Alegria, alegria superbacana: a Tropicália faz 50 anos

22 Outubro 2017174

21 de outubro de 67: Caetano Veloso e Gilberto Gil montaram o circo e orientaram o carnaval. Entramos na viagem e na história tropicalista com primeira paragem em Salvador da Bahia e última em Lisboa.

Aterrorizado, Gilberto Gil garante que não sai da cama. Os corredores no Hotel Danúbio, São Paulo, estão em alvoroço, e Caetano Veloso desespera com o ataque de pânico do amigo, logo agora, no dia que têm de subir ao palco da TV Record e deflagrar um movimento que mudaria para sempre a música brasileira.

“Só me recordo de uma agonia tão grande no dia que fui preso” confirma Gil no documentário Uma Noite em 67, sobre as apresentações históricas no III Festival de Música Popular Brasileira. Absolutamente convencido que “estávamos mexendo em coisas perigosas” — como lembra Caetano no livro Verdade Tropical — apenas Paulinho Machado de Carvalho, o próprio dono da TV Record, consegue demover Gil a abandonar a segurança do lençol e apresentar “Domingo no Parque” ao politizado Brasil pós-golpe militar.

Ao lado de “Alegria, Alegria” de Caetano, as duas canções foram a faísca para o incêndio da Tropicália, que celebra 50 anos desde que um baiano se recusou a sair da cama do hotel e outro orientou o carnaval, no dia 21 de outubro de 1967. Em homenagem fizemos um roteiro tropicalista que começa em Salvador da Bahia e termina numa recensão alquimista dentro do castelo medieval de Sesimbra.

Teatro Vila Velha, Salvador, Bahia

A Bahia de Todos os Santos é também a Bahia de todos os tropicalistas. Em 1964, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e até a indepentende Maria Bethânia, estavam todos no mesmo palco, inaugurando o novo teatro de Salvador, na Avenida Sete com uma vista deslumbrante para a baía que dá nome ao estado. A aposta foi arriscada. Juntar a nova geração de músicos e introduzir o Teatro Vila Velha no surto musical de João Gilberto, Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

Caetano Veloso num debate na Faculdade de Arquitectura e Urbanismo, em 1968 (foto: filme "Tropicália")

O espetáculo Nós, por exemplo, foi um sucesso inesperado, talvez pela forma entusiasta com que um monte de desconhecidos baianos cantavam a Bossa carioca, ou pela presença de Gilberto Gil, um músico popular da TV regional. “Caetano, vem ver o preto que você gosta”, dizia carinhosamente a mãe do filósofo amador de Santo Amaro, irmão da vibrante cantora adolescente. Quando o fã finalmente conhece a personalidade negra da TV, a amizade é imediata, e trocam ideias que acabam por resultar na estreia do Teatro Vila Velha.

Entre os devotos deste grupo peculiar de pessoas, desde o taciturno Tom Zé à virilidade irredutível de Maria Bethânia, estava Nara Leão, a musa do estilo musical que era recriado em palco. Mas a musa não estava na Bahia para sessões saudosismo, procurava saltar fora da febre que até contagia Nova Iorque, desde que João Gilberto suplicou “vai minha tristeza”. Quem sabe, em vez dos sussurros sincopados de João, a próxima tendência no Rio de Janeiro podia ser uma voz com a força dramática desta terra baiana, mesmo que para isso tivesse de convencer o irmão franzino a acompanhar Maria Bethânia.

Caetano Veloso e Maria Bethânia sentavam obsessivamente no tasco Budo, em Santa Amaro, único estabelecimento onde o dono teve a inteligência de comprar o álbum Chega de Saudade, de João Gilberto. Quando vão morar para a capital de Salvador, ignoram a natural timidez e alimentam sem amarras uma fome insaciável por conhecimento, descobrem os anos 60 da Pop Art e Nouvelle Vague, de tipos barbudos marxistas e intelectuais que palestram pelo Museu de Arte Moderna da Bahia, Casa da França, ou no Teatro Santo Antônio.

[“Chega de Saudade”, por João Gilberto:]

Porém, é o primeiro amor por Chega de Saudade que junta os dois irmãos a Gilberto Gil e Gal Costa. Quando vão montar o ingénuo Nós por exemplo, ignoram que já estavam com um pé dentro do maior reduto de resistência cultural ao golpe de estado que acaba de ser proclamado. No teatro brasileiro começa um movimento de oposição intelectual ao governo militar, motivado pelas mesmas pessoas que compunham o extinto Centro Popular de Cultura, uma organização estudantil que não sobreviveu ao golpe, mas serviu de base para esta nova oposição cultural.

Nestes moldes nasce o espetáculo Opinião, no Teatro de Arena de São Paulo, com a protagonista Nara Leão. Aos poucos, o espaço ocupado pelos músicos e artistas renasce politizado, uma resistência sem fim que começou em 64 e prossegue até hoje, onde o fantasma da intervenção militar ainda assombra o país, podemos testemunhar isso pelas palavras recentes do General Mourão, que garantiu em pleno 2017 a solução militar como uma via possível, se o judiciário “não solucionar o problema político”.

Em 68, no auge do tropicalismo, Caetano faz a devida homenagem ao mestre, no primeiro álbum bombástico de Gal. Os dois já tinham gravado antes Domingo, um disco a meias só de Bossa, e agora era importante demonstrar que apesar da subversão do novo movimento, ainda eram meros súbditos do cantar gilbertiano.

