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A geração Harry Potter nasceu há 18 anos. A magia não morreu

30 Junho 20157.542

Em junho de 1997, era publicado o primeiro volume das aventuras de Harry Potter. O sucesso foi quase instantâneo. Mas, passados 18 anos, o que representa ainda Harry Potter para quem o leu?

Sentada num banco, J.K. Rowling (então apenas “Jo” Rowling) esperava por um comboio que teimava em não vir. Estava de regresso a Manchester, de onde se tinha mudado há pouco tempo com o namorado, quando a imagem de um rapaz franzino, de cabelo preto despenteado, lhe veio à cabeça.

Rowling escrevia diariamente desde os seis anos, mas nunca tinha ficado tão entusiasmada com uma ideia nova. Sem uma caneta à mão, e demasiado envergonhada para pedir uma emprestada, deixou-se ficar ali, durante horas a fio, a imaginar as aventuras do jovem que era feiticeiro sem saber.

Foi nessa mesma noite, em 1990, que começou a escrever Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro livro da saga de fantasia. “Se tivesse abrandado as ideias, de modo a conseguir captá-las em papel, talvez tivesse perdido muitas delas”, escreveu mais tarde. Tinha nascido o “rapaz que sobreviveu”.

A publicação só chegou sete anos depois, pela editora inglesa Bloomsbury. A tiragem inicial foi de mil cópias. Seguiram-se as edições norte-americana, em 1998, e a portuguesa, em 1999. O sucesso foi quase instantâneo. O rapaz, que já era uma lenda na história, tinha-se tornado num fenómeno mundial.

"Ele vai ser famoso, não me espantaria nada se o dia de hoje viesse no futuro a ser conhecido como o dia de Harry Potter. Vão escrever-se livros a seu respeito, todas as crianças do nosso mundo conhecerão o seu nome!"
Professora Minerva McGonagall, "Harry Potter e a Pedra Filosofal"

Foi mais ou menos nessa altura que Joana Sevilha, Miguel Troncão e Ana Correia, colegas de faculdade, leram Harry Potter e a Pedra Filosofal. Para eles, foi o início de uma viagem que só terminaria com o sétimo livro, Harry Potter e os Talismãs da Morte. Mas a paixão pelos livros de J.K. Rowling nunca chegaria a morrer.

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Uma viagem a partir da Plataforma 9 ¾

Joana Sevilha tinha então dez anos e o primeiro filme estava quase a estrear nos Estados Unidos da América. Por cá, o trailer já passava nos ecrãs de televisão e os cartazes enchiam as paragens dos autocarros.

O livro chegou lá a casa meio por acaso. A estudante da Faculdade de Letras de Lisboa nunca tinha ouvido falar no Harry Potter, nem tão pouco em J.K. Rowling. “A minha mãe comprou o livro e achou que devia ser giro”, contou ao Observador. As primeiras páginas foram lidas em conjunto. “Ela lia uma página, e eu lia outra. Ou lia um capítulo, e ela lia o capítulo a seguir”.

Joana Sevilha nunca tinha lido um livro de fantasia. E até nem gostava muito de ler. “A única coisa que eu lia era O Clube das Amigas“, uma coleção de livros da Editorial Presença, “Os Cinco ou Uma Aventura. Quando eram coisas mais sérias, era por obrigação”. E também foi mais ou menos por obrigação que começou a ler Harry Potter mas, no final, acabou por adorar. “Lembro-me que no final do primeiro perguntei logo ‘quando é vem o próximo?'”.

O que a agarrou desde logo foi “a cena da magia”. “Wow, são feiticeiros!”, lembra-se de exclamar. “Wow, palavras estranhas! Ah, a comida aparece do nada!”. A partir daí, nunca mais parou de ler. “A minha mãe começou a comprar os livros para mim. Líamos os livros e íamos ver os filmes”.

