Congresso do PSD

Congresso do PSD. A aclamação de um líder com oposição

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Há dez anos que não havia um líder entronizado com tanta oposição interna. O congresso que começa na sexta-feira não será morno. Rui Rio terá de começar já a lidar com críticos. O que está em causa?

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Vai ser o congresso do palmómetro. Os aplausos a Rui Rio ou as claques que se posicionam do lado crítico servirão de barómetro — de sexta-feira até domingo — para perceber se o PSD está dividido ou se o novo líder será devidamente aclamado. Em número de delegados ao 37.º Congresso do partido, há uma perceção de ambos os lados de que as tropas do novo presidente do PSD não têm uma vantagem esmagadora em relação às de Pedro Santana Lopes. Há pelo menos dez anos que não havia um congresso do PSD com uma oposição interna declarada. E é preciso recuar a 1984 para se ver uma clivagem tão acentuada sobre a relação com o PS.

Rui Rio chegará ao Centro de Congressos em Lisboa com potenciais adversários a ocuparem posições. Pedro Santana Lopes disse ao Expresso que “não pode fundir água e azeite”, mas foi convidado para cabeça de lista ao Conselho Nacional na lista do líder. Mas se esse encontro dá um sinal de apaziguamento, não significará que Santana deixe de dizer o que pensa aos congressistas. Depois há Luís Montenegro, Miguel Pinto Luz ou Hugo Soares — mais desafiadores. E outros protagonistas à espreita, embora sem estratégia de confronto, como Pedro Duarte ou Carlos Moedas, ou até Paulo Rangel, que levará no bolso mais um discurso para marcar, embora não necessariamente para criticar o líder.

A aproximação ao PS defendida por Rui Rio será o principal tema do congresso

Com o slogan do 37.º Congresso do PSD ainda fechado a sete chaves, e com Rio em silêncio há semanas, a expectativa recai sobre a capacidade que o novo líder terá para unir o partido. Antes de saber do convite a Santana Lopes para as listas do Conselho Nacional, José Eduardo Martins — um dos críticos de Passos Coelho que há dois anos apareceu no congresso como possível alternativa — disse esta terça-feira na RTP3 que, “para ser líder, é preciso alguma capacidade de superação e conciliação”. Mas também acrescentou que dadas as suas características pessoais, “o que distingue Rui Rio não é ser essa pessoa”. José Eduardo Martins antecipou que irá ao congresso “dizer umas coisas inconvenientes” e manteve no ar a dúvida que atravessa uma parte do PSD: “Não tenho a certeza de que [Rio] queira fazer esse apaziguamento”. Mas já o começou a fazer.

Se a conciliação de fações e a gestão dos equilíbrios internos é o principal tema para o interior do partido, para fora o grande assunto será a relação que Rui Rio quer ter com o PS de António Costa no curto prazo ou depois das legislativas. Embora não pareça estar especialmente preocupado com os críticos, o líder sabe que o congresso não é unânime em termos de delegados e que o partido apresenta neste momento uma cisão norte-sul (com proeminência para o norte) e que é necessário esbater essa clivagem.

A expectativa entre alguns dos apoiantes de Rui Rio com quem o Observador falou recai sobre o primeiro discurso do líder: anseiam que seja marcante e que possa logo aí começar a “destrunfar” os argumentos da oposição interna. Rui Rio falará pelas nove horas de sexta-feira, depois de Pedro Passos Coelho fazer a sua intervenção como líder cessante — que se espera ser mais simbólica e de despedida do que relevante quanto ao conteúdo político.

Pedro Santana Lopes perdeu as diretas, mas estará no congresso a questionar a aproximação ao PS. (FOTO: JOÂO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

No primeiro discurso, em que é suposto apresentar a sua moção de estratégia, Rio deverá falar para dentro, para o partido, mas não deixará de estar a olhar para o país. Sociais-democratas que estiveram ao lado do ex-presidente da câmara do Porto esperam que comece por “clarificar posições”, sobretudo em relação ao PS. Se lançar umas prioridades ou desafios ao PS, “o congresso é dele”, antecipa um rioísta de primeira hora. Mas também poderá amarrar alguns opositores internos, se por exemplo lançar o tapete a outros santanistas para assumirem responsabilidades eleitorais ou no próprio partido. Ainda ninguém sabe se o fará.

