolas ao poste (e da equipa visitante), inúmeros amarelos (11, sem que tivesse sido um jogo muito duro ou algo do género), tentos anulados (um mal, outro bem), um penálti assinalado e depois anulado, outro não assinalado mas muito reclamado. Ah, e no meio disto tudo, um guarda-redes brasileiro a fazer um dos melhores jogos da carreira (Caio Secco) e um avançado marfinense a ter um dos encontros mais infelizes a finalizar da carreira (Doumbia).

Foi uma carga de nervos para todos os lados do início ao fim, tal como tem sido este período no Sporting em termos “políticos”. E essa é a melhor forma de resumiu o triunfo do Sporting por 2-0 frente ao Feirense: juntar 22 jogadores, um árbitro e o VAR ao ambiente que se tem vivido (e vai viver até sábado) em Alvalade.

O “festival Doumbia” começou cedo: logo aos 6′, o africano surgiu bem nas costas da defesa fogaceira mas demorou demasiado tempo e viu o remate ser cortado para canto por um opositor. O “festival Caio Secco” também não tardou: aos 8′, o guarda-redes brasileiro defendeu um primeiro livre direto de Mathieu para o lado e a posterior recarga de Bruno César para canto. Mais uns minutos, mais uma volta: Doumbia permitiu a defesa a Caio quando surgiu isolado e tentou fintar o guardião (12′); Caio fez uma defesa monstruosa a remate de Bryan Ruíz (14′).

À terceira foi de vez. Ah, afinal não: no seguimento de um grande passe em profundidade de Montero, o substituto de Bas Dost (que, segundo Jesus, até para conduzir tem dificuldades por causa da lesão nas costelas…) trabalhou bem entre dois defesas do Feirense e atirou sem hipóteses. Golo validado do Sporting, golo anulado ao Sporting: após receber indicações do vídeo-árbitro, Luís Ferreira foi à TV em pleno relvado confirmar se havia alguma falta. E havia, de Bruno Fernandes sobre Tiago Silva. Por isso, anulou o lance. Mas esteve mal.

A falta que Luís Ferreira focou, e que realmente existe pois o médio do Sporting empurrou o ex-companheiro de Seleção Sub-21, foi anterior ao lance do golo de Doumbia porque, entretanto, o Feirense recuperou a bola, tentou manter a posse, fez dois passes e Bryan Ruíz conseguiu fazer nova interceção. Ou seja, se estas jogadas são anuladas mesmo depois da mudança de posse de uma equipa para a outra, o critério do VAR tem de ser revisto…

Se os nervos eram evidentes nas bancadas, os adeptos leoninos tornaram-se autênticas panelas de pressão após todas as decisões do árbitro, quaisquer que fossem. E pior ficaram quando, aos 31′, William tocou na área e Tiago Silva fez o corte com o braço, restando apenas saber se era intencional e para penálti. Luís Ferreira, com o apoio do vídeo-árbitro, achou que não e mandou seguir. Mas que ficaram muitas dúvidas, isso ficaram. Antes, Montero tinha obrigado Caio Secco a mais uma intervenção verdadeiramente excecional e por instinto na sequência de um cruzamento de Bryan Ruíz; depois, João Silva obrigou Rui Patrício à primeira grande defesa.

A página do bloco que estava destinada para a primeira parte já era mas as incidências continuavam a cair em catadupa: mais uma grande defesa de Caio Secco após livre direto de Mathieu (no canto, William Carvalho cabeceou pouco por cima); mais um lance de penálti na área de Feirense, sendo que desta vez foi marcado e posteriormente (bem) anulado porque a bola bateu na cabeça e não no braço de Flávio Ramos; mais uma oportunidade flagrante para o Sporting, com Bryan Ruíz a cabecear por cima da trave isolado; a segunda oportunidade flagrante para o Feirense, com Luís Machado a cabecear a rasar o poste da baliza de Rui Patrício. Isto ao sexto minuto de descontos, num final da primeira parte a toda a velocidade até nos descontos.

A um ritmo um pouco mais lento e com um toque de bola mais atabalhoado, continuou a ser um encontro frenético. E Doumbia lá apareceu de novo, aos 53′, a desviar de cabeça após canto de Bruno Fernandes da direita para outra extraordinária defesa de Caio Secco. Jesus arriscou tudo, lançou às feras um miúdo chamado Leão (se não conhece, chama-se Rafael Leão, tem 18 anos e vai dar jogador dos bons) e quase viu o júnior desbloquear o resultado, com o guardião do Feirense de novo a parar o remate. No seguimento, Gelson Martins marcou mas o golo foi bem anulado porque o extremo que tanta falta fez ao Sporting quando esteve lesionado estava fora de jogo.

Já depois de mais um falhanço de Doumbia na área (este o pior de todos, porque a forma como colocou o pé na hora do remate deixou muito a desejar…), foi o Feirense a dar nas vistas. E muito, quase com golo: Edson Farias ganhou espaço numa transição, preparou o remate e viu Patrício desviar ainda com a ponta dos dedos para canto.

Por muito que justificasse, até pela qualidade e volume de jogo ofensivo, o Sporting não conseguia marcar. Até que tudo mudou no lance mais “feio” possível: canto do lado direito, saída de Caio Secco a socar a bola para a frente, desvio na cara de Coates, bola a pingar na área sem dono e toque final de William Carvalho para a baliza deserta, naquele que foi o primeiro golo do capitão do Sporting na presente temporada. Sentiu-se o alívio mas ninguém ficou aliviado: Nuno Manta Santos arriscou tudo com a entrada de mais dois avançados até que Montero, que fez o jogo 100 pelos leões, fechou as contas do jogo no início dos descontos após assistência de Gelson Martins.

Na quinta-feira, os comandados de Jorge Jesus jogam no Cazaquistão com o Astana para a Liga Europa. E, tratando-se de uma eliminatória, esta longuíssima viagem terá grande importância em termos desportivos para o Sporting. Isso e a assembleia geral de dia 17, claro. Afinal, não se fala de mais nada a não ser isso. No futebol como na parte “política” do clube, pode fazer-se tudo de forma ótima, boa, suficiente ou má, com mais ou menos estabilidade, mas parece haver sempre uma “minoria de bloqueio”, com um dia um antigo presidente dos leões descreveu. Que, frente ao Feirense, só foi derrubada no último quarto de hora.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: broseiro@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site