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Com o passar dos anos, a paixão por Harry Potter foi crescendo. Durante o curso de Línguas, Literaturas e Culturas, chegou mesmo a pensar em dedicar a tese de mestrado aos livros de J.K. Rowling. “Tive essa ideia, acabei por desistir por variadas razões.”

Apesar de a tese ter ficado para trás, não conseguiu evitar fazer uma tatuagem. Num dos pulsos, escreveu a palavra always (“sempre”), retirada de um diálogo entre Severus Snape, professor de Poções, e Albus Dumbledore, diretor da escola de feitiçaria de Hogwarts. “Não consigo explicar o significado de always no livro sem parecer um bocadinho lamechas”, admite entre risos.

“O Snape fazia parte dos Devoradores da Morte”, os fiéis seguidores de Lord Voldemort. “Assim que ele descobriu que o Voldemort ia matar a mulher que ele mais amava — a única mulher que ele sempre amou — e a família, pediu ao Dumbledore para o ajudar a protegê-la. Ele sabia que, se o Voldemort descobrisse, o torturava e o matava”.

Esta dedicação à “ideia do amor pelo outro” é recorrente ao longo dos livros e “também acontece com outras personagens, como o Sirius, o Lupin ou a Tonks. Por isso, Always é mais do que amor, do que o bem. É para sempre”.

"Só quem leu é que percebe, é que sente as citações mais repetidas, as palavras mais importantes. Quem viu os filmes também, mas quem leu muito mais. Porque as personagens existiam na nossa cabeça antes de aparecerem no cinema." 
Joana Sevilha, fã de Harry Potter

Miguel Troncão, colega de faculdade, confessa que a sua história é parecida. “Eu era um bocadinho como a Joana. Só lia Uma Aventura e aqueles livros das Viagens no Tempo, da Caminho”. A primeira memória de Harry Potter é vaga, admite. “Acho que comecei a ler o segundo livro em primeiro lugar, sem saber que havia um livro sequer. E não gostei, porque estava a ler o segundo e não percebia quem eram as personagens”.

Depois do engano, só voltou a pegar na saga de J.K. Rowling mais tarde. “Os meus amigos já tinham começado a ler e adoravam aquilo. Então disseram-me que eu tinha de ler, porque era mesmo muito bom. Vi o primeiro filme e gostei. Li o primeiro livro e foi a loucura. Foi aí que comecei a adorar Harry Potter“. Tinha então 11 anos.

Colecionar os livros foi (e é) mais complicado. “O problema é que eu era de uma religião muito rígida no que toca à magia e à feitiçaria, então nunca tinha lido nada disso. Era testemunha de Jeová”, explica. “Foi a primeira vez que li alguma coisa do género. E a minha mãe proibia-me — e proíbe-me — de ter algum livro do Harry Potter em casa. Sempre li Harry Potter às escondidas.”

A maioria dos livros foi-lhe emprestada pelos amigos. Sempre que tentava comprar algum, tinha de o esconder. “Escondia-o, a minha mãe encontrava-o e deitava-o fora. Portanto, Harry Potter foi o meu primeiro momento de rebeldia. Apesar de eles não quererem, eu continuei a ler“.

“Acho que li os três primeiros umas 15 vezes, mas Harry Potter e os Talismãs da Morte é o meu preferido”, conta. Sentada ao seu lado, Joana Sevilha admite que foi o único em que chorou. “Sim, também foi o único em que chorei”, concorda Miguel Troncão. “Para mim, Harry Potter é uma grande viagem da adolescência. O último livro é o culminar de tudo e é onde tudo de facto importa. É onde tudo o que aconteceu atrás tem resolução. Tudo fica real”. Para além disso, “é aquele em que acaba; é a nostalgia dos seis para trás e a novidade do sétimo”.

