Quando cheguei ao bar do Hotel Evolution, no Saldanha, em Lisboa, não sabia muito bem o que esperar. A festa já tinha começado há algum tempo e eu nunca tinha ido a uma festa para solteiros — muito menos sozinha. Fui entrando, vi pessoas conhecidas aos primeiros passos, mas não me queria juntar a ninguém. Afinal, numa festa para solteiros, o objetivo é conhecer gente nova.

Estava a decorrer um espetáculo com bailarinas de burlesco, que no fim acabaram por ir tirando (quase) todas as peças de roupa que tinham vestidas. Apareciam, mais ou menos, de meia em meia hora, e pelo meio iam passando outras músicas, que, com o passar do tempo, levaram umas quantas pessoas a dançar — a pista era tão divertida como constrangedora mas estava lá para ser usada.

As filas para ir buscar o que quer que fosse ao bar eram tão grandes que desisti de beber o que quer que fosse. Acabei por andar um pouco de um lado para o outro, apenas a observar: queria ver como é que as pessoas se davam a conhecer, o que é que faziam, tentar perceber o que diziam. Espantei-me com o número de pessoas que vi mexer no telemóvel: porque na verdade eram muito poucas e isso, convenhamos, não é muito normal. As selfies eram o conteúdo multimédia mais concorrido, mas fiquei por descobrir até que ponto estar numa festa daquelas era motivo de orgulho ou de partilha.

A dada altura, e estando numa festa para solteiros na cidade onde sempre vivi, acabei por encontrar duas pessoas que reconheci mas cuja companhia não me interessava muito. Também percebi, infelizmente, que ali sozinha seria “um alvo fácil”. Fui evitando o contacto até que fui abordada por um deles. A minha solução para evitar constrangimentos maiores foi afastar-me, lentamente, e fingir que estava à conversa com um rapaz.

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Sentei-me e pedi que fossemos falando, só para que quem me tinha abordado fosse embora. E resultou: apareci a meio de uma tentativa de engate de um trio de amigos que acabou por passar a noite comigo à conversa. E apesar de este pequeno detalhe ter enorme potencial para transformar esta história numa loucura imprevisível, devo acalmar todos os leitores porque não foi nada disso que aconteceu.

Como jornalista que sou, fui fazendo as primeiras perguntas. Como se chamavam, o que faziam e, sobretudo, porque é que estavam numa festa para solteiros. Tive todas as respostas que queria e a reação que esperava quando disse qual era a minha profissão.

“És jornalista? Deixa-me ver a tua carteira profissional”, perguntou-me um deles, engenheiro informático numa multinacional tecnológica. “Estamos lixados, amanhã isto vai estar tudo no jornal”, comentou outro dos rapazes, que trabalha há vários anos no ramo farmacêutico. Mas tranquilizei-os, e assegurei que quem lesse este artigo não saberia a identidade de ninguém além da minha.

“A vida é um cabaret”

A certa altura fui com um dos rapazes buscar bebidas para os quatro. Outro deles tentou meter conversa com umas raparigas sentadas ao nosso lado, mas depois de saber a idade delas desistiu. “Podiam ser minhas filhas”, comentou. Não podiam, na verdade, mas havia várias raparigas menores na festa.

Conversa puxa conversa e descobri que tinha alguns amigos em comum com eles e que um dos rapazes tinha namorada. “E a tua namorada sabe estás numa festa para solteiros?”, perguntei eu. “Sim, sabe, mas vim com os meus amigos e isso não tem mal”.

As danças de burlesco terminaram e a apresentadora despediu-se dos convidados. “A vida é um cabaret”, disse. “A vida é mesmo um cabaret, Ana”, concluíram os rapazes. E entre cabarets a conversa chegou ao tema que, honestamente, já esperava: o Tinder. E por que é que eu não tinha Tinder? Seria preconceito meu? Para que é que as pessoas usam o Tinder?

“Não podes ter o preconceito de achar que as pessoas só têm Tinder para se envolverem com outras, não é assim, e eu já conheci muitas raparigas que apenas queriam conversar, mais nada”, contou-me um dos rapazes, que insistiu para que eu instalasse também a aplicação, porque “me ia surpreender”.

“Eu já tive Tinder, mas agora não tenho. Acho que daqui a uns meses volto a instalar, mas já cheguei a encontrar namoradas de amigos meus”, contou-me o outro rapaz. Entretanto, o rapaz comprometido já tinha ido embora, para o caso de estarem a perguntar o que lhe aconteceu.

A noite terminou cedo, a um dia de semana também não esperava mais (sim, eu sei, isso é tudo relativo…). Como se não bastasse a simpatia do grupo de amigos durante a festa, ainda me acompanharam até casa. “Não sei se nos arrependeremos disto, mas onde é que te deixamos?”, disse-me um dos rapazes. Não havia motivos para arrependimentos. Fomos andando, a pé, e pelo caminho fui ouvindo mais histórias.

O mesmo rapaz que já tinha encontrado namoradas de amigos no Tinder contou-me que marcou um encontro com uma rapariga que conheceu através da app, mas que veio a descobrir que era amiga do seu irmão mais novo. “A minha sorte é que fui ver noutras redes sociais quem era a miúda, e ela não tinha a idade que dizia. Cancelei logo o encontro, mas sei que há rapazes que teriam ido na mesma”, confessou.

A noite foi uma surpresa. Vi mais pessoas a conhecerem-se, de modo amigável, do que no engate. Senti que o estereótipo de “estar sozinho/a no dia dos namorados é mau” tinha ficado à porta do hotel. E descobri que numa festa de solteiros também se descobrem amigos, se calhar até mais do que romances. E não é que esta foi a melhor parte?