O golpe espetou fundo a lâmina de repressão, e no final do ano as canções sobre um Brasil idílico de magnífica fauna, flora e garotas na praia deixa de fazer qualquer sentido. No entanto, sem a Bossa de João Gilberto nunca iria existir Nara Leão, Nós por Exemplo, Tropicália, ou sequer tema de conversa entre Caetano e Gil.

Em 68, no auge do tropicalismo, Caetano faz a devida homenagem ao mestre, no primeiro álbum bombástico de Gal. Os dois já tinham gravado antes Domingo, um disco a meias só de Bossa, e agora era importante demonstrar que apesar da subversão do novo movimento, ainda eram meros súbditos do cantar gilbertiano. “Eu, você, João girando na vitrola sem parar/ E o mundo dissonante que nós dois tentamos inventar”, sussurra Gal em “Saudosismo”, canção que só foi liberada pelo governo militar um ano depois da gravação, e em vez de jovial homenagem se torna numa nostálgica lembrança do início pacato em Salvador, antes da ditadura, antes do movimento, antes da prisão.

[“Saudosismo”, de Gal Costa:]

Teatro Arena, Copacabana, Rio de Janeiro

Provavelmente a piada mais repetida de Copacabana é que os músicos da Bossa Nova tinham de sussurrar para não incomodar os vizinhos da Nara Leão, criando assim o estilo inconfundível de cantar. Difícil acreditar em vizinhos que iriam reclamar do som amável de Carlos Lyra e Roberto Menescal.

Apesar da graçola, o apartamento de Nara em frente ao mar foi mesmo onde confluíram todos os músicos da ocasião, criando no processo o mito musical do carioca, o indivíduo desocupado que passa o dia a beber água de coco e a tomar banhos de sol. “O mito é o nada que é tudo”, já dizia Fernando Pessoa, e o não fazer nada virou o tudo que qualquer brasileiro devia querer ascender, curtir uma praia na exclusiva Zona-Sul carioca, o mesmo cenário da novela passados todos estes 50 anos.

Nara Leão (Foto: filme “Tropicália”)

A Nara Leão de 64 ainda estava no mesmo apartamento na Avenida Atlântica, mas já não era a mesma pessoa. Assim como grande parte dos seus amigos, de Edu Lobo a Chico Buarque, procurava uma música brasileira mais ampla, inclusiva, de reação à ditadura, com bastante samba dos carentes morros, e qualquer coisa da exoticidade do sertão nordestino. O espetáculo Opinião, dirigido por Augusto Boal e encenado por Nara, Zé Ketti e João do Vale, foi o projeto ideal aclamado pela resistência intelectual, e depois do sucesso em São Paulo, estreia no Teatro Arena em Copacabana.

Estafada pela longa temporada, a cantora decide que chega a hora de passar o testemunho. “A Nara fica cansada daquilo e chega diretamente de Salvador a Maria Bethânia, com 17 anos, que fica hospedada lá em casa”, explicou ao Observador Jards Macalé, violonista do espetáculo. Maria Bethânia, vigiada por imposição do pai pelo irmão Caetano, é um encaixe ideal no conceito do Opinião, com encanto suficiente para abrir a porta a todos os restantes baianos do Teatro Vila Velha, confirmando a máxima que “toda menina baiana tem encantos que Deus dá.”

Jards Macalé. O génio maldito da música brasileira

“Nós tínhamos percebido que, para fazer o que acreditávamos que era necessário, tinhamos de nos livrar do Brasil tal como o conheciamos. Tínhamos de destruir o Brasil dos nacionalistas, tínhamos de ir mais fundo e pulverizar a imagem do Brasil carioca”, escreve Caetano Veloso em Verdade Tropical, o livro que celebra 20 anos de lançamento, com direito a edição comemorativa. Nessa obra biográfica, Caetano confessa que chegar à cidade da Bossa foi uma alegria imensa, apesar de aos poucos se convencer que o mito carioca era um inimigo a abater, assim como os fervorosos comunistas nacionalistas. “Acabar de vez com a imagem do Brasil nacional-popular e com a imagem do Brasil garota Zona Sul”, explica, acrescentando que a Tropicália “não era apenas uma revolta contra a ditadura militar”.

Hoje, Caetano mora no Leblon, está em paz com a cidade maravilhosa, é presença comum em eventos culturais pela Zona-Sul, e foi até personagem na peça de jornalismo mais reconhecida da internet brasileira, o memorável dia que, “Caetano estaciona carro no Leblon nesta quinta-feira” (a data é inclusive celebrada todos os anos). Certamente vai estacionar o carro este mês no Leblon, e em Copacabana, onde está a cantar com os três filhos no concerto familiar “Caetano, Moreno, Zeca, Tom”, a poucos quarteirões do teatro que a irmã arrepiou a plateia num grito imenso de Carcará.

[“Carcará”, Maria Bethânia]

Solar da Fossa, Botafogo, Rio de Janeiro

“Mas as pessoas na sala de jantar/ São ocupadas em nascer e morrer”. O coro graceja no balanço da cítara, e como dramáticas Bacantes, acusa as pessoas de renegar “uma canção iluminada de sol.” O julgamento dos Mutantes em “Panis Et Circenses” encontra culpados em quem não embarca na viagem lisérgica, que está a comer e não reage à violência sangrenta com punhais “de puro aço luminoso”, que está cego dentro do umbigo, arena egocêntrica de pão e circo.