O posicionamento de Rui Rio em relação ao PS deverá ser moderado: nem tudo contra nem tudo a favor, na linha do que foi dizendo na campanha interna. Ou seja, nem corte de relações nem Bloco Central (que só aconteceria numa situação absolutamente excepcional). Da perspetiva do novo líder haverá duas posições em confronto no pavilhão da antiga FIL: ou se mantém o partido enquistado no seu reduto sem pontes para o PS, ou se abre uma possibilidade de diálogo em relação a temas específicos. O nível de abertura aos socialistas será um dos assuntos quentes das intervenções políticas.

Antes de se colocar o cenário de encabeçar a lista de Rui Rio ao Conselho Nacional, Pedro Santana Lopes ensaiou um discurso muito crítico numa entrevista ao Expresso, ao dizer que esta é “a primeira vez que o PPD-PSD vota uma estratégia de subalternização face ao PS”. Como candidato derrotado com uma votação expressiva, posicionou-se para continuar como uma voz dissonante:

Há uma legitimidade para liderar mas também há uma legitimidade para discordar e não faço tenções de renunciar a ela”, afirmou ao Expresso.

Pedro Santana Lopes deverá manter no congresso as interrogações que colocou na entrevista. A intervenção será nesta linha e não mudará com o facto de aceitar o convite: “[Rui Rio] tem de explicar como é que fará para ganhar as eleições e o que fará se ganhar. Mas o facto é que aquilo de que mais se falou da parte dele foi o que faz se não ganhar. É algo nunca visto”, disse Santana Lopes ao Expresso. Em 1984, no congresso de Braga, Santana foi um dos protagonistas da Nova Esperança, com Marcelo Rebelo de Sousa, contra o Bloco Central de Carlos Mota Pinto e o PS de Mário Soares (mais tarde, voltou-se a falar do tema quando Marcelo Rebelo de Sousa admitiu viabilizar os orçamentos de António Guterres, mas nessa época não havia possibilidades de entendimentos à esquerda).

A intervenção de Luís Montenegro será das mais esperadas, por haver a expectativa de se estar a posicionar para 2019

Do lado de Rui Rio, acredita-se que admitir vários cenários pós-eleitorais foi uma questão de honestidade durante a campanha interna. Mas agora no congresso o único cenário a considerar será ganhar primeiro as Europeias de maio de 2019 e depois as legislativas, caso o calendário eleitoral se mantenha. Uma tática possível para Rui Rio é deixar aos críticos as referências ao cenário de derrota.

Miguel Pinto Luz será um dos alvos dos apoiantes do líder, que o vão criticar por aparecer agora  (Miguel Relvas chegou a lançá-lo como possibilidade). O ex-líder da distrital de Lisboa fez uma carta aberta a Rui Rio a exigir vitórias, a defender uma estratégia de distanciamento do PS e o chumbo do Orçamento do Estado. A intervenção do vice-presidente da câmara de Cascais será no sentido daquilo que defendeu na carta.

Durante a campanha eleitoral assisti de fora, quase perplexo, a este discurso de aproximação ao PS quase justificativo de uma derrota do PSD e ao colocar do PSD como um partido-muleta. Esse não é o posicionamento do PSD, o PSD parte para qualquer eleição para ganhar”, disse Pinto Luz esta quarta-feira numa entrevista ao Público.

O seu argumento central é que a estratégia de aproximação ao PS não foi sufragada na campanha interna, como sublinhou na mesma entrevista: “Não existe mandato para este líder, após a campanha eleitoral que fez, após os debates e os esclarecimentos que fez aos militantes, fazer uma aproximação ao PS“, afirmou Pinto Luz.