Essa nostalgia também se sentiu com os filmes. “Havia um poster do último filme com as três personagens, o castelo de Hogwarts a arder a dizer it all ends” (“tudo acaba”), lembrou Joana Sevilha. “Vi alguém no Tumblr a dizer ‘aquele momento em que o filme é tão grande que nem precisa de ter o título no poster para perceberes‘”.

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Ana Correia conheceu Harry Potter através dos filmes. “Foi um bocado ao contrário”, admite. “Normalmente as pessoas leem os livros e depois veem os filmes, que é o eu prefiro fazer.”

Na altura tinha nove anos, mas lembra-se do primeiro encontro como se tivesse sido ontem. “Lembro-me que vi o filme no antigo Feira Nova, no Barreiro. Ia lá todos os fins de semana.” Foi num desses fins de semana que reparou no cartaz do primeiro filme, que estava exposto junto aos cinemas. “Lembro-me de ter entrado lá e de ter achado giro. Perguntei à minha mãe se podíamos ir ao cinema. E fomos. Gostei tanto, tanto, tanto do primeiro que disse assim ‘epá, eles deviam continuar com o filme!'”

A descoberta do livro aconteceu quase instantaneamente. “Saí do cinema, fui ao supermercado, e vi o livro com o nome do filme que tinha acabado de ler. Nessa altura, com nove, dez anos, fez-se luz na minha cabeça.” Comprou logo o segundo livro, Harry Potter e a Câmara dos Segredos, e nunca mais parou de ler.

“Era como um ritual”, lembra. “Sempre que saía um livro, comprava a primeira edição. Lembro-me que devorava o livro em uma ou duas horas. Também tenho o último em inglês, porque fiz questão. Também fui ver a estreia de todos os filmes desde o terceiro.”

Apesar disso, admite que só começou a vivenciar verdadeiramente a saga de J.K. Rowling na faculdade, quando encontrou “malta que gostava tanto de Harry Potter” como ela. “Percebi que não estava sozinha e que havia outras pessoas que também gostavam.

Apontar um livro favorito pode ser difícil, mas escolher uma personagem pode ser ainda mais complicado. “Não consigo escolher uma, tenho várias”, admite Joana Sevilha. “O Sirius é uma delas”. Já Ana Correia, está disposta a defender Bellatrix Lestrange com unhas e dentes.

“Foi uma personagem que eu imaginei como sendo completamente tresloucada. E também percebi que, de certa forma, a obsessão que ela tem com o Voldemort demonstra aquilo por que muita gente pode passar quando se é obcecado ou possessivo em relação a alguma coisa.” A interpretação de Hellen Bonham Carter nos filmes também ajudou a convencer a estudante da Faculdade de Letras. “Puseram-na no filme como eu a imaginava. Ainda me assustava mais.”

"Nós somos o Harry Potter. Somos a pessoa que tem de se esforçar todos os dias para conseguir, que levou porrada na primária. Nós somos o meio-termo, nós somos o Harry."
Miguel Troncão, fã de Harry Potter

Mas Miguel Troncão não tem dúvidas. “A minha personagem favorita é o Harry Potter porque o Harry Potter sou eu”, diz com toda a certeza do mundo. “Porque 99 por centro das pessoas não são a Hermione, não são o Ron, não são o Dumbledore. Nós somos o Harry Potter. Somos a pessoa que tem de se esforçar todos os dias para conseguir, que levou porrada na primária. Nós somos o meio-termo, nós somos o Harry. Por isso é que o Harry é a minha personagem favorita.

Porque gostamos todos de Harry Potter

Danielle Tumminio, autora de God and Harry Potter at Yale, um livro baseado nas aulas que deu na Universidade de Yale, nos Estados Unidos da América, na primavera de 2008, defende que a popularidade de Harry Potter deve-se ao facto de J.K. Rowling ter conseguido criar “um mundo incrivelmente imersivo para os leitores”. “A sua imaginação deve, certamente, ser elogiada”, disse a antiga professora ao Observador. Mas não só.

Para Tumminio, a grande mais-valia dos livros de Harry Potter é o facto de “dentro do seu mundo ficcional, existirem personagens que estão envolvidas em lutas que são intemporais”. “Têm de aprender sobre a morte, o amor, o sacrifício e o mal. Estes são temas sobre os quais todos pensamos. Chamo-lhes tópicos das três da madrugada, porque são estes que nos mantêm acordados a meio da noite quando estamos a passar por um momento difícil.” São estes que “fazem de nós aquilo que somos e aquilo que devemos ser” e é por isso que “os livros vão continuar a ser populares durante muito tempo”.

Para além disso, a antiga professora e teóloga acredita que Harry Potter é “único no estilo e na visão”, mostrando que é possível escrever — bem — para diferentes gerações de leitores. Mas, acima de tudo, “o motivo mais importante pelo qual acho que é um grande trabalho de literatura é porque diz coisas profundas sobre tópicos importantes”.

Para John Granger, investigador norte-americano que dedicou os últimos 12 anos a estudar o fenómeno de Harry Potter, a pottermania tem apenas uma explicação — a “mestria e significado” dos livros de J.K. Rowling. E nada mais do que isso.

“Vamos apenas dizer que Rowling conseguiu escrever um livro que é simultaneamente um romance de escola, um drama alquímico, um romance gótico, um bilungsroman [um romance de formação] órfão e um ótimo exemplo da melhor fantasia inglesa”, dentro do género de As Crónicas de Nárnia, de C.S. Lewis, e das obras de J.R.R. Tolkien”, explicou o autor ao Observador. “É uma grande façanha!”

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Para explicar o fenómeno, Granger desenvolveu aquilo a que chama a “Tese Eliade”. Na obra O Sagrado e o Profano, Mircea Eliade defende que as histórias têm uma função religiosa ou mítica na cultura secular. Ou seja, “quando o divino é atirado para a periferia da praça pública”, o homem experiencia o transcendental através da imaginação.

Para Granger, isto significa que as “histórias que oferecem uma experiência mais profunda, muitas vezes com um conteúdo espiritual implícito, significado e mestria”, são aquelas de que gostamos mais. “Os romances de Rowling são isso tudo. Em resumo, ela dá aos leitores aquilo que eles querem.

Para além disso, o investigador acredita que o sucesso alcançado por J.K. Rowling fez com que a literatura de fantasia se tornasse num “género mais respeitável para todas as editoras e para a maioria dos autores”. “Iria mais longe e diria que Harry Potter mudou as expectativas de leitura de seis gerações. Estamos a viver a era de Joanne Rowling em termos de história, quer gostem disso ou não.

"Estas histórias mudaram as expectativas de leitura de várias gerações. Ignorá-las é perder um dos eventos que moldaram o nosso período histórico."
John Granger, autor de "How Harry Cast His Spell"

Mas Harry Potter não se limitou a mudar as expectativas. Para a maioria dos leitores, foi muito mais do que isso. Miguel Troncão admite que foram os livros de J.K. Rowling que lhe abriram o caminho para a futura vida académica e profissional. Ana Correia não hesita em dizer que continuam a ser “o melhor escape e a melhor evasão possível”. Para Joana Sevilha, são isso tudo e muito mais — são importantes “porque me ajudaram a sobreviver na altura da adolescência”.

“Porque, sendo uma rapariga que usa óculos todos os dias, que tem muitas borbulhas na cara, que é uma excelente aluna e que é gozada por toda a gente da escola — de todas as escolas –, o Harry Potter foi o único escape de bullying durante dez anos.” E isso é mais importante do que qualquer outra coisa.

“Se estás a ouvir isto J.K. Rowling, obrigada”, atira Ana Correia. “Em nome de toda a gente, obrigada.”

Texto de Rita Cipriano, fotografia de Hugo Amaral, ilustração de Andreia Reisinho Costa.
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