De forma mais clara, os arguidos eram as “pessoas na sala de jantar” que não moravam no Solar da Fossa em Botafogo, aparthotel dionisíaco com sessões de sexo ao sabor de folhas ayahuasca. “Mandei plantar/ Folhas de sonho no jardim do Solar”, esclarecem finalmente Rita Lee, Arnaldo e Sérgio Baptista. “As folhas sabem procurar pelo sol/ E as raízes procurar, procurar.” Procurar, procurar, a busca incessante de Caetano Veloso pelos quartos do Solar da Fossa, homenageado nesta canção, pilar central do álbum manifesto Tropicália ou Panis et Circencis, latim tosco para “Pão e Circo”, política populista do Império Romano.

[“Panis et Circenses”, dos Mutantes]

Na Rua Lauro Muller 116, hoje morada do principal Shopping de Botafogo, Caetano vivia um renascimento intelectual na companhia do vizinho Rogério Duarte, apesar do “mínimo de serviço de limpeza e arrumação de quartos.” Além de Rogério, que mais tarde seria o designer das capas tropicalistas, com o escritor Zé Agrippino discutia incessantemente qual o futuro da arte no cenário da incerteza pós-golpe.

Pelos corredores andavam Paulinho da Viola, Paulo Leminski, Tim Maia, Gal Costa, em celebração da “loucura das drogas, com muita maconha, ácido e bebida”, nas palavras de Toninho Vaz, escritor de Solar da Fossa, A República dos Magros. Numa dessas sessões memoráveis recebem a visita de Gilberto Gil, informado de chegada que a moda agora é ayahuasca, uma folha usada pelos índios da Amazônia em cerimônias religiosas. Gil aceita o chá das cinco, e pela meia-noite ainda estava numa complicada bad trip em São Paulo, com tenebrosas premonições do futuro exílio.

Caetano estava completamente extasiado. Sozinho, anda do Solar até ao Cervantes, e reflete na abordagem céptica e agressiva de Glauber Rocha, um prisma onde talvez fosse possível desenhar em branco um novo Brasil, de canções mitológicas com sangue e reacção, contra a esquerda populista, contra a direita militar, contra qualquer pessoa na sala de jantar.

Gil, casado e com dois filhos, testava a vida de pessoa “ocupada em nascer e morrer”, com trabalho de gravata na empresa Gessy-Lever, em São Paulo. Mas o bichinho era forte demais, e nas horas vagas o músico prodigioso consegue um lugar de destaque no programa musical de maior audiência da TV, o “Fino da Bossa”, com Elis Regina e Jair Rodrigues.

No Cervantes, snack bar de Copacabana com esplêndidas sanduíches de pernil com abacaxi e queijo, o trio da vida airada tentava digerir “Terra em Transe”, o último filme de Glauber Rocha, o génio indiscutível do Cinema Novo. Rogério Duarte tinha sido o designer do filme anterior, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, e concordava com a agressão do filme, enquanto Zé Agripino estava mais reticente, normalmente preocupado apenas com os heróis internacionais, como Marilyn Monroe, Super-Homem ou o Tio Patinhas.

[Excerto de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha]

Caetano estava completamente extasiado. Sozinho, anda do Solar até ao Cervantes, e reflete na abordagem céptica e agressiva de Glauber Rocha, um prisma onde talvez fosse possível desenhar em branco um novo Brasil, de canções mitológicas com sangue e reacção, contra a esquerda populista, contra a direita militar, contra qualquer pessoa na sala de jantar. “Eu, na plateia, vi, não o fim das possibilidades, mas o anúncio de novas tarefas para mim”, lembra Caetano em Verdade Tropical, sobre a primeira de muitas idas ao cinema de Copacabana, onde estava o último filme de Glauber Rocha e ainda está a melhor sanduíche de pernil no Rio de Janeiro.

Teatro Popular do Nordeste, Recife

“Chorei quando eles tocaram ‘Pipoca Moderna’. Aquilo tinha uma aparência de rústico, de primário, mas era, na verdade, altamente sofisticado. Era muito moderno, como o título da canção, orgulhosamente, anunciava. E aquela composição radicalmente nordestina me fez entender de fato, e pela primeira vez, o “primitivismo” moderno e complexo que soava no ritmo seguro das guitarras do rock and roll. Ou seja: a cultura popular pernambucana me ensinou a amar os Beatles.”

O discurso de Gilberto Gil em Recife, na altura como ministro de Cultura, recorda o momento que o baiano viaja até ao longínquo Caruaru de Pernambuco e ouve pela primeira vez a Banda dos Pífanos, um conjunto folclórico que compõe a futurista “Pipoca Moderna”. Ao bom jeito Giacometti, Gil usa um gravador portátil para registar a estranha música de sopros voadores, que mais tarde gravaria em Expresso 2222, e registar o conceito fulminante que atravessa sua mente, o renascimento da música nordestina como uma criação contemporânea de sertanejo, forró, baião, maracatu, uma massa de tradições populares digeridas em canções pop de três minutos, que bem podiam ser um novo single dos Beatles.

[A Banda de Pífanos de Caruaru com “Pipoca Moderna”]

No Teatro Popular do Nordeste, na Avenida Conde da Boa Vista, Gil apresenta ao público de Recife o álbum de estreia. O teatro estava dentro do círculo de encenação brechtiana de resistência ao regime, operado por Hermilo Borba Filho, de tal forma fundador, que quando morre nos anos 70 leva consigo o teatro.

O projeto da tournée foi desenhado por Guilherme Araújo, o empresário que ainda não apareceu nesta história, mas foi quem viabilizou a coisa administrativa e financeira de toda a brincadeira de fazer movimentos e manifestos. Durante sete semanas, Gil toca as canções de Louvação, entre elas o clássico “Viramundo”, parceria com o baiano José Carlos Capinam, respeitado poeta e membro fundador da Tropicália. Ao lado de Guilherme, Gil fica perplexo com a riqueza musical de Pernambuco, conhece importantes músicos do estado como Naná Vasconcelos, Lia de Itamaracá e Geraldinho Azevedo, motivadores das excursões musicais para Caruaru e Nazaré da Mata, ao encontro dos maracatus da região.

Em 68, o álbum tropicalista de Gil abre com “Frevo Rasgado”, influência direta destas pesquisas sobre o gênero carnavalesco, nos dias de hoje finalmente preservado e referenciado no Paço de Frevo, museu no centro de Recife que é uma construção viva da importância da música em Pernambuco.

[“Frevo Rasgado”, de Gilberto Gil]

“Nós não estávamos mais interessados no que se fazia na música brasileira”, explicou poucos anos depois o empresário na Rolling Stone, recordando a viagem de regresso no avião, com um Gil elétrico a tentar explicar que os Beatles, Jovem Guarda, Dylan e a Banda dos Pífanos podia ser tudo a mesma coisa. “Quando os dois voltaram, Gil estava transformado”, confirma Caetano em Verdade Tropical, “ele chegou no Rio querendo mudar tudo, repensar tudo”.

Na cabeça de Gil, além do renascimento musical, o Nordeste seria como a personagem das canções, a zona miserável do Brasil a ser celebrada, onde todo o dia se espremiam quase refugiados dentro do pau de arara para arriscar a sorte em São Paulo, tumultuoso trajeto descrito por Luiz Gonzaga em “Asa Branca”. Acompanhado por Caetano, Gil organiza reuniões para testar as novas teorias, convida todos os músicos e amigos, e apresenta a proposta de um novo Brasil, total renovação com possíveis efeitos destruidores. No canto, a beber cerveja atrás de cerveja, Chico Buarque não consegue parar de rir a ouvir as teorias esotéricas dos baianos.

Hotel Danúbio, Centro, São Paulo

“Defender O Que É Nosso” e “Marcha Contra a Guitarra Elétrica” foram os slogans do ato público mais caricato na história da MPB. Elis Regina liderava o protesto, e Gilberto Gil cai desamparado na manifestação, pela causa humanitária de terminar com a influência do iê-iê-iê na música brasileira. Contra a guitarrada marchar marchar, e Caetano na companhia de Nara Leão a ver tudo da janela do Hotel Danúbio, chocado com a presença do colega revolucionário numa manifestação tão arcaica, mea culpa que Gil carrega até hoje.

Gilberto Gil e Gal Costa (Foto: filme “Tropicália”)

Porém, nessa altura Gil estava totalmente imerso nas políticas internas da TV Record, com o dono da emissora, Paulinho Machado de Carvalho, a tentar desesperadamente recuperar as audiências do Fino da Bossa, programa destronado pelos cabeludos da Jovem Guarda, profetas da guitarrada no Brasil. É Gil que sugere Caetano para ajudar na missão de recuperar audiências, e nos quartos do hotel, os amigos gozam o estrelato de aparecer com frequência na televisão nacional, acompanhados pelo vizinho Torquato Neto, poeta, símbolo da contracultura e mais um fundador da Tropicália.

Finalmente, a data estava marcada. No dia 21 de Outubro seria o culminar das reflexões de Caetano e Gil sobre a música brasileira, a instauração oficial da Tropicália em direto na TV, movimento que ganha nome com uma canção de Caetano, que por sua vez, rouba o título à instalação do artista plástico Hélio Oiticica.

“Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No planalto central do país”

Assim canta Caetano, construindo o Brasil imaginário, um sonho idílico na mesma medida da capital em Brasília, repleto de canções monumento. Nessa cidade cria um mito dadaísta de cangaceiros de Pernambuco, Carmen Miranda, Ipanema, e no fim Roberto Carlos, condenado todos a ir para o inferno, meu bem. “Tropicália” é a peça central do álbum de Caetano em 68, mas foi com “Alegria, Alegria” que os televisores brasileiros ganharam uma cor que nunca tiveram, mesmo a preto e branco.

[“Alegria Alegria”, Caetano Veloso]

“Caminhando contra o vento/ Sem lenço e sem documento”, canta ainda um pouco reticente para o extasiado público de III Festival de Música Popular Brasileira, que responde num misto de vaias e coro. A marchinha — composta de improviso no quarto da Fossa para o festival — é um jingle irresistível para a vida jovem em 67, com “Brigitte Bardot” na cabeça, “bancas de revista”, “Coca-cola”, “televisão” e uma geração que segue vivendo, porque não.

O ataque aos costumes da canção brasileira ia acontecer por duas frentes, com esta “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque” de Gil, acompanhado pelos paulistas Os Mutantes, devidamente apresentados pelo arranjador da Tropicália, Rogério Duprat. “O grande desafio da minha vida profissional mesmo começou com ‘Domingo no Parque’”, reconheceu Rita Lee ao Observador. Escrita à pressão no hotel, “Domingo no Parque” vira uma mescla de rock com berimbau, ousadia que faz tremer as pernas do compositor, que é arrastado para o palco totalmente aterrorizado (comprovem a cara de agonia no vídeo, minuto 2:).