A leitura dos críticos em relação ao contexto presente é que Rio vai começar o novo ciclo de liderança sem vantagem em relação aos socialistas e numa posição difícil, até porque o “enfraquece” a antecipação de ser um apoio do PS, diz um apoiante de Pedro Santana Lopes. A situação política é adversa, porque a perceção no país é que Costa tem mais probabilidades de ter um bom resultado nas eleições. A economia corre bem, mesmo que arrefeça nos próximos dois anos, o que não ajuda o PSD. E ainda há o fator do CDS e o potencial de crescimento de Assunção Cristas, avalia o mesmo santanista. “Mas o Rui Rio — argumenta — não chegou ontem. Anda aqui há 35 anos. Não é de subestimar. Alguma estratégia terá”. A evolução das sondagens nos próximos meses será decisiva para o posicionamento da oposição interna.

Um dirigente do partido antevê que Rio solte alguns fiéis de segunda linha para atacarem os críticos que derem a cara. A oposição interna espera que venham a ser desqualificados por quem os ataca. O principal argumento será a autoridade moral: se tinham tanta coisa para dizer, tanto pensamento e estratégia para pôr em prática, porque é que não se candidataram? Porque não foram a jogo? Que legitimidade têm agora?

Todos os nomes: um equilíbrio difícil

A segunda intervenção de Rui Rio será a mais aguardada pelos congressistas, quando ao final da tarde de sábado subir ao palco para anunciar os nomes para a direção do partido e para os restantes órgãos nacionais. Antes disso, na noite de sexta-feira, serão apresentadas as moções setoriais, onde se esperam algumas intervenções marcantes: a de Pedro Duarte, elaborada em parceria com o comissário Carlos Moedas, que defende repensar a progressividade dos impostos ou que se equacione um rendimento universal; a de André Brandão de Almeida e do deputado Ricardo Batista Leite a favor do uso da canábis para fins medicinais, mas também recreativos; a de Nuno Freitas, e da distrital de Coimbra, feito com José Eduardo Martins, que replica o seu manifesto de ambos a favor da social-democracia; ou a de Pedro Pinto, da Distrital de Lisboa que se adivinha como a mais crítica.

No sábado de manhã, serão apresentadas as propostas de alterações de estatutos, mas depois deve ser colocada a votação o adiamento desta discussão para o Conselho Nacional. Segue-se o debate político. Enquanto os bastidores aquecem com os convites para a Comissão Política e se fazem listas para o Conselho Nacional, Rui Rio vai fazer subir o nível de adrenalina dos seus apoiantes.

Ao fim da tarde ou início da noite saber-se-á. O nome do secretário-geral será fundamental para o aparelho partidário. Um apoiante de Rio diz ser importante resolver bem a questão do secretário-geral, por ser a pessoa com quem os dirigentes de todo o país vão tratar. E não estando no Parlamento “não se pode enganar no líder parlamentar” (sendo que esta quarta-feira o ainda presidente da bancada, Hugo Soares, anunciou que as eleições para o cargo acontecerão a 22 de fevereiro). Têm chovido nomes na última semana, mas com Rui Rio não é possível antecipar escolhas. Nisso, é uma espécie de Cavaco.

Já se sabe que o líder quer “abrir” a direção a outras sensibilidades, mas só o fará com quem tiver essa vontade de ser agregado. Os nomes mais fortes para os órgãos do partido são apoiantes próximos do líder, como Nuno Morais Sarmento, David Justino, Feliciano Barreiras Duarte, Paulo Mota Pinto, António Carvalho Martins, Adão Silva, Álvaro Amaro ou Luís Campos Ferreira. Uma das incógnitas é o papel que reservará para Salvador Malheiro, o seu diretor de campanha, envolvido em casos de caciquismo ou de adjudicações suspeitas na câmara de Ovar. A inclusão num lugar proeminente levará Rio a ter de dar explicações sobre o “banho de ética” com que se apresentou aos militantes. O palmómetro medirá o apoio dos congressistas.

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