A tasca, o morangueiro e o pernil: 50 anos depois, afinal quem é o David da Buraca?

16 Dezembro 20171.973

O famoso restaurante celebra meio século de existência e foi a propósito da data redonda que fomos conhecer a tasca que virou império.

Num dia de muito vento e chuva, a árvore centenária que morava à entrada do David da Buraca, restaurante icónico que celebra o seu 50.º aniversário este sábado, 16 de dezembro, caiu em cima de um camião da Schweppes. A confusão agravou-se: a árvore tinha deitado abaixo uns cabos de eletricidade. No meio da confusão, um senhor que morava umas casas acima decidiu ajudar. Pegou nos cabos sem qualquer tipo de proteção e imediatamente ficou colado, por culpa da corrente elétrica. O homem tentou largar os ditos cabos, mas não havia como. Ao ver este cenário, um dos condutores que estava parado no trânsito saiu do carro, foi à bagageira e tirou de lá um pau enorme. Correu em direção ao eletrocutado e começou a bater-lhe nos braços. “Só assim é que o homem conseguiu soltar-se. Por pouco não morria!”. Esta é uma história que facilmente podia ser contada num filme de Quentin Tarantino mas, como se costuma dizer, a realidade muitas vezes ultrapassa a ficção.

“Tudo isto aconteceu há uns bons anos”, conta ao Observador David Alves Rodrigues, o “David” que aparece no letreiro do restaurante. Hoje, com 78 anos, o empresário recorda este e muitos outros episódios que marcaram a vida deste espaço nos arredores de Lisboa que, só por si, já merecia uma adaptação ao grande ecrã. Superação, postas mirandesas, grandes figuras da história do país e resiliência — não falta nada à biografia deste restaurante que começou como uma pequena tasca e hoje faz parte de um “império” que inclui uma quinta em Caneças, uma cafetaria e outras três casas onde quem manda é a comida tradicional portuguesa.

De Ponte de Lima ao Príncipe Real

O relógio batia nas dez e meia da manhã quando o Observador chegou ao número 20 da Estrada da Buraca. O parque de estacionamento estava praticamente vazio, pouco se passava neste trecho de alcatrão por onde “toda a gente tinha de passar”, antes da construção da 2.ª Circular, artéria importante de acesso ao centro alfacinha. Contudo, mesmo à porta do restaurante, a uns poucos metros de onde tínhamos estacionado, já se via alguma movimentação. “Não pá, não quero comprar caracóis”, dizia um senhor de cabelo branco meio curvado. O rapaz que tentava impingir os seus gastrópodes atirou a toalha ao chão e nós seguimos atrás do ancião.

Era assim a primeira cozinha do David da Buraca, algures no final dos anos 60, início os anos 70. ©Fotografia cedida por David Alves Rodrigues

Já dentro do restaurante — um impressionante complexo com seis salas de refeição espalhadas por dois edifícios grandes e uma espécie de pavilhão –, a pergunta inevitável: o senhor é que é o David da Buraca? “Sou sim, muito prazer”, respondeu o velhote com uma voz muito calma, tímida e com uns quantos decibéis a menos, dado o barulho que já vinha da cozinha. Panelas enormes fumegavam, dois recipientes transbordavam com pernis assados e, no meio disto tudo, carrinhas de fornecedores não paravam de chegar. “Aquele senhor leva ali uns quilos que porco preto”, dizia David referindo-se a um jovem que transportava sobre o ombro uma enorme secção de carne embalada em plástico. Rapidamente começamos um tour pelo gigante onde todos os dias comem duzentas pessoas, “mais coisa menos coisa”, e que celebra o seu 50.º aniversário este sábado, 16 de dezembro. Enquanto caminhávamos, o nosso cicerone ia falando da sua vida.

“Eu não sou de cá [Lisboa], vim de Ponte de Lima sozinho quando tinha 12 anos”, vai contando. “Vinham uns para Lisboa e nós queríamos seguir o mesmo caminho, sabe como é”, conta. Os que já tinham assentado arraiais na capital prometiam integração facilitada e emprego e isso foi o que bastou para David deixar “a terra”. “Saí na estação do Rossio, subi as escadinhas do Duque e segui para o Príncipe Real”, explica. À sua espera estava um emprego como carvoeiro, os rapazes que andavam de porta em porta a vender carvão, combustível muito procurado, principalmente por restaurantes e casas de pasto. “Foi assim que comecei a entrar em contacto com o mundo da restauração”, acrescenta.

"O" David da Buraca no seu escritório. Atrás dele está a foto do primeiro filho

A adaptação à nova vida não foi fácil e David não esconde isso: “No início chorava muito, queria voltar para a minha terra, mas depois foi passando.” O que ajudou a atenuar esse sentimento? A rotina, claro, mas o tio, familiar com quem vivia, também deu uma ajuda. “Uma vez disse-me: ‘Se falas mais em voltar para a tua terra dou-te tantas chapadas como cabelos brancos tenho na cabeça!’… E ele já tinha o cabelo todo grisalho!”, sorri.

Aos poucos foi conciliando o trabalho do carvão com o da comida, começando a trabalhar “em algumas casas de pasto” por Lisboa. Depois de ter passado por duas ou três, estabeleceu-se numa que ficava “no fundo da Calçada dos Mestres, em Campolide”. O tempo tinha passado e David, já com “26 ou 27 anos”, começou a ser “chateado” por Domingos Duarte, um “primo de uns primos” que o queria envolver num negócio. “Já fiquei com aquilo na Buraca”, dizia-lhe. Domingos queria que David aceitasse ser sócio dele numa pequena tasca nesta zona perto de Benfica. Depois de alguma hesitação, o sim definitivo surgiu e no dia 16 de dezembro de 1967 o David da Buraca abria portas — “lembro-me perfeitamente, fizemos a escritura na rua Rodrigo da Fonseca”.

E o sócio não levou a mal que o restaurante ficasse só com o seu nome? A resposta surpreendeu: “Foi uma espécie de medida de marketing. Sempre que tinha mudado de casa, antes, montes de clientes vinham atrás de mim para o novo sítio. Achámos que fazia sentido o meu nome aparecer, que traria mais clientes”, explica o septuagenário. A verdade é que foi isso mesmo que aconteceu.

O David da Buraca original ocupava um pequeno espaço que hoje corresponde à sala de refeições que fica do outro lado da rua do Panças, outro conhecido restaurante de comida tradicional. Havia um balcão que percorria todo o lado esquerdo (de quem entra vindo da rua) e umas quantas mesas soltas. Nessa fase inicial os clientes vinham mais “para beber um copito”, mas aos poucos David começou a cozinhar petiscos como filetes de bacalhau ou um caldinho de camarão (“vendíamos carradas disso!”). Algum tempo depois da inauguração a mulher juntou-se no restaurante e desde então nunca mais deixaram de trabalhar juntos (“olhe que já estamos casados há 54 anos”, diz com orgulho).

A fama foi crescendo a ritmo acelerado, este “era um bairro antigo, muita gente morava aqui mesmo ao lado” e muitas outras pessoas passavam-lhe à porta todos os dias, estivessem elas a caminho do futebol — “o pessoal do Casa Pia ou do Benfica, por exemplo, vinha cá comer antes do jogo e depois regressava no fim, para picar qualquer coisa”. O Cardeal Cerejeira, por exemplo, era uma das pessoas que ali passava todos os dias. Não ia ao restaurante com muita frequência — “o chauffeur dele é que vinha cá muitas vezes, gostava muito de morangueiro [um tipo de vinho muito aromático e refrescante que é tido como sendo de baixa qualidade]” — mas numa das visitas brindou Maria Matos, a mulher de David, com uma bênção original: “Uma vez, antes de se ir embora, disse-lhe ‘Que Deus te abençoe e que de um ovo faças muitos bifes’ “, conta, entre gargalhadas.

Na altura da mudança para o novo emprego, David foi viver com a mulher e o filho de dois anos para “um quartinho muito pequeno” que havia dentro do restaurante. Não havia muitas casas disponíveis ali perto e ir morar para mais longe “estava fora de questão”. Só mais tarde se mudaram para umas águas furtadas ao lado do restaurante.

A cozinha do David da Buraca

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dois anos depois da inauguração, David decide comprar o espaço do lado e aumentar o restaurante. A clientela não parava de crescer, trabalhavam todos os dias das sete e meia da manhã às duas, três da madrugada (“a minha mulher até lavava a roupa dos empregados!”) e isso foi motivo suficiente para se dar a primeira expansão do David da Buraca. Antes disso, porém, a vida deste limiense sofreu uma reviravolta trágica e inesperada.

“Comprámos o segundo edifício pouco depois do falecimento do meu filho”, disse David. Subitamente, a sua cara mudou e ficou com um semblante mais pesado. “Ele tinha 21 anos quando faleceu… e um filho de seis meses”, conta. De forma súbita, o primogénito da família Matos adoeceu e não conseguiu superar a misteriosa enfermidade. “Fomos abaixo um bocadinho, mas foi preciso continuar”, contou David.

Os novos edifícios, os banquetes e os casamentos

“Epá, vamos ter de ter cuidado com a cabeça aqui!”, disse David enquanto nos guiava pelas escadas que dão acesso ao piso superior do David da Buraca. No topo da escadaria estava um andaime improvisado com tábuas: “Mudámos e pintámos todos os telhados, estamos ainda a acabar de arrumar tudo”, explica o cicerone.