[Gilberto Gil e “Domingo no Parque”]

Os baianos não vencem o festival, mas passados 50 anos é deles, e será sempre deles, que vamos continuar a falar. O falatório começou logo no dia seguinte, opiniões divididas num país repartido entre apoio ou repúdio às duas canções, que eram brasileiras, mas descaradamente anglo-saxônicas, de barulhenta guitarrada, no momento delicado que os norte-americanos estavam a interferir na política brasileira através das operações secretas da CIA, objetivo supremo de irradiar o comunismo.

O ambiente politizado interfere nos festivais, e o público estudantil de esquerda exige vencedores com uma mensagem clara de oposição, com a crença absoluta que talvez através das canções nacionais o país possa encontrar o rumo democrático. No geral, o corpo cultural brasileiro fica perplexo com as apresentações elétricas e populares dos baianos. Afinal estes miúdos estão aqui a apoiar o capitalismo, e por consequência a ditadura?

A punhalada final na consciência nacional foram os dois primeiros discos tropicalistas, com cobertura massiva de imprensa, a colher frutos do zeitgeist do movimento. Rogério Duarte desenha as capas, Caetano totalmente flower power e Gil veste a icônica vestimenta da Academia Brasileira de Letras, puxando a veia sertaneja em “Coragem Pra Suportar”, delineando a iconografia miserável do nordestino em linhas elétricas alteradas pelo ácido californiano. “Marginália II”, épico dissonante escrito com Torquato Neto, faz o retrato apocalíptico do país de joelhos entre bananeiras e palmeiras, “o fim do mundo” numa tropical melancolia.

[“Marginália II”, de Gilberto Gil]

Esquina da Ipiranga com São Luís, São Paulo

“Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João.” Os versos de “Sampa” contam o amor à primeira vista de Caetano com São Paulo, nessa mesma Rua Ipiranga, mas na esquina com São Luís, muito perto do cruzamento da canção, que tem a vantagem de rimar. Na varanda, aproveita a vista para o gigante Edificio Itália, rodeado pela peculiar decoração de manequins, móveis de acrílico transparente, murais coloridos e um intimidante gancho de talho.

Não julguemos, afinal era um apartamento anos 60, e nessa reclusão de vigésimo andar morava Caetano com Dedé, recém esposa e antiga paixão de Salvador. Alguns andares abaixo estava o empresário Guilherme com Gal Costa, a melhor amiga de Dedé, e a única baiana da turma que faltava cumprir uma carreira de sucesso. Se perguntassem ao porteiro da esquina da Ipiranga com São Luís, nem ele saberia indicar se naquela balbúrdia de entra e sai moravam só esses quatro, ou também Os Mutantes, Zé Agrippino, Tom Zé, Gilberto Gil, e até uns velhos bem compostos identificados como poetas concretistas.

Caetano, Gil, Gal, Tom Zé, Mutantes, Nara Leão, Capinam, Torquato Neto e o maestro Rogério Duprat estão armados em versátil super banda, uma tradução sonora de todos os conceitos que nascem em democráticos brainstormings, desde o kitsch operístico de “Coração Materno”, provando que o foleiro tem valor, à delirante balada “Baby”.

A poesia visual de “Batmacumba”, ou melhor, concretista, foi uma descoberta inspirada pelas visitas recorrentes dos três poetas que lançaram nos anos 50 o movimento da poesia concreta. “Batmacumba” não é apenas uma canção que desce e sobe, é também uma letra que faz exatamente o mesmo exercício, ora vejamos:

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba

Bat Macumba ê ê, Bat Macum
Bat Macumba ê ê, Batman
Bat Macumba ê ê, Bat
Bat Macumba ê ê, Ba
Bat Macumba ê ê
Bat Macumba ê
Bat Macumba
Bat Macum
Batman
Bat
Ba
Bat
Bat Ma
Bat Macum
Bat Macumba
Bat Macumba ê
Bat Macumba ê ê
Bat Macumba ê ê, Ba
Bat Macumba ê ê, Bat
Bat Macumba ê ê, Batman
Bat Macumba ê ê, Bat Macum
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Os concretistas Décio Pignatari, Haroldo e Augusto Campos aceitaram de imediato a proposta da Tropicália, e entregaram a Caetano e Gil um trabalho de casa que seria a peça final do puzzle. “O Manifesto Antropofágico”, do modernista Oswald de Andrade, descreve o conceito de canibalismo cultural, tese que toda nova informação, seja nacional ou estrangeira, deve ser “comida” e digerida para criar algo único e brasileiro, mas sempre de base internacional, consumível e exportável. Ou seja Banda dos Pífanos e Beatles, Bossa Nova e Jovem Guarda, Terra em Transe e Coca-cola, Caetano e Gil.

Na mesma altura, Zé Agripino escreve Panamérica, defendendo igualmente uma miscelania brasileira repleta da iconografia mitológica de Hollywood, e o dramaturgo e encenador Zé Celso começa a testar os limites da participação ativa do público no teatro, introduzindo o elemento performático na apresentação dos baianos. Se o rumo musical já estava definido antes, o movimento se reinventava num mutante capaz de absorver qualquer informação envolvente, tudo sujeito a levar com a etiqueta de “Tropicália”.

Gil, o primeiro paulista do grupo, vivia a poucos passos do apartamento na esquina da Ipiranga, e relativamente perto do Hospital Sírio-Libanês, onde esteve no início deste 2017 internado, assustando o Brasil inteiro, e quem sabe o resto de mundo, mero recreio musical do virtuoso baiano. Na casa de Gil, Gal Costa explicou que queria cantar como nunca cantou, aproveitar ao máximo a oportunidade de exposição no novo festival da TV Record. “Eu estava ali com a turma, participava nas conversas, ouvia muita música com Gil, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, tudo o que você pode imaginar de música daquela época, a gente ouvia incessantemente”, contou Gal ao Observador numa entrevista ainda não publicada, “aquilo foi mexendo comigo, foi me transformando.” A transformação seria total com “Divino Maravilhoso”, e Gal renasce fatal, aos gritos desesperados contra os telespectadores, o público, os militares, alertando que “Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte.”

[“Divino Maravilhoso”, de Gal Costa]

“São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor”

“Sampa” é bonito, mas a melhor homenagem a São Paulo ainda é de Tom Zé, na ironia característica que Caetano descreve como “pseudomal-humorada”. “São, São Paulo”, do álbum tropicalista de Tom Zé, nunca existiria se o companheiro não tivesse convidado esse tipo de “físico de duende mameluco” – nas próprias palavras de Caetano — para o acompanhar a São Paulo na andança tropicalista. Tom, que era uma figura proeminente dos círculos académicos de Salvador, estava ali num campo de ninguém perfeito, entre o camponês e vanguardista, e seria a aquisição final para gravar o álbum manifesto.

[“São São Paulo”, de Tom Zé]

“Já não somos como na chegada/ Calados e magros, esperando o jantar”, começa Tropicália ou Panis et Circencis, anunciando a hora dos miseráveis entrarem na batalha, “Derramemos vinho no linho da mesa/ Molhada de vinho e manchada de sangue”.

Caetano, Gil, Gal, Tom Zé, Mutantes, Nara Leão, Capinam, Torquato Neto e o maestro Rogério Duprat estão armados em versátil super banda, uma tradução sonora de todos os conceitos que nascem em democráticos brainstormings, desde o kitsch operístico de “Coração Materno”, provando que o foleiro tem valor, à delirante balada “Baby”, vulgarizando a aclamada Carolina de Chico Buarque, aqui tão fundamental como gasolina, margarina, piscina e aquela canção de Roberto. Era o canibalismo cultural de Oswaldo traduzido em canções pop, com a estranheza dos arranjos de Duprat e eficiência rock dos Mutantes.

Termina numa ode baiana em “Hino ao Senhor do Bonfim”, mas o hino estava escondido a meio da tabela. “Geleia Geral”, com letra de Torquato, é o melhor exemplo aglutinador destes compositores, num refrão de iê-iê-iê em convívio com a dança folclórica Bumba meu boi:

“Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira num calor girassol com alegria
Na geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi”

Radiantes, a turma que acaba de mudar o rumo da música brasileira no estúdio, vai gozar os espólios no Patachou, restaurante hype na Rua Augusta. Entre os fregueses estava Geraldo Vandré, o rapaz propaganda das canções de protesto, idolatrado pela esquerda estudantil. Geraldo aproxima-se e sugere que Gal cante uma das músicas desse tal disco que acabaram de gravar. Confiante, Gal começa: “Você precisa saber da piscina.” Seria a primeira opinião de alguém fora de grupo, uma perfeita amostra do que seriam algumas das reacções ao álbum manifesto. “Isso é uma merda”, remata, e volta para a mesa.

Boate Sucate, Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro

Perna cruzada e braços estendidos, um repouso de herói ou enterro de anjo caído. O retrato do infame Cara de Cavalo, executado pela polícia carioca e deitado morto no chão, ganhou vida em obra de Hélio Oiticica com a legenda “Seja marginal seja herói”. A arte controversa do artista-plástico que deu nome ao movimento Tropicália, estava exposta pela primeira vez na Praça General Osório em Ipanema, convidava o público a corromper a barreira do socialmente aceitável, a ser bandido, ser controverso, ser marginal, ser malandro, tudo menos colaborar com o regime vigente.

A capa de “Tropicalia ou Panis et Circensis”

A obra era inclusive uma bandeira, a mais marcante da exposição Festival das Bandeiras, com a presença de outros ilustres como Nelson Leirner e Rubens Gerchman, este último que inspirou Nara Leão a cantar “Lindonéia” no álbum manifesto. A exposição criou um pequeno alarido, uma agitação pívia em comparação com os concertos dos tropicalistas na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde a bandeira de Oiticica estava hasteada em frente ao palco, fazendo sem medo o vil convite, seja marginal, seja herói.

1968 foi o auge de movimento, o ano da vitória antes da violenta derrocada. Ao mesmo tempo que o Festival das Bandeiras estava na General Osório, Nara apresenta o concerto Tique-Taque no Teatro de Bolso, na mesma Ipanema que antes a colocou no pedestal da Bossa, agora obrigada a engolir a musa como intérprete de “Tropicália” e “Lindonéia”. Maria Bethânia, publicamente fora de qualquer cena grupal, canta “Marginália II” e “Baby” no Recital na Boite Barroco em Copacabana. Rogério Duprat faz de George Martin e lança o álbum sinfónico A Banda Tropicalista do Duprat, Os Mutantes lançam o melhor álbum rock do Brasil, e até o popular Jorge Ben, referência importante dos tropicalistas, cede à moda e grava o salmo: “Moro num país tropical, abençoado por Deus/ E bonito por natureza.” A tendência estava de tal forma evidente que chega a Lisboa, com Gil e Caetano no espetáculo Momento 68.

[“Marginália II”, por Maria Bethânia]

Os bastidores eram a praia do empresário Guilherme, a tentar lucrar no meio destes devaneios ideológicos. Numa negociata, fecha a participação de Caetano no próximo Festival da Globo, com o baiano a perverter o negócio, ao entrar em palco de indumentária plástico verde, colares de fios elétricos e correntes com dentes de animais, a declamar Fernando Pessoa por debaixo do cabelo colossal.

Não bastasse as citações de “Mensagem”, ainda decide cantar a inédita e confrontacional “É proibido proibir”, imediatamente rejeitada pelo público. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado!”, reage logo Caetano enfrentando a plateia, “Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada”, continua, terminando de forma extraordinária com “Deus está solto!”

[“É Proibido Proibir”, com Caetano e Os Mutantes]

Libertos das amarras da televisão e da audiência sensível, Gil, Caetano e Os Mutantes decidem que a melhor opção para apresentar a visão total cênica e musical do movimento seria começar uma temporada de concertos no Rio. Na boate Sucata, Lagoa Rodrigo de Freitas, fazem as atuações mais memoráveis de todo o período, com tons de power trio, performances inspiradas em José Celso, e no centro a bandeira de Oiticica a sublinhar a subversividade da apresentação. Um certo juiz visita o happening, e indignado com a bandeira, pede a suspensão imediata da temporada e fecho da Sucata.

A boate fecha mesmo e entra para a longa lista de ataques diretos à liberdade de expressão na arte brasileira, pouco tempo depois da “Roda Viva”, peça de Chico Buarque, acabar em pancadaria geral pelas mãos do Comando de Caça aos Comunistas. Hoje, é outra vez época de caça, e o conservadorismo que assola a política brasileira chegou invariavelmente aos espaços culturais, onde uma peça de teatro e uma exposição foram encerradas por exigência de indignados nas redes sociais, com apoio de prefeitos e deputados, sensíveis a temas sexualmente explícitos. Passados 50 anos, a questão da censura na arte é novamente o principal tema de debate na política cultural, ou como diria Caetano, vocês não estão entendendo nada.

Na TV Tupi, emissora regional do Rio, a Tropicália apareceu pela última vez na televisão. Inspirados no surrealismo de Chacrinha, principal apresentador do Brasil, abrem as “portas para a tropicanalhada toda pintar e bordar à vontade”, nas palavras de Rita Lee na autobiografia. “Fellini teria dado nota máxima no quesito porra-louquice”, garante, e foi mesmo numa encenação dos Mutantes que fizeram o enterro da Tropicália, movimento exterminado com apenas um ano e pouco de vida. Porém, o verdadeiro enterro aconteceu no dia 13 de Dezembro, pelo nome legislativo de “Ato Institucional Número 5”, nova lei que dava carta branca ao regime militar para perseguir, prender e torturar qualquer cidadão. Acabava o período heróico dos marginais.

Avenida Presidente Vargas, Centro, Rio de Janeiro

Sempre que aparecia uma barata todos os fregueses batiam os talheres até a indesejada ser retirada da sala. A cena era rotina no Restaurante Calabouço, na Avenida General Justo com Santa Luzia, onde os estudantes aproveitavam os preços amigáveis e se divertiam com a comida medonha. Edson Luis, de 18 anos, era mais um entre as centenas que estam lá todos os dias, em protesto pelas baratas, e sobretudo, em protesto contra o regime militar, reunido com os amigos em frente ao restaurante.

Na passeata dos cem mil (foto: filme "Tropicalia")

No dia 28 de Março, 68, a polícia decide intervir, atirando para todos os lados, e atingindo o jovem Edson Luis, agora renascido em mártir da causa estudantil, peça importante para deflagrar a guerrilha urbana. Caetano e Gil, que já tinham explicado que não eram mais calados e magros, se identificam com a causa, e participam na célebre passeata dos 100 mil, em honra ao estudante assassinado. A marcha, um dos grandes atos de tenacidade antes do Ato Institucional Número 5, segue calmamente pela Rio Branco, e para azar dos tropicalistas, com amplo registo fotográfico.

Agora, numa altura onde as marchas e passeatas são convívio diário dos cariocas, as manifestações ainda prosseguem no mesmo percurso da passeata dos 100 mil, ou no caso de participação massiva, na Avenida Presidente Vargas, a mesma onde antigamente desfilavam as escolas de samba. “Vamos passear na avenida”, convida Caetano em “Enquanto seu Lobo Não Vem”, onde “A Estação Primeira da Mangueira passa em ruas largas”, e “os clarins da banda militar”, sempre “debaixo das bombas, das bandeiras.” Na missa de sétimo dia de Edson Luis, Rogério Duarte está entre os manifestantes na Presidente Vargas, é surpreendido pela polícia e preso, a primeira baixa do movimento que no final de ano não teria mais membros.

“Eu e Rute assustados nos abraçando ao lado das bombas de fumaça na Avenida Presidente Vargas, e em todos os lados, impedindo a entrada na igreja, a grande porta do medo”, descreve no arrepiante testemunho “A Grande Porta do Medo”, escrito após uma semana de tortura na prisão militar, “Prenderam-me para que eu transmitisse à minha classe o sinistro recado.”

[“Enquanto Seu Lobo não vem”]

Quartel da Polícia do Exército, Tijuca, Rio de Janeiro

Na noite de 27 de Dezembro, a polícia militar invade o apartamento na esquina da Ipiranga, apenas alguns dias depois de ser declamado o Ato Institucional Número 5, que o próprio Caetano ainda não tinha entendido totalmente. Repetem o exercício na casa de Gil, e os dois seguem apavorados, sem qualquer explicação, dentro de uma van a caminho do Rio de Janeiro. São apreendidos no antigo Ministério de Guerra, na Presidente Vargas, e são empurrados depois para dentro das celas escuras no Quartel da Polícia de Exército, Tijuca, e nesse processo kafkiano ficam dois meses em condições deploráveis, sem conhecer a razão de estarem enfiados no xadrez.

Proibidos de abandonar Salvador, Gil faz um álbum francamente tropicalista, um mergulho profundo nas explorações Hendrix, mas sem qualquer atitude desafiadora característica do movimento. Caetano, transforma a depressão em música, abandona quase por completo o carnaval que orientou um ano antes e faz o seu White Album.

Após dois longos meses, e uma entrevista com vagas acusações sobre a bandeira de Oiticica e a passeata dos 100 mil, a polícia militar chega à conclusão que tem de soltar os tropicalistas, e decidem empatar enviando os dois para casa dos pais, em Salvador. Magros, sem cabelo e motivação, gravam desorientados um disco cada um, afinal que sobrava fazer para os dois compositores nessa espécie de prisão regional.

Proibidos de abandonar Salvador, Gil faz um álbum francamente tropicalista, um mergulho profundo nas explorações Hendrix, mas sem qualquer atitude desafiadora característica do movimento. Caetano, transforma a depressão em música, abandona quase por completo o carnaval que orientou um ano antes e faz o seu White Album, desprendido de pop, a meio caminho do freak folk de Transa, e até com fado “Os Argonautas”, se fossem necessárias mais provas que estava deprimido.

[“Os Argonautas”, de Caetano Veloso]

“Navegar é preciso/ Viver não é preciso”, canta com ligeiro sotaque tuga, e a navegação seria mesmo colonial, rumo a Lisboa, com despedida no Teatro Castro Alves. A ordem foi clara, tinham de se exilar, solução final para se livrarem desses marginais, e deviam tocar para juntar o máximo dinheiro possível para a viagem. No concerto emocionante, Gilberto Gil prova novamente porque é melhor pessoa que nós todos, e em vez de carregar uma mágoa vingativa em versos com indiretas, estilo Chico, decide tocar pela primeira vez uma ode de despedida ao Brasil. “O Rio de Janeiro continua lindo”, garante, mesmo com dois meses de injusta e tortuosa prisão:

“Pra você que me esqueceu
Aquele abraço!
Alô Rio de Janeiro
Aquele abraço!
Todo o povo brasileiro
Aquele abraço!”

[“Aquele Abraço”, de Gilberto Gil]

Lisboa, Portugal

“A música que fazem hoje ainda deve ser subordinada a uma classificação geral de tropicalismo?”, pergunta Carlos Cruz para Caetano e Gil, com a plateia de Zip-Zip atenta à resposta dos baianos, exilados e novamente proibidos de expressar a condição em pleno Estado Novo, no dia 4 de Agosto de 69. “Não, eu acho que não, porque o nome de um movimento só existe enquanto um movimento existe, e o tropicalismo não existe mais como movimento”, responde Caetano ao lado de Raul Solnado, “Ele frutificou, o que nós tentamos fazer chamou a atenção dos outros compositores novos brasileiros, eles foram e de uma certa maneira, modéstia á parte, influenciados pelas nossas ideias.” “Mas, nós já não estamos no Brasil e já não há o tropicalismo como movimento”, realça novamente, “De modo que o que a gente faz hoje, é irresponsável em relação ao movimento tropicalista.”

O álbum de Gal tinha sido finalmente liberado pelo regime militar, em vez de mais um testemunho da força da Tropicália, fica com sabor de anticlímax melancólico, com os dois principais compositores exilados em Lisboa. “Tudo nos era enternecedor, mas deprimente”, recorda Caetano em Verdade Tropical, emocionado com Portugal mas cada vez mais deprimido com esse “povo triste jogado fora da história em um belo lugar.”

Antes de partir com Gil para Londres e refazer toda a carreira, aceita o desafio de uma pequena visita a Sesimbra, de encontro a “um senhor português que tomava conta do castelo medieval da colina e era tido como alquimista.” O alquimista não é de meias medidas, e explica a Caetano que a Tropicália é na realidade uma premonição de sebastianismo, uma profecia para o regresso triunfal do Brasil pelo nevoeiro. Contrariado, o baiano tenta explicar a visão geral movimento, o confronto com a ditadura em versos violentos, o “Terra em Transe”, o nordeste miserável da Bando dos Pífanos, a ironia, pop art, a Bossa Nova e Jovem Guarda, a contracultura de Rogério e Torquato, os mitos de Agrippino, a poesia de Capinam e concretistas, José Celso, Oiticica, e o “Manifesto Antropofágico”. O alquimista ouve atentamente e sorri. “O que sabem as mães de seus filhos?”. O baiano engole em seco e fica calado. A Tropicália já não era de Caetano Veloso e Gilberto Gil, era de nós todos.

A imagem principal deste artigo é do filme “Tropicalia”, com distribuição portuguesa da Alambique

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