Na antiga sala de refeições, empregados do David da Buraca almoçam antes de servirem um casamento

“Tínhamos um terraço muito grande e quisemos aproveitá-lo também”, conta, antes de explicar que assim que essa obra ficou concluída (“Algures em 75, não me recordo bem”) o David da Buraca passou a organizar banquetes e casamentos (área que viria a explorar ainda mais, principalmente depois de comprar a Quinta da Estrela, em Caneças). Uns anos mais tarde era concluída a última fase de expansão: foi comprado um terreno vizinho e isso permitiu a construção de um pavilhão novo, feito de raiz, e o parque de estacionamento.

No meio de tudo isto, David não quis perder a ligação “à terra” e decide abrir um pequeno café e restaurante em Ponte de Lima. Trabalhava todos os dias da semana e às sextas-feiras seguia rumo ao Norte para trabalhar mais um pouco. “Era duro”, admite, mas ao menos essas viagens faziam com que regressasse a Lisboa com alguns ingredientes que só “lá em cima” é que conseguia encontrar. “Tinha lá um talho muito bom” e quando havia falta de bacalhau comprava-o em Aveiro, a caminho de Lisboa.

Hoje já não faz estas viagens, mas não é por isso que deixou de receber produtos limianos: “Ainda me trazem umas vitelas de vez em quando”, explica. A conversa divergia cada vez mais para a comida e por isso mesmo foi impossível não perguntar se David tinha algum prato favorito na sua ementa. A resposta foi diplomática, “gosto de tudo”, mas não é grande apreciador de açorda e bacalhau com natas. Os clientes, por sua vez, tendem a gravitar em volta do pernil assado (“vendo daquilo às toneladas!”), do arroz de polvo ou até do javali.

David (à dir.) e o filho Paulo (à esq.).

São muitas as histórias de celebridades e políticos que por aqui já passaram e o próprio David orgulha-se de enumerar alguns. Começa por falar de Marcelo Rebelo de Sousa, o “senhor professor” que sempre foi muito simpático e que “organizou muitos jantares de grupo” nos tempos em que lecionava. “Vinha cá muitas vezes com os alunos”, explica, entusiasmado. A última vez que por aqui passou, recorda, foi antes de se candidatar à Presidência da República (PR). David admite que já pensou muitas vezes em convidá-lo a lá passar, mas não o quer “maçar” porque “ele tem muito que fazer”.

“O pessoal do Benfica” também é presença recorrente no seu restaurante. Recorda com alguma saudade os tempos em que Eusébio, Humberto Coelho, António Simões e Toni se juntavam para grandes almoçaradas. O “Pantera Negra” até tinha uma mesa favorita, num dos cantos da sala de refeições principal.

Qual é o segredo do sucesso?

Trabalham 25 pessoas todos os dias no David da Buraca. Há quem lá esteja há 40 anos e muitos funcionários já se “estabeleceram” em restaurantes próprios.

A pequena tasca dos anos 60 transformou-se no Grupo David da Buraca, aglomerado de vários negócios de restauração que foram distribuídos por diferentes membros da família. Paulo, o segundo filho de David e Maria Matos, está no restaurante original desde 87. “Quando não te safas na escola, tens de trabalhar”, contou o herdeiro. Atualmente, é ele quem gere este espaço, o pai já lhe passou o testemunho apesar de ainda lá estar todos os dias. Vera Rodrigues, a única filha do casal, ficou encarregue de gerir a cafetaria do grupo, um pequeno espaço chamado Jardins de Benfica.

O senhor da esquerda é o que interessa: porque é o verdadeiro David e por causa daquele bigode

As redondezas do restaurante já mudaram muito. Não há um terço do tráfego que havia antes, os descampados que rodeavam o negócio (e onde punham os cozinheiros novos “a caçar gambuzinos” à noite, em jeito de brincadeira) deram lugar a enormes urbanizações, mas o David da Buraca continua firme. “Ainda nos visitam clientes que frequentavam a tasca onde tudo começou”, diz David. “Há quem já traga os bisnetos, veja lá!”

Quando questionado sobre como foi possível garantir este nível de sucesso, o empresário é humilde: “Muito esforço, a ajuda dos meus empregados e, especialmente, da minha mulher, que sempre me acompanhou”, explica.

“Há uns tempos”, conta, “tentaram comprar-me isto tudo, uns brasileiros que não paravam de andar atrás de mim…”. Cheio de orgulho, David explica que não aceitou e nunca aceitará. “Sabe, para trabalhar na restauração é preciso ter-se muito gosto por esta vida… Eu sinto-me confiante, gosto muito de tudo isto e vou continuar a vir cá sempre que puder